NHÁ, A GARCINHA

6 \06\UTC janeiro \06\UTC 2011 at 07:58 Deixe um comentário

Mais uma história para crianças de todas as idades

A garça boiadeira estava se sentindo cansada de dar pulinhos, tentando pegar o carrapato que se agarrara ao interior da orelha do bezerro. Ela não gostava de caçar sua comida em bezerros muito novos, sempre inquietos e nada colaborativos. Impacientes, sacudiam a cabeça ou davam patadas, incomodados porque muitas vezes, para pegar o carrapato, ela beliscava sua orelha. Os garrotes e os bois sabiam que era aborrecimento necessário, uma espetadela, uma dorzinha que indicava que tinham ficado livres dos sugadores carrapatos, sempre sedentos de seu sangue. Os animais mais velhos se colocavam numa posição que facilitava a captura dos insetos. Mas os bezerros…

– Ah, essa bezerrada, suspirava ela, está cada vez pior.

Nhá não via a hora de se sentir saciada e voltar para o garceiro na beira do rio. Estava ficando velha e cansada e agora o que mais gostava de fazer à tarde era ficar de prosa com outras garças, cansadas como ela, pousadas nos galhos da árvore, cercadas por ninhos e filhotes piantes, sempre reclamando mais comida. Já passara por isso e guardava boas recordações desse tempo. Hoje, seus filhotes eram garças adultas, pais e mães bem sucedidos, com ninhos e ninhadas próprios.

Em outros tempos ficava zanzando pelo pasto até o sol baixar de todo no horizonte, junto com o animado bando de garças jovens, que catavam carrapatos e grilos até o papo não agüentar mais. Adorava voar no meio das outras, formando uma espécie de branco véu semovente no céu rosado do fim da tarde. Ainda curtia apreciar esse espetáculo, só que pousada no seu galho, os olhos quase fechando de sono.

Nhá gostava de observar a vida dos passarinhos a seu redor. Não que fosse fofoqueira, que quisesse meter o bedelho ou dar palpite na vida dos outros, gostava era de bater papo, saber das novidades, acompanhar o que acontecia em seu amplo mundo aero-aquático. Apreciava ver as andorinhas fazendo piruetas, as garças reais em seus vôos majestosos e até mesmo o vôo retilíneo das máquinas humanas que cruzavam seu céu de tempos em tempos. Era curiosa e amante de novidades.

Nhá fez mais algumas tentativas de pegar o carrapato na orelha do bezerro irrequieto e se cansou. Desistiu.

– Chega de perder tempo com esse bezerro enjoado.Vou ver se pego uns grilinhos, decidiu.

Grilos, caracóis, larvas, peixes barrigudinhos, besouros, pequenas pererecas e outros bichinhos miúdos estavam no seu cardápio alternativo, para o caso dos carrapatos ficarem escassos ou difíceis de serem apanhados.

Em duas ou três pernadas foi até próximo a uma poça dágua onde os grilos e pererecas costumavam fazer baderna. Ficavam tão entretidos em sua gritaria e saracoteios que não percebiam sua chegada. Num instante seu papo regurgitava de saltitantes petiscos, a se acalmar enquanto eram digeridos.

Encontrou à sua espera o casal de furiosos quero-queros e as nervosinhas piaçocas que se consideravam donos do pedaço e implicavam com quem fosse caçar ali. Nhá pouco se lixava para os chiliques das aves.

– O campo é de todo mundo, pensava, os grilos e insetos não tem dono, são de quem chegar primeiro, ora bolas!

A comida era a principal fonte de brigas no pasto. Os animais grandes nem brigavam tanto, mas os pássaros brigavam sem parar, piavam alto, histéricos, bicavam uns aos outros, agitavam as asas nervosamente, ameaçadores.

Ela não tinha medo de nenhum, travara guerra de nervos com um gavião carrapateiro e saíra vencedora. Conseguira meter nas cabecinhas de um casal de siriri com ninho no pé de jamelão, que o gavião estava de olhos nos seus filhotes recém-nascidos e como existe uma rixa muito antiga de gaviões e siriris, as pequenas e valentes aves não hesitaram em partir pra cima do predador, com a velha tática de procurar atingir seus olhos maus com bicadas, até que o enxotaram para bem longe.

Outra briga, não só dela, mas de todo o bando de garcinhas que freqüentavam o pasto, foi com os anus, uns desgraciosos pássaros pretos, que passam metade do tempo se equilibrando nos finos galhos onde pousam por causa de seu rabo grande, facilmente desequilibrados por qualquer brisa um pouco mais forte. Os anus eram aliados contra os gaviões, mas eram concorrentes na caça de carrapatos, grilos e outros alimentos muito apreciados pelas garcinhas. Viviam refestelados em cima dos bois, com um apetite digno de aves muitas vezes maiores que eles. Não havia carrapato que chegasse, as garcinhas ficavam irritadas quando eles desciam em bando sobre os animais onde elas catavam seu alimento.

De repente o número de anus diminuiu drasticamente e Nhá não soube o que pensar. Conversando com seu companheiro, o único macho que tivera em sua vida e em quem confiava cegamente, ele lhe contou que próximo dali, numa lavoura, o dono havia plantado sementes banhadas em veneno contra pragas. Os anus, gulosos, ansiosos, e sem se preocupar com mais nada, se atiraram nas carreiras plantadas, ciscaram a terra até as sementes aflorarem e as comeram vorazmente. No dia seguinte, ao lado de cada carreira plantada havia uma carreira de anus mortos. Só escaparam os que procuraram alimentos longe dali.

Nhá bem que quis demonstrar tristeza, mas no fundo do coração exultou com a eliminação dos concorrentes.

– Por que ser hipócrita? perguntou às amigas. Quanto menos anus no mundo, melhor.

A partir daí poucos pássaros pretos vieram buscar comida no pasto. Nhá concentrou-se em bicar carões, saracuras e outras aves que atacavam insetos que chegassem perto. Pouco adiantava. Sem saber como fazer para espantar as aves bicudas, preferia evitá-las.

– Quem se mete com adversário maior ou mais forte quer apanhar, justificava.

Na beira da poça, o cardume de barrigudinhos, que sua bisavó dizia que eram chamados de gargaús pelos índios que ali viviam, sacudiam as caudas e barbatanas translúcidas ao nadar. De uma só vez Nhá engoliu dois peixinhos. Os quero-queros se exaltaram e gritaram e as piaçocas avançaram decididas. Indiferente, deu-lhe as costas e continuou a pescar com bico ágil.

– Vamos, dê o fora daqui, gritou a piaçoca macho, abrindo o bico e as asas para mostrar-lhe os esporões nas pontas, como se isso a assustasse. Esse lugar tem dono.

A fêmea vinha logo atrás , na mesma atitude belicosa. Um dos quero-queros voou pra perto, na certa para dar apoio moral ao casal miúdo. Também exibindo acintosamente seus esporões. O quero-quero piava alto.

– E quem é o dono daqui, pode me dizer?

– Nós, as piaçocas e os quero-queros. E não queremos intrusos se aproveitando do que é nosso. Dê o fora, já!

Nhá estalou o bico amarelo mostrando desdém.

– E quem foi que fez vocês donos daqui? Papai do céu?

– Claro, gritou a piaçoca, abrindo mais as asas.

– E vocês tem como provar isso?

A garcinha a olhava de cima para baixo, na maior demonstração de desprezo.

– É só perguntar a todo mundo há quanto tempo vivemos aqui.

– Perguntar a quem, piaçoquinha metida a sabida, aos sapos, às pererecas, aos deliciosos grilos? Como todos eles.

O quero-quero aproximou-se, de cara zangada:

– Comadre piaçoca, se precisar de mim é só dizer. Vamos botar essa garcinha besta pra voar. Está pensando o quê?

A gritaria chamou a atenção dos outros animais que estavam no pasto. Os bois e seus companheiros apenas sacudiram as cabeçorras, demonstrando irritação com o alarido da discussão, mas as outras garças boiadeiras se chegaram aos saltos.

– O que está acontecendo aqui? perguntou uma garcinha de peito largo, pernas fortes e olhar desassombrado, a primeira a chegar.

– São essas piaçocas imbecis, contou Nhá, que não querem deixar que eu cate grilos e besouros alegando que essa terra é delas.

– O quê? estranhou a garcinha forte, arregalando muito os olhos. Que novidade é essa?

Desde quando?

Com a chegada das garcinhas dispostas a brigar, o quero-quero, cauteloso, virou-se e deu um pequeno vôo até onde a fêmea vigiava seu ninho. As piaçocas não souberam o que responder e olharam uma para a outra, desconcertadas. A garça forte assustava.

– Foi um mal entendido, disfarçou a fêmeazinha, encolhendo o corpo avermelhado sob as asas escuras. Vamos, meu bem? perguntou ao macho, lá perto do pé de aroeira está cheiinho de alevinos. Deixe esses bobocas pra lá.

– É bom mesmo, blasonou a garça brigona, que era conhecida por sua fanfarronice, se continuarem a importunar quem está quieto vou lhes dar uma lição. Todos temos o direito de pegar alimentos aqui. Não me irritem. Com meia dúzia de bicadas e algumas fortes asadas mando vocês pra cucuia. Entenderam? Pequeninas abusadas, sô! Fora daqui!

E num piscar de olhos as piaçocas alçaram vôo e seguiram para o local indicado. Nhá agradeceu às solidárias garcinhas.

– Tem nada o que agradecer, fiz isso por todas nós que queremos viver e comer em paz aqui. Nós não implicamos com elas, por que se metem conosco? Além de gananciosas são burras, não sabem escolher os inimigos.

E lá se foi, altaneira, se reunir com as companheiras. Pacientes, os bois esperavam que elas retomassem o serviço e os livrassem dos carrapatos.  Nhá viu o bezerro rebelde e foi na sua direção. Dessa vez vou pegar o carrapato de jeito, pensou. Quando chegou junto ao bezerro, porém, e olhou sua orelha, viu que o bichinho não estava mais lá, alguma garcinha mais persistente o caçara. Suspirou.

– Bom, fazer o quê? pensou ela. Estou mesmo de papo cheio, acho que não vou esperar a turma e vou seguir no rumo do garceiro. Já fiz bastante por hoje.

Entediada, Nhá abriu o bico várias vezes, passou os olhos pelas aves espalhadas no pasto em busca de seu parceiro. Não o viu. Depois de algum tempo se lembrou que ele havia voado com a outra parte do bando para perto do rio, que prometia bons carrapatos. – Estou ficando tão esquecida, lamentou-se ela. A vida é assim mesmo, já guardei coisas demais na minha cabecinha.

Bocejou de novo algumas vezes e levantou vôo. A tarde chegava ao fim.

 

FIM

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