SÃO PEDRO: PROCURA-SE

16 \16\UTC julho \16\UTC 2010 at 16:08 Deixe um comentário

Até o final do século XIX era moda sepultar no chão das igrejas os defuntos ricos ou prestigiados, ou seja, membros da elite local. Mas não se obedeciam às normas de um bom enterro e, com o passar do tempo, observava-se que gases da putrefação que escapavam da tumba, além do mau cheiro, transmitiam doenças. Em razão desses efeitos colaterais, o governo da república decretou que os sepultamentos passassem a ser efetuados nos cemitérios.

O fazendeiro sanjoanense Emanuel Francisco de Almeida decidiu em 1885 construir uma igreja para abrigar seu túmulo e o da esposa. Não queria dividir com mais ninguém o local do último repouso do casal e num terreno na região conhecida como porto do Pires ou convento, no então final da maior rua da cidade, mandou erguer a igreja e para o altar mor mandou buscar na Itália uma imagem de São Pedro idêntica a uma existente no Vaticano. Em frente ao altar mandou delimitar os espaços para as sepulturas. Quatro anos depois de inaugurada, com a proclamação da República, que trouxe a proibição de sepultamentos em igreja, o fazendeiro viu seus desejos frustrados.

Como o porto do Pires, muito usado por pescadores, dos quais São Pedro é padroeiro, devia fazer parte das terras de Emanuel, no terreno em frente foi aberta uma praça e a cidade cresceu para lá. E São Pedro reinou naquelas terras por muito tempo, sendo muito festejado por este povo festeiro.

Até que numa noite chuvosa a estátua do santo foi surrupiada. Apesar de exigir uma logística complicada, pois a imagem era pesada, já que o santo estava sentado no trono papal, ninguém viu ou ouviu nada. E olhe que a igreja era cercada por residências. Apenas algumas pegadas foram encontradas, por causa da lama no entorno da capela, que se prenderam aos pés dos ladrões. Não houve como identificar os autores do furto.

Apesar da comoção causada na cidade, não acredito que uma investigação séria tenha sido realizada. Geralmente quem compra estátuas sacras antigas são colecionadores ricos e portanto inatingíveis. O objetivo do roubo não foi ganhar dinheiro, pois esses atos são encomendados por colecionadores, vide o livro A Madona de Cedro, de Antônio Callado. Seria difícil vender uma obra dessas, não só por seu volume mas por ser facilmente identificada. O São Pedro daqui, segundo boatos surgidos algum tempo depois, estaria na coleção de santos de uma importante figura.

No Rio, trabalhando como projetista de lustres da Galeria Silvestre, o filho de sanjoanenses e escultor Uilton Mallet ouviu a notícia pelo rádio e, segundo ele, de imediato decidiu esculpir uma imagem para substituí-la. Com talento e paciência fez nascer de uma peça única de cedro a imagem do primeiro papa. Muito bonita, a imagem também é pesada e por isso fica na igreja, não saindo nas procissões, substituída por uma outra, comum.

Recentemente o artista plástico sanjoanense Luciano Machado Vicente deu início à campanha “REENCONTRE SÃO PEDRO”, na esperança de que surja alguma pista que leve ao local onde a estátua está guardada. Se vocês sabem de alguma coisa, têm alguma idéia de onde ela possa estar, ou sugestão a dar, entrem em contato com ele. Vamos colaborar, divulgando a foto e a origem da imagem. A cidade merece.

São Pedro esculpido por Uilton Mallet

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