AMANHECER EM QUIRIBA

30 \30\UTC junho \30\UTC 2010 at 11:07 Deixe um comentário

Partindo do asfalto

caminhos retorcidos

 levam à cancela brancazul

que abre para os mil tons de verde.

 Orvalhada Quiriba desperta

e estende preguiçosamente

os galhos baixos dos cajueiros

e as grimpas dos ingazeiros

para expulsar a madrugada

e o sono.

Um voejar alegre e multicor

invade o espaço: borboletas,

grilos e mil insetos mais.

Viuvinhas de lencinho branco

pousam nos mourões das cercas

e espantados quero-queros

avisam com estridentes gritos

 que estão vigiando seus ninhos úmidos.

 Um gavião faminto plana, majestoso,

e instigado pelo olhar guloso e estômago vazio

desce como flecha

buscando o ninho

onde penugentos filhotes

piam aflitos, exigindo minhocas.

Dura um instante eterno

 o mergulho voraz.

Do fundo de seu pavor

um casal de resolutas siriris,

miúdas, desesperadas,

atacam o bruto,

uma de cada lado,

em defesa dos filhos.

Seus afiados bicos

apontam direto

aos olhos cruéis do monstro.

Termina o drama:

vôo de fome vira vôo de fuga

e o gavião dispara pelo azul

 em busca de almoço mais fácil.

 Das bocas das tocas abertas no chão,

atentas, corujas assistiram imóveis

o drama diário da sobrevivência.

 Nem piam.

Seus filhos estão no oco da terra

bem protegidos,

mas se acautelam

e fingem que são parte do chão de barro.

Pequenas cobras nervosas

pelo capim se esgueiram

para fugir daqueles olhos longos

e do mergulho fatal.

 Vieram em busca do sol

para aquecer seus corpos gelados

e o gavião as espera

pousado no galho mais alto do jenipapeiro.

Algumas escapam,

 outras entre as delicadas garras

encontram seu destino.

 Casais alados e coloridos

 apaixonados se perseguem

em brincadeiras de amor.

Um sanhaçu solitário

clama pela companheira

e lhe oferece cheirosa goiaba.

Das cercas vivas explodem bandos de anus,

negras pinceladas em dorsos de vacas

 disputando carrapatos com as garcinhas.

A noite se refugia enfim nos capões de mato

e o dia se mostra nos mugidos dolentes,

nos latidos frenéticos,

nos cacarejos.

Junto à morada dos caseiros

cavalos pastam

e espantam moscas com o rabo.

 A vaca Princesa lambe o pelo estampado

da cria gulosa que lhe suga as tetas

e Fumaça, olhar manso e carinhoso

sobre a cria sapeca, rumina.

Perto do tanque cavado na areia

Mimosa observa, desinteressada,

cardumes de espertos barrigudinhos.

Pelo pasto as demais vacas se espalham.

Mangerona e sua cria malhada,

 Gaivota, a de olhar compassivo,

Andorinha, torso negro e grandes tetas claras.

E outra, e mais outra, e outras mais, dezenas.

A cada levantar do pescoço de ferro, 

olhos vermelhos,

o touro carrancudo as conta.

Galinhas correm ao chamado do milho,

um galo canta, marcando presença,

a galinhola insiste que tá fraca

e quer comer,

patos se balançam no andar esparramado

e ao longe porcos grunhem

 e carneiros balem.

 Camaleões cinzentos

 correm para as réstias do sol

que subiu no arvoredo

pronto para encarar mais um dia.

Formigas nervosas se apressam,

o dia é uma longa jornada de trabalho.

Da casa que abre as janelas

e exala irresistível cheiro de café coado,

irrompem crianças e seus cachorros:

 Gabriella, Rodrigo, Rafael e Frederico

pelo capim correndo e gritando

inauguram a manhã.

* Do livro “Duas lendas sanjoanenses – poemas novos e antigos”

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NOTAS DO PARAÍSO XX UMA NOITE DE CHUVA NOS ANOS CINQUENTA

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