CAPUIA QUER CASAR

20 \20\UTC junho \20\UTC 2010 at 17:56 Deixe um comentário

                                 OUTRA HISTORINHA PARA CRIANÇAS DE QUALQUER IDADE

Ruminando próximo à cerca, olhar curioso percorrendo a rua larga de uma ponta a outra, Capuia, bela cabra de cor bege claro, chifres não muito grandes e olhar bondoso, esperava ansiosamente o dia terminar. Seu instinto lhe dizia que chegava o verão que adorava. Não pelo calor, muito pelo contrário, sua pele grossa se cobria de pelos no tempo frio e mantinha seu corpo aquecido, mas pelas crianças que viriam lhe fazer companhia, brincar, correr pelo pasto.

Capuia se sentia muito só durante grande parte do ano, quando seu dono estava na cidade e as crianças na escola. Só ela ficava no cercado da propriedade, ouvindo ao longe o barulho das ondas do mar na areia. Todo dia um empregado do dono vinha vê-la, o que não a confortava. Seus grandes amigos era o casal de siriris.

Capuia era muito mansa e se deixava montar pelos pequenos ou ser atrelada a uma carrocinha para levá-los a passear. Era forte porque se alimentava bem, adorava comer de tudo, folhas de abóbora, de pitanga, restos de comida, mas o que apreciava mesmo era o capim verdinho do pasto. O mais gostoso era o que nascia bem junto à terra e não se importava em roçar o focinho na areia para arrancá-lo. Depois ruminava, barriga cheia, satisfeita. O que lhe faltava era companhia. Quando havia crianças ficava tão contente que cabriolava pelo pasto.

Se sentia sede ia ao riachinho que atravessava a propriedade levando a água do rio para a lagoa. O riacho era raso em boa parte do tempo, o volume de água só crescia quando chovia ou o rio transbordava. Quando estava raso podia se ver peixes nadando, esfregando a barriga branca na areia do fundo. Quis entabular conversa com as traíras grandes que nadavam rebolando e balançando a cauda. Não entenderam ou não ouviram o que disse. Não lhe deram bola.

De outra vez, chegara tão sedenta e distraída que não vira que um jacaré de papo amarelo, chamado ururau, se arrastava pela areia e a olhava fixamente. Tomara um baita susto, dera um salto enorme e se afastara berrando como uma doida. Morria de medo de jacarés, diziam que atacavam os bichos, mas aquele era pequeno, um filhote, e achou ridículo o seu medo. Era exímia saltadora, indo a alturas que outros bichos não alcançavam, não precisava ter medo Contou o caso ao casal de siriris e bravateou:

– Fiquei com pena do pobrezinho do jacaré, disse ela desdenhosa, que me olhava tão assustado.

– Assustado, o jacaré? estranhou um dos pássaros. Você é muito pretensiosa.

– Claro, replicou ela, arrogante. Ele sabe que se abrisse a bocarra pro meu lado eu partia pra cima dele aos pinotes e era capaz de transformar sua casca dura em purê de abóbora.

– Rá, rá, rá, riu uma garça, parada com a perna dobrada na beira do córrego, esperando os peixes pequenos passar para pegar com o longo bico. A cabra não lhe deu importância.

– É ruim, gritou a siriri. O jacaré é muito perigoso, capaz de engolir você de uma vez só.

– Quero ver, zombou Capuia, dou-lhe um catiripapo!

E saiu cabriolando, prosa. Depois do encontro com o ururau, para evitar conflitos, já que não gostava de violência, antes de chegar observava o lugar de longe, para ver se havia animais estranhos. Apareciam anus, cambaxirras, rolinhas ou bem-te-vis. Até um casal de sabiá da praia ia saciar sua sede. Casal simpático, cantava maravilhosamente bem. Corujas e gaviões pousavam, bebiam e voavam para longe, não eram de muita conversa.

Capuia ouviu barulhos pros lado da rua e viu, satisfeita, que o empregado chegava acompanhado por outras pessoas, com vassouras, baldes e material de limpeza, sinal que o dono estava para chegar. Todo verão era assim. Um grupo entrou na casa baixa e comprida que ficava na ponta esquerda do terreno, onde o dono passava as férias, abriu o portão da cerca e seguiu para a varanda dos fundos. Os outros foram para as casas de aluguel, balançando as chaves.

– Oba, pensou Capuia, vamos ter muitas crianças para brincar nesse verão.

Os dias se passaram e ninguém chegava. Capuia ia para a moita de boas-noites e ficava horas olhando a rua. A solidão não lhe agradava. De vez em quando se afastava para comer e logo voltava. Queria ver animais interessantes, conversar, fofocar.

Numa bela tarde, seu coração disparou. Viu um cabrito de pelo marrom com malhas brancas, barbicha e chifres recurvos que vinha pela rua, puxado por uma corda. Olhou sem piscar o belo animal que a encarava, sem poder balir de tão nervosa. Encontrara o cabrito de sua vida!

Num impulso quis pular a cerca de arame farpado, mas a corda que arrastava, presa a seu pescoço, se enroscou num mourão e ela caiu, pernas abertas, ofegante, numa pose ridícula. O bode acompanhara, aflito, o seu esforço, se sensibilizara e forcejara para ir na sua direção, mas o homem puxou a corda com força e o obrigou a voltar a caminhar a seu lado. Até desaparecer na esquina ele andou forçado, olhando constantemente para trás, soltando balidos sentidos. Também ele se apaixonara pela cabrita desastrada.

Capuia deslumbrou-se com o lindo cabrito que surgira em sua vida. Já tinha visto outros passarem em frente ao cercado, nenhum com a pose altiva, olhar desassombrado, corpo esbelto e pernas fortes do cabrito de seus sonhos. Ao mesmo tempo ficou triste, com a sensação de que ele fora levado para muito longe, para um lugar desconhecido e que nunca mais o veria. Duas lágrimas desceram de seus doces olhos. Suspirou, queria se encontrar com ele, se ver refletida nos doces olhos castanhos, roçar seu pelo no dele.

Acordou antes do sol se elevar no horizonte. Dormira bem, sonhara que saltitava com o belo cabrito por verdejantes pastos, pastavam e ruminavam juntinhos, olhos no olhos, cabeça com cabeça, entrelaçando os chifres. Pastou com vontade, distraída em observar o trabalho das pessoas que preparavam as casas para o verão.

Sentiu a garganta seca e foi ao regato. A garça se ocupava em pescar os barrigudinhos. Podia pegá-los enquanto conversava. Estranhou o silêncio da cabrita, sempre faladeira.

– O que houve, Capuia? Está taciturna, séria.

A cabrita soltou longo e sonoro suspiro que atraiu a atenção das siriris que namoravam num galho do pé de cambuí e da coruja buraqueira que espiava da sua toca no chão.

– Ai, não quero balir sobre isso, me deixa desesperada, resmungou Capuia.

– Como assim? indagou a siriri com ironia. Está com dor de barriga?

– Não enche, reagiu a cabra, chateada com a brincadeira. Estou apaixonada e desiludida, nunca mais verei o bode da minha vida.

– Por que não? estranhou a corujinha.

– Porque ele foi arrastado, tadinho do meu amor, pela rua afora por um brutamontes e não faço a menor idéia pra onde foi levado. E não posso sair daqui para encontrá-lo, com essa corda no pescoço e a cerca me impedindo de chegar na rua.

– Você não pode, disse a garça depois de esperar que o barrigudinho pescado descesse por seu longo pescoço, mas seus amigos alados podem. As siriris, que não fazem nada além de namorar e de atacar as pessoas que se aproximam de seu ninho quando estão chocando ovinhos, podem muito bem dar uma volta por aí até achar o seu galã.

Capuia arregalou os olhos e sorriu.

– Não é que é mesmo uma boa idéia? Vocês fariam isso por mim, siriris?

– Claro, piaram elas, excitadas. Vamos começar agora mesmo.

Capuia voltou ao posto de observação junto à moita de flores arroxeadas e com o coração alegre se dispôs a esperar. Esperou o resto da tarde. Não viu as amigas chegar, tão tarde retornaram. Na manhã seguinte, ao conversar com elas, ouviu insistentes buzinas e viu um carro parado. Atrás do vidro da janela distinguiu as carinhas lindas de Pedrinho e Aninha, que chegavam com a família para passar o verão na praia. As aves perceberam que a amiga tinha de dar atenção aos recém-chegados, piaram que voltariam a buscar o bode e se perderam no azul do céu.

 As crianças acordaram cedo no dia seguinte e os pais as levaram para a praia. Antes de subir no carro Aninha correu até onde a cabra estava, alisou seu pelo e olhou-a cheia de ternura. Depois lhe jogou um beijo e foi ocupar a cadeirinha em que viajava. O sol brilhava intensamente.

Impaciente, Capuia cabriolou até o riacho. Lá estava a garça, como uma estátua branca, a vigiar os barrigudinhos. A coruja não estava presente. Nem as siriris. Que aflição!

Foi uma manhã frustrante, as crianças e as siriris com notícias do cabrito dos seus sonhos não apareceram. No meio da manhã viu caminhão chegar com a mudança de uma das casas. Nenhuma criança. Observou que, enquanto tiravam os móveis, os homens deixavam o portão do cercado semi-aberto. Como quem não quer nada ela foi para lá, ia sair andando pelas ruas até achar seu cabritinho. Estava quase no portão quando sentiu um puxão forte na corda e se viu amarrada num mourão da cerca, longe da saída.

As crianças voltaram horas depois. Desceram do carro no maior alarido e foram até ela. Pedrinho subiu no seu lombo e Aninha tornou a lhe alisar o pelo. Daí a pouco a mãe deles surgiu no portão da cerca de bambu da casa e gritou:

– Venham pra casa tomar banho e almoçar. Depois vocês brincam com a cabrita.

Brincaram a tarde toda. Viram chegar mais um caminhão de mudanças para a outra casa. Também não viram crianças e sim um cachorrão irritado que não parou de latir para a cabra. As crianças se abraçaram com ela. O cachorro, com a coleira presa a uma grossa corrente, foi levado para trás da casa e continuou a latir ameaçadoramente. Os músculos das costas de Capuia tremiam e as crianças a alisavam para que se acalmasse.

– Fica tranqüila, Capuia, com a gente por perto, esse cachorro não vai fazer nada contra você. Vou pedir a meu pai para você dormir no cercado do quintal.

No dia seguinte Capuia se encontrou com as siriris no riacho. A garça se apoiava na perna e a coruja apareceu no buraco onde vivia. Os sabiás da praia pousaram no galho do cambuí. A cabra olhou ansiosa para os amigos com asas.

– E aí, perguntou, viram meu cabritão?

– Custou, disse uma delas, mas encontramos. Demorou porque ele estava escondido no meio do mato. Ele me disse que não gosta de onde está, seu novo dono é muito bruto.

– Ah, meu Deus, ele continua lindão?

– Pra quem gosta, resmungou a outra. Como posso achar que ele é bonito se não tem asas nem penas coloridas?

– Não importa, disse a coruja. O importante é que vocês expliquem onde ele está.

– Isso, baliu a cabra, ansiosa. Me contem antes que as crianças acordem.

Devagar, com palavras simples, as siriris explicaram onde o belo bode se achava preso.

– É bem perto, disseram, só que ele fica atrás de um monte de lenha cortada.

– Obrigado, disse a cabra com olhos úmidos. Preciso descobrir como chegar lá. A última mudança chegou, o portão fica fechado e não consigo me livrar dessa corda que arrasto pra baixo e pra cima. Como vou fazer?

Todos ficaram em silêncio, pensando. A sabiá se comoveu com o dilema que a cabrita vivia: como se encontrar com o belo bode?

– Fácil, disse ela. É só usar as crianças.

E explicou seu plano com detalhes. Todos aprovaram e Capuia voltou, triunfante, para o pasto verdinho e comeu muito. Daí a pouco as crianças surgiram, correndo e gritando.

Capuia brincou com elas como se nada estivesse acontecendo. Num certo momento o pai das crianças veio ao cercado. Capuia esfregou a cabeça na mão de Aninha várias vezes e mordeu a corda que arrastava. Finalmente conseguiu pegá-la e encostá-la na mão da menina, que a olhou surpresa.

– Papai, disse Aninha, acho que Capuia quer que eu dê um passeio com ela. Posso?

– Vamos juntos, concordou ele. Criança e bicho soltos na rua representam perigo.

Mal atravessaram o portão e a cabra se virou para a direção onde o cabrito estaria, segundo contaram as siriris, que os seguiam, pousando nos arames e muros do caminho.

Foram pelo acostamento coberto de capim. Capuia não resistia e se abaixava para abocanhar um tufo do verde pitéu. As siriris gritavam:

– Vambora, Capuia, não vamos perder tempo.

Ela lambia os beiços e continuava até um pouco mais à frente, onde o capim estava verde e viçoso, quando se abaixava novamente e pegava outro bocado.

– Estamos perto, avisaram as siriris, ele está logo depois do pé de espirradeira rosa.

O coração da cabrita acelerou e ela se preparou para executar o resto do plano. Aninha seguia conversando com o irmão e o pai, quando a cabra passou a andar mais depressa, mais depressa e depois a correr, quase arrastando Aninha.

– Minha filha, gritou o pai, puxe a corda com força.

Mas a cabra embalara na corrida. As siriris gritaram:

– Dobra no portão depois da espirradeira.

Foi o que fez, esbarrando na lenha empilhada, que ocultava o amado. Berrou desesperada e ele respondeu com força. Todos entraram no quintal, um cachorro latiu e o dono e um menino surgiram na porta da casa.

– Ei, que é isso?

O pai de Aninha pediu desculpas pela invasão e explicou o que havia acontecido. Capuia se juntara ao bode e se esfregava nele com paixão. As crianças e o menino da casa olhavam sem entender. Pousadas na beira do telhado, as siriris piavam com força.

– Papai, disse Pedrinho, acho que Capuia está apaixonada por esse bode.

– É, disse Aninha, acho que Capuia quer casar.

Os adultos olhavam a cena sem entender o que acontecia e o que fazer. O pai de Aninha pegou a ponta da corda presa no pescoço de Capuia e puxou. Ela resistiu, berrou, o bode  também, as siriris se exaltaram. O dono da casa mandou o filho levar o bode pro fundo do quintal, ele pegou a corda mas não conseguiu puxar o animal, que cravou as patas no chão. Cena cômica: o menino e o pai das crianças, cada um puxando seu animal, que não queria se desgrudar do outro. Esfoladuras surgiram nos pescoços dos bichos.

– Papai, murmurou Aninha, Capuia quer se casar. Por que você não compra o bode?

Todos a olharam, surpresos, e as siriris piaram em coro.

– É, papai, disse o menino, o Pipoco também não quer largar dela.

– O nome dele é Pipoco? perguntou Pedrinho.

Acho lindo esse nome, pensou a cabra. É o meu pipoquinho querido. Cansados de puxar a corda, homem e menino pararam. O dono do animal olhava sem saber o que pensar ou fazer.

– O pai de Aninha falou a ele: só vejo um jeito de resolver a questão. Me venda o bode.

O homem coçou a nuca, olhou o filho, que concordou balançando a cabeça, e aceitou.

No caminho de volta, Capuia e Pitoco se olhavam com carinho e as crianças sorriam. Uma siriri pousou na cabeça de Pedrinho e outra na de Aninha, como se agradecessem.

As espirradeiras sacudiram as flores cor de rosa saudando o amor correspondido.

SJB, junho/2010

FIM

 

 

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