A FUGA DAS PIABAS (infantil)

13 \13\UTC outubro \13\UTC 2010 at 17:41 Deixe um comentário

Pedrinho preparou com cuidado uma bolinha de miolo de pão e a prendeu no anzol. Sentado na beira do cais na margem direita do delta do rio Paraíba do Sul, se divertia pescando piabas. Andorinhas davam vôos rasantes na superfície da água antes de entrar nos ninhos, em buracos escavados entre as pedras da parede do antigo cais. Ao lado do menino, um balde com água. O vento estava forte e eriçava as águas barrentas do rio que ondulavam em banzeiros. Pedro preparou e lançou seu anzol com isca o mais longe que seu braço permitiu.

Um cardume de piabas freqüentava as pedras daquele cantinho do cais protegido do vento pela parede de pedra. Os barcos de pesca que ali ancoravam depois da pescaria, jogavam na água restos de comida. O que peixe pode comer não polui rios e lagoas e as piabas se esbaldavam. Riscos eram pequenos, as garças pescavam do outro lado, na margem da ilha e peixes grandes preferiam nadar no meio do rio. Como andorinha não come piabas, só insetos, sentiam-se tranqüilas em seu refúgio. E nadavam alegremente perto das pedras.

Os meninos, sempre inquietos e em busca de emoções, eram o maior perigo. Petita, a mais velha das piabas do cardume, sempre alertava as outras:

– Cuidado com o que cai na água! Olhem bem, antes de meter a boca, porque pode ser um anzol disfarçado por uma bola de miolo de pão ou um pedaço de camarão.

Algumas não prestavam atenção no que ela dizia ou achavam que com elas nada de mal aconteceria, pois se consideravam muito espertas e percebiam o engodo de longe. Graças a esse excesso de autoconfiança os pescadores faziam a festa e sempre iam para casa com uma porção de piabas para fritar.

Na manhã fria de primavera ninguém havia aparecido para jogar restos de comida e pedaços de pão na água. Duas traineiras, que são barcos apropriados para pesca em alto mar, estavam ancoradas no cais vazio, onde apenas um rolo de redes aguardava conserto. Paratis mais afoitos e filhotes de robalo sem experiência davam saltos para fora da água tentando ver se alguém aparecia para matar sua fome. Poucos eram os insetos que se aventuravam a pousar na superfície da água para se dessedentar. Uma libélula, que o povo conhece como papa-fumo, voou distraída  alguns metros beirando a água e logo foi engolida por um bagre faminto que por ali passava. Os peixes, de qualquer espécie, estão sempre com fome.

Pedrinho jogou o anzol e não reparou que perto dele, escarrapachado num banco de pedra, um belo gato branco com malhas pretas e olhos esverdeados, fingia cochilar, mas estava atento a seus movimentos. Cada vez que Pedrinho retirava o anzol da água o gato abria os olhos pela metade e observava se o anzol vinha vazio, indicando que a bolinha de farinha caíra ou fora roída por um peixe muito sabido, como a velha Pepita. Ela sempre conseguia comer o que estava no anzol sem se machucar. Aprendera a bicar a bolinha por baixo, de leve, arrancando pedacinhos sem mexer muito com o anzol.

O pescador, quando sente que o peixe pinica a isca, dá forte puxão no anzol e muitas vezes a piaba é agarrada pelas guelras ou barbatanas. As esganadas eram as maiores vítimas, pois não tinham paciência para comer aos pouquinhos ou tinham medo que outro peixe maior viesse e pegasse a comida na sua frente.

Pitu, um camarão cascudo que vivia nas pedras submersas junto ao cais, ria ao ver uma desses comilonas ser içada pelo pescador.

– Bem feito, ele dizia, quem manda ser fominha!

Pepita sacudia a cabeça desaprovando tanto o camarão como o peixe apressado.

Pedrinho estava ficando cansado de segurar a varinha com o anzol quando sentiu um leve tremor e rápido puxou o anzol. Seus olhos brilharam e um sorriso aflorou em seus lábios ao ver, se sacudindo na ponta do anzol, uma linda piaba. Com a ajuda do pai e de um alicate soltou o peixe e se preparava para jogá-lo no balde quando o gato, num gesto de atrevimento, deu um salto e antes que o menino se desse conta,  nhaco, abocanhou o peixe e fugiu pela rua.

Pedrinho não queria chorar, queria parecer forte, mas a decepção foi tão grande que lágrimas inundaram seus olhinhos. Seu primeiro peixe fora traiçoeiramente roubado por um gato malandro. O pai tentou consolá-lo:

– O importante, filho, é que você já pescou um peixinho e de agora em diante vai ser mais fácil.

– Mas eu queria era aquele que o gato pegou! choramingou o menino.

– Aquele é impossível, virou almoço do gato. Vamos jogar o anzol de novo.

Emburrado, o menino observou o pai colocar a isca e lançar o anzol.

– Agora é segurar e aguardar. Logo, logo, vai pintar uma piabinha.

Na corda que amarrava uma das traineiras estava pousada uma das andorinhas que moravam nos buracos da parede do cais, esperando aparecer um mosquito ou uma mosquinha para caçar. Também estava surtando de fome. Nisso, uma das garças que voavam por ali, através da água viu o brilho do peixe que se encaminhava para o anzol de Pedro e pousou da corda, assustando a andorinha, que levantou vôo e foi pousar num galho de uma frondosa amendoeira, que fazia sombra um poucos adiante.

– Vamos ficar de olho naquela garça, alertou o pai, que ela está de olho na gente.

Não deu outra. Assim que a piaba beliscou a isca, o menino puxou com força o anzol com o peixe que antes de chegar às suas mãos descreveu uma ampla curva no ar e foi agarrado pelo bico da garça num vôo certeiro. Por pouco o anzol e a varinha não vão junto. Prevenido ao perceber a intenção da garça, o pai tinha segurado a vara e apenas o peixe foi levado por ela.

– Parece que está todo mundo com fome nessa beira de rio! estranhou ele.

Mais uma vez Pedro se invocou e largou a iba, que é como os ribeirinhos chamam a fina vara de pesca, e se encostou na amurada, de braços cruzados e cara amarrada. O pai pôs nova bolinha de farinha no anzol.

– Vamos lá, filho, e jogou a isca na água.

– Não quero mais pescar, resmungou ele.

– Ah, deixa de bobagem, vem. Acho que uma nova piaba está pinicando a isca.

Sem muita vontade Pedrinho pegou a iba e logo em seguida sentiu a forte beliscada do peixe na isca. Animado, puxou o anzol e outra linda piaba brilhou na manhã. Dessa vez não havia bichos famintos por perto e ela foi jogada no balde cheio de água. Nos momentos seguintes uma porção de piabas foram içadas da água e lançadas no balde, para alegria do garoto. Entre elas, a piabona Petita!

– Não sei como isso foi acontecer, contou ela mais tarde às amigas. Acho que além de estar distraída, observando um camarão esquisito no meio das pedras, a água estava turva e não vi o brilho do metal do anzol. Foi uma lição, nunca mais vou facilitar com esses pescadores.

Quando Petita se viu voando, puxada pelo anzol preso em sua boca, quase morreu de susto. E nem acreditou quando foi segurada e jogada no balde onde outras piabas se debatiam. Ela arregalou os olhinhos e concluiu que tinha de fazer alguma coisa para se livrar e ajudar as outras, que eram meio patetas e inexperientes.

Sua primeira providência foi dar um salto e olhar onde o balde estava pousado. Era no capim ralo, bem perto de um muro baixo, onde o menino e o pescador mais velho apoiavam os pés. Com mais outros saltos, cada vez mais altos, se assenhoreou da situação e traçou um plano de fuga. Os pescadores estavam concentrados no movimento do anzol

Como era uma das mais velhas piabas daquele trecho de rio, sentiu-se cansada após os saltos e encostou-se um pouco na parede do balde para se recuperar. Chorosas, as piabas se amontoaram a seu redor. Mais piabas continuavam a cair na água com estrondo. Todas tremiam de medo.

– Nós vamos promover uma fuga em massa, anunciou Petita para acalmá-las.

Nesse momento mais um peixe caiu no balde, dessa vez um filhote de robalo.

– Você também vem conosco, disse Petita.

– Mas como vamos fazer para escapar? perguntou uma piaba desesperada.

– Desse lado aqui fica a amurada, bem baixinha. Basta a gente dar um pulo, torcendo o corpo para fora e vamos cair bem no murinho. Vai dar uma dorzinha, que logo vai passar. Do muro damos um outro salto e vamos cair de novo no rio. E aí e só mexer as barbatanas com vontade e estaremos livres.

E assim elas fizeram, uma por uma. Os pescadores assistiram, assustados, as piabas, como lâminas prateadas que refletiam o brilho do sol, darem saltos precisos e logo nadarem para o meio do rio, bem longe do anzol.

Pedrinho chorou ao ver a fuga das piabas. Não desistiu, porém, e daí a pouco o balde estava cheio de novo. E como a velha Petita não estava entre elas para por em prática sua experiência, daí a pouco eles levaram o balde para casa e comeram as piabinhas fritinhas, que estavam uma delícia.

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