UMA NOITE DE CHUVA NOS ANOS CINQUENTA

13 \13\UTC julho \13\UTC 2010 at 17:59 Deixe um comentário

Início de noite na segunda metade dos anos 50. Chovera o dia inteiro e a temperatura caíra bastante. Encasacados e encolhidos, estudantes sanjoanenses embarcaram no ônibus que os levaria a Campos, que ainda não era dos Goytacazes, de volta ao internato ou a casa de parentes onde viviam durante a semana para poder continuar seus estudos. Estavam alegres, tinha sido um bom fim de semana, quando tiveram permissão para passá-lo com os pais. Haviam se fartado de comidas gostosas e ainda levavam salgados e doces para complementar a dieta do internato. A viagem de vinda tinha sido boa pela estrada nova, recém asfaltada, sonho antigo dos moradores da velha cidade.

A BR-356 há muito reclamava um tratamento decente, no verão os veranistas e suas famílias transitavam por ela e durante todo o ano moradores de São João da Barra a utilizavam para ir a Campos, Rio e outras cidades, a negócios, tratamento medico, a passeio ou para enviar os filhos para bons colégios. Até então eles iam de trem ou sacolejando por uma estrada de chão, esburacada, viagem de trinta e poucos quilômetros que durava, no mínimo, duas horas. Depois de asfaltada a BR-356 ficou uma beleza, os elogios partiam de todos os lados. Como a região é baixa, 6 ou 7 metros acima do nível do mar, foi levantada, em todo o percurso, uma base com muita areia. Tudo correu bem até que choveu forte e em muitos pontos a areia escorreu, abrindo brechas que eram sinalizadas com galhos folhosos, cortados nas matas de restinga na beira da estrada. Lembro-me da fita de asfalto correndo pela planície arenosa, cortada de quando em quando pela sinalização de emergência.

O grupo de estudantes ia animado. Gulosos, alguns abriam as malas e bolsas e tiravam os embrulhos que a mamãe havia feito para seus filhotes. Entre risos e brincadeiras, mastigava-se pedaços de bolo ou pudim de pão, devorava-se bombocados que se desmanchavam na boca ou suculentos caramelos comprados em Adó.

Era domingo e os pais, despachados os rebentos de volta à escola, foram ao cinema de Amaro Coelho, atendendo ao chamado do locutor Edemir Martins, que no alto-falante anunciava um filme emocionante, com tudo o que uma boa platéia exige: amor, ódio, traição, ciúmes, sangue e lágrimas. O filme era, geralmente, um dramalhão italiano ou mexicano com alguns faroestes de segunda para agradar à turma jovem.

O ônibus ia se desviando das rachaduras com base na sinalização ecológica de galhos folhudos. De repente, o susto: no trecho entre a cidade e a curva de Grussaí, ao passar por uma rachadura cuja sinalização fora lançada no acostamento pelo vento, o ônibus desceu o pequeno declive e enfiou o nariz na areia. Gritaria, desarrumação, os assentos, que não eram fixados na estrutura dos bancos, deslizaram e derrubaram os estudantes. Nada de sério. Sério mesmo aconteceu com o cobrador, que na hora da queda preenchia o talão de passagens e com o impacto passou voando pelo corredor e se estatelou no vidro da frente. Se bem me lembro ele gritou: mamãe, me acode! E quebrou uma perna.

No cinema os pais vibravam com o filme e na última fileira estava Juquinha, mecânico de veículos, encarregado da manutenção da máquina de projeção, sempre com problemas, interrompendo a sessão. Naquela noite, a sessão foi interrompida pelas insistentes batidas na porta de entrada e pelos gritos dos estudantes que estavam no ônibus acidentado, e não tinha como ser substituído. A garagem ficava em Campos e conseguir uma ligação telefônica era uma das tarefas mais difíceis da época.

Apavorados, os responsáveis pelo cinema abriram as portas e acenderam as luzes da sala de projeção e foi aquela catadupa de emoções, mães chorosas abraçadas a seus pimpolhos, verificando se realmente nada lhes havia acontecido. Retomada a sessão, alguns estudantes sorriam satisfeitos, passado o susto ganhavam uma sessão de cinema e mais uma noite em casa para estudar aquele ponto da prova que deveria ter sido, pelo menos, lido no fim de semana. SJB, 13/07/2010

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