CARNAVAL, CARNAVAIS II

8 \08\UTC março \08\UTC 2011 at 12:26 1 comentário


É tempo de folia e como acontece há mais de 200 anos, o bloco do Zepereira, percorreu a cidade com seu toque de tambor e refrão característicos. Nos antigos jornais da cidade, do século XIX, sua presença nas ruas no carnaval era citada. Outros blocos também, como o Filhos de Averno, Pele Preta, Anjos de Veneza, Clube de Moças e outros eram mencionados, mas só o zepereira chegou até nós. Vamos saudar sua existência.

Assisto do meu portão, ao lado do meu neto Pedro, mais uma vez, a difícil travessia dos carros alegóricos da E. S. Congos pela esquina da rua do Rosário para a rua Coronel Cintra. São carros bonitos, atraentes, com excelente acabamento, muito grandes para as ruas do centro histórico da cidade. É o que se percebe na passagem da esquina da rua do Rosário, que foi uma das mais importantes no século XIX, com seus 37 sobrados, onde moravam os empresários e oficiais dos vapores do nosso porto.

Todo ano é a mesma coisa e a Ampla,com sua reconhecida incompetência, que mereceu até CPI na Alerj, não colabora, deixando um poste bem na esquina, a menos de dois metros de outro poste. E não é por falta de reclamações à empresa.

Enquanto assisto às complicadas manobras, como todos os anos, relembro antigos carnavais, quando tinha aproximadamente a mesma idade de Pedro e via tudo das janelas do sobrado do meu avô, nessa mesma esquina.

Lá vinham os Congos e o Chinês, sem carros alegóricos – ou alegorias – com o casal de porta bandeira e mestre sala evoluindo ao som de marchas-rancho, tão gostosas, singelas e tocantes. O casal seguia pelas ruas de areia, com garbo e ritmo, ladeados por duas alas de moças fantasiadas. Lembro que anos mais tarde, falando sobre nosso carnaval no jornal O Sanjoanense, do nunca esquecido Alberto Simões, estranhava que os rapazes não participassem do desfile. Era exigir demais de sua macheza. Tempos duros, quando os homens não se permitiam certas brincadeiras, por medo de ser tachados de gays, o que, numa cidade provinciana e cheia de preconceitos como a nossa, era ser estigmatizado. No entanto, havia jogadores de futebol que gostavam de rapazes e um travesti, que no carnaval saía fantasiado de baiana ou sereia, não lembro, com luzinhas piscando no turbante. Ah, e havia também os que ficavam no armário até morrer.

Havia ainda uma enfermeira que se vestia usualmente como homem, o que hoje é chamado de dress-crossing. Usando impecável terno branco, de linho, muito bem passado, ou caqui, cabelo de corte masculino, gravata e chapéu, e fumando seu indefectível charuto, ela subia na bicicleta, as bainhas da calça presas por uma espécie de presilha, comum na época para proteger as bainhas das calças dos ciclistas dalama das ruas, e munida de seringa e ampola ia atender seus doentes.

Mas o que motiva esta crônica é comentar que os velhos Congos e Chinês tinham uma característica que falta às agemiações de hoje: envolvimento emocional e a participação aguerrida da população. As paixões eram tão fortes que alguns congoleses radicais não falavam com chineses, às vezes dentro da própria família.

O povo sanjoanense foi sempre muito emotivo e participativo, o que não se vê nas audiências públicas de agora, onde o cidadão não comparece, por descrença ou por achar que tudo já foi decidido previamente nos bastidores.

No tempo em que o Congos e Chinês eram blocos e não escolas de samba, o povo torcia calorosamente, como se torce pelos times de futebol. Era assim nos tempos do decantado carnaval de 1913, véspera da primeira guerra mundial, quando os mais aficionados seguidores do Democrata e Operários – que correspondiam ao Chinês e Congos de hoje – se enfrentaram em plena praça do padroeiro, numa briga que ficou na história do nosso carnaval. Era comum, no dia do desfile, sair uma passeata criticando o outro bloco e havia olheiros para descobrir os enredo, as alegorias e desfilar com elas de forma caricata. Por causa disso um dos carnavalescos teve um enfarte e faleceu.

Durante muitos anos a animosidade, transferida para Congos e Chinês persistiu, e no tempo em que o Chinês vinha pela rua São João, atravessava a cidade, circundava a praça de São Pedro e retornava a seu ponto de partida e o Congos seguia pela rua dos Passos, circundava a praça de São João Batista e ia até onde é hoje o início da estrada para Atafona, as agressões eram constantes. Do alto dos muros e das janelas atiravam-se pedras nos desfilantes do bloco adversário. Para evitar que se encontrassem e partissem para um confronto perigoso, desde 1913 a prefeitura determinava que cada um saísse em horário diferente.

O que eu quis mostrar, ao relembrar esses fatos do passado, é que o carnaval de hoje, com suas luxuosas escolas de samba, que ostentam fantasias belas e caríssimas, se transformou em produto turístico e não mais no divertimento para o povo sanjoanense. O carnaval foi confinado na rua Direita, onde os blocos e escolas de samba se apresentam, assim como os mascarados sujos e dominós. As críticas carnavalescas rareiam. Tudo acontece numa espécie de ilha, deixando de fora o resto da cidade. Não se vê mais a participação popular. Não é crítica, é constatação.

Aconteceu mudança semelhante na cidade do Rio de Janeiro, de onde se copia o formato e as músicas das escolas de samba. Numa lenta e firme reação popular, de quem gosta de curtir o carnaval sem ser sentado numa arquibancada, pelos subúrbios o carnaval popular começa a ressurgir, com bailes, blocos e cordões de mascarados.

Como as cidades do interior tendem a copiar o que acontece na capital, é possível que dentro de alguns anos, em torno da ilha oficial, ressurja o carnaval do povo. Tomara.


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NOTASDO PARAÍSO LII NOTAS DO PARAÍSO LIII

1 Comentário Add your own

  • 1. joao noronha  |  9 \09\UTC março \09\UTC 2011 às 20:48

    Caro Carlos AA,
    Bem lembrada a desmotivação do público, em relação ao desfile de Congos e Chinês. Se por um lado a nova condição dos blocos que se tornaram escolas de samba para que a subvenção oficial aumentasse, por outro, a perda de identidade das agremiações despertou o interesse de desfilantes de fora em participar do carnaval. Todos parecem querer mostrar apenas suas fantasias, mas sambar mesmo poucos sabem fazer. Acredito também que o resgate dos bailes populares é uma excelente opção de entretenimento durante a folia. Muita gente reclama que a festa está restrita apenas à Joaquim Thomaz, enquanto ao redor dela existem espaços para os bailes. Abraços

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