O PARAIBÃO, A MAIOR VÍTIMA DO HOMEM

22 \22\UTC fevereiro \22\UTC 2011 at 11:54 1 comentário

Quando conheci o rio Paraíba do Sul ele era uma pujante corrente de água turva, razão de seu nome em tupi. Eu ia toda manhã comprar leite na antiga fábrica de manteiga, na beira rio, e apreciava as enormes pranchas aportarem com seu latões de leite, que eram erguidos para a fábrica através de um rústico sistema de roldanas.

Era intenso o movimento no porto. As pranchas, vindas de Gargaú, onde havia importante feira de produtos agropecuários, ancoravam ao longo dos cais do mercado – no início da povoação foi o mais importante, por dar acesso ao prédio da Casa de Vereanças (Câmara) e Cadeia Pública e igreja -, do da praça – mais tarde chamado do Imperador, por ter Pedro II desembarcado ali – da Imperatriz, onde ficava originalmente o pelourinho, depois transferido para o porto do Pires, em frente à sede e ao barracão dos Congos – o do Alecrim e o do Lopes.

O espaço hoje ocupado pela Cedae era parte da rua do Rosário, cujas dez casas foram arrasadas por uma enchente em 1767, e nunca areconstruídas. Ali mais tarde funcionou o estaleiro da Cia. de Navegação São João da Barra – Campos. Essa foi uma das piores enchentes que ocasionalmente transformavam o rio num destruidor das vilas em suas margens. A enchente mais violenta que alcancei foi a de 1966, quando a água chegou quase ao topo da base do canhão em frente aos prédios da administração municipal e destruiu grande parte dos arquivos públicos, jogados no chão do térreo. Nesse ano, pela primeira vez um pároco do município, o dominicano padre Jacques, visitou a ilha de Convivência. Eu estava junto na lancha.

As cheias do Paraíba do Sul acontecem sempre no verão, em função das fortes chuvas que caem na sua cabeceira, na serra da Bocaina, e nos afluentes, como o rio Pomba, o Muriaé e outros menores. Segundo Horácio Sousa, em seu livro “O cyclo áureo”, as mais célebres enchentes do Paraíba aconteceram em 1833, 1841, 1856, 1859, 1877, 1882, 1895 e 1906. Era comum na época ver boiadas sendo atravessadas a nado das ilhas para a parte continental, acompanhadas por vaqueiros a cavalo, com cachorros a segui-los.

As águas barrentas invadiam as ruas da cidade, daí as calçadas bem altas, como as do Fórum. Uma dessas calçadas, numa esquina da rua dos Passos, vitimou meu avô materno, em sua volta para casa, depois de ter passado a manhã administrando o sítio Pitangas, onde produzia leite e lenha. Não havia gás. O cavalo da charrete, assustado, empinou, e o lançou de costas na ponta da calçada. O tumor que surgiu no local da pancada o matou.

Por causa da certeza das cheias, que tal qual as do rio Nilo, fertilizavam o solo de massapé, os goitacá, índios de alto QI, erguiam suas cabanas sobre mourões, impedindo que fossem arrastadas pelas águas. Águas traiçoeiras  que surgiam a qualquer hora, mas previsíveis porque cresciam de volume no verão.

Nesse tempo, apesar da navegação costeira estar em decadência, era grande o número de embarcações, pranchas, batelões e botes – e uns poucos navios descarregando ou carregando mercadoria no porto, daí o grande número de estivadores e embarcados – como eram chamados os que trabalhavam a bordo – mecânicos navais e outros profissionais ligados à navegação, circulando pela rua Bela Vista.

Era comum o aparecimento de afogados, que o rio arrastava das cercanias de Campos. Vi alguns, visão terrível, assim como vi uns poucos navios balançando nos banzeiros, como o Belmonte. Era o tempo em que as garças pontilhavam de branco suas margens e os miuás (biguás), só com o longo pescoço e a cabeça de fora, formavam círculos negros no meio da corrente, cercando os cardumes de piabas, duiás, robalos, tainhas, traíras, piabanhas, piaus,dourados, jundiás, curumatãs, surubins, bagres, paratis e muitas outras espécies de peixe hoje sumidas do rio. Tão sumidas que as garças e os miuás, que se alimentam de peixes, também sumiram. Restam poucos e arredios socós no meio do manguezal. Os pescadores também tendem a desaparecer.

Quando começou a degradação desse importante rio, que durante anos foi a estrada a permitir a penetração e ocupação da planície?

Foram as intervenções humanas em seu leito, certamente, seja na instalação de reservatórios de hidrelétricas, seja no aproveitamento de suas águas para dessedentar as populações e plantações ribeirinhas. Foi a inconsciência do homem, sem dúvida o grande predador, destruindo tudo que gosta, como certos vírus e bactérias que destroem os organismos que as hospedam.

 

 

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1 Comentário Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  22 \22\UTC fevereiro \22\UTC 2011 às 20:34

    Prezado Carlos,
    Excelente relato! Guardarei com carinho mais esta sua pesquisa! E por falar nisso, estou brincando de esculpir os antigos pranchões de nossa cidade, pois descobri que é um hobby muito gostoso. Enviarei umas fotos para seu e-mail. Vou desenvolver uma boa técnica, pode ter certeza!
    Abraços a ti e na Germana.
    Atenciosamente,
    Andre Pinto

    Responder

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