PEDRINHO, ANINHA E A VACA FULU

14 \14\UTC junho \14\UTC 2010 at 08:55 Deixe um comentário

                        UMA HISTÓRIA PARA CRIANÇAS DE TODAS AS IDADES

Sentado na sombra do frondoso pé de ingá, no sítio de seu avô, Pedrinho olhava as vacas e cabritos que pastavam tranquilamente o verde capim. Estava chateado porque não tinha com quem brincar, já que seu avô estava consertando as cercas e a avó preparava a mamadeira de sua irmã, Aninha, que da varanda apreciava as galinhas e pintinhos ciscando a terra.  Gaviões rondavam no ar, olhos cruéis fixos nos pintinhos. Um galo vermelho e amarelo passeava orgulhoso pelo terreiro e cacarejava alto para espantar os gaviões. O peru, pomposo, abria a roda da cauda como se fosse enfrentar o galo. Patos rebolavam em direção ao tanque. Ao longe, galinholas gritavam tô fraco, tô fraco! Um coleiro cantava numa gaiola pendurada na parede da casa do avô. Pedrinho e Aninha iam passar uns dias com os avós enquanto seus pais viajavam.

Pedrinho achava que as galinholas eram manhosas, gritavam que estavam fracas só pra ganhar mais milho. Ele adorava ficar observando os bichos. Uma vaca malhada de preto e branco se afastou do rebanho que pastava e veio calmamente na direção dele, que ficou atento, caso ela estivesse com más intenções correria para a varanda ou subiria na árvore. A vaca, porém, andava bem devagar e parecia sorrir, e ele continuou sentado, esperando. Era uma vaca grande e gorda, de pelo branco com manchas marrons, tetas gordas, chifres pontudos e olhar bondoso. Chegou bem perto dele, bocejou e dobrou as pernas, arriando o corpão até ficar assim, meio deitada, meio reclinada, na sua frente, olhando para ele e mastigando. Esperou o que viria a seguir sem demonstrar o medo que sentia. Num dado momento ela lhe perguntou:

– Por que você fica aí tão quietinho e não está brincando, correndo atrás dessas galinhas alvoroçadas ou jogando a bola pro cachorro pegar?

Ele tomou um susto por que sabia que vaca não falava. Mas ali no sítio Quiriba tudo era possível e ele aceitou que ela falasse. Ela continuou:

– É, garotinho, aqui não tem muita diversão, né? A televisão não pega bem e não tem meninos por perto pra jogar bola e brincar de pique. Bom, quanto à televisão acho ótimo que não tenha, porque as crianças precisam correr, pular, subir em árvores, rolar no capim, soltar pipa, jogar bola e brincar com os bichos para crescer com saúde. Por que não pede a seu avô para atrelar o cabrito na carroça para você dar uma voltinha pelo sítio? Andando devagar, você pode até levar sua irmãzinha. O cabrito é muito bonzinho.

– Eu bem que gostaria, disse Pedrinho, mas meu avô está ocupado, ontem um cavalo arrebentou o arame da cerca e se machucou. Ele botou remédio no machucado do cavalo e agora está consertando a cerca.

A vaca balançou a cabeça de um lado para o outro:

– Esses cavalos são uns tontos. Saem por aí, de noite, correndo, e se machucam. Então você é neto do nosso dono? Qual o seu nome?

– Meu nome é Pedro e aquela ali, sentada na varanda, é minha irmã Ana. E o seu?

– Me deram o nome de Fulustreca. Prefiro Fulu, é mais carinhoso. Dona Fulu, pois já tive um bezerro, aquele bonitão lá, tá vendo? Ele é malhado como eu porque minha mãe era uma vaca holandesa, completou, orgulhosa. Mas meu pai era um touro zebu. Sou uma mestiça raçada.

– Vaca serve pra quê? perguntou Pedrinho.

– Você não sabe? Meu Deus, quanta ignorância! Somos os animais mais importantes do mundo, sem nós os homens não viveriam, respondeu ela, cheia de empáfia. Com nosso leite gordo eles fazem queijo, iogurte, mingau, mamadeira e bolo e com a carne fazem hambúrguer. Quer mais?

– Hum, você é meio metida a besta, né? Aposto que aquela cabra ali é tão útil quanto você.

– Tão útil não, as cabras são úteis, mas nós somos muito mais. Você já viu bois puxando carroças cheias de canas cortadas para levar para a usina de açúcar? Tá vendo? Cabrito não agüenta trabalho pesado. Não fossemos nós e os homens não teriam açúcar para fazer doces e sorvetes.

Ela deu uma risadinha maliciosa:

– E você sabe qual é o nome daquele cabrito?

– Não, qual é?

– Não digo.

– Ué, não diz por quê?

– Não, seu bobinho, o nome dele é não digo. E o nome do carneiro que está pastando perto da cerca é já disse. A esposa de nosso dono, sua avó, é muito espirituosa e brinca com as pessoas que perguntam os nomes dos seus bichos.

– E o cavalo, como se chama?

– Um nome comum, Brilhante. Tudo por que o pelo dele brilha no sol, disse com desprezo. Todo cavalo é bobão.

– Você não gosta de cavalos?

– Mais ou menos. São desprezíveis, bobos, se acham o máximo. Gostam de dar coices nos outros bichos. Os homens montam neles para nos perseguir. Quando a gente sai pra passear, eles vão também com um homem montado em cima. Nós não deixamos ninguém montar no nosso lombo, o cavalo deixa, é um bicho imbecil.

A vaca revirou os grandes olhos, aborrecida. E disse mais:

– Mas o bicho que não suporto mesmo é o tal do cachorro. Quando a gente se afasta um pouquinho, nem que seja para espiar do outro lado da cerca, lá vem o chato do cachorro latindo, mordendo nossas patas, tem medo que a gente fuja, só param quando voltamos para o curral. Até parece que é nosso dono. Detesto esses puxa-sacos. Quando um deles vêm pro meu lado, eu abaixo a cabeça e dou uma chifrada! Estão pensando o quê, que sou boba que nem o cabrito e o cavalo?  Comigo não tiram farinha!

– E o carneiro, serve pra que?

– Serve pra mesma coisa que nós, dar leite e carne e puxar carrinhos. Dizem que os árabes gostam de carneiro ensopado, não gostam de carne de boi. Suspirou. Adoro os árabes! Queria tanto morar lá! O carneiro é teimoso e cabeçudo, mas é bonzinho. Ah, também serve para dar lã pros homens se cobrirem com mantas e agasalhos.

Um sabiá pousou no galho do pé de ingá e ficou parado, só escutando a conversa. Era muito curioso.

– Meu Deus, disse o sabiá, que vaca faladeira! Não tem mais o que fazer do que ficar chateando o menino?

Um bem-te-vi que pousou num galho mais acima, também deu seu palpite.

– Ao invés de inventar histórias sobre outros bichos, dona Fulu, a senhora devia era se contentar em ruminar. É a única coisa que sabe fazer direito.

– Tá vendo, Pedrinho, como esses bichos são encrenqueiros? A gente estava aqui conversando sossegados e vêm esses passarinhos intrometidos encher nossa paciência. Vão catar mosquitos, vão. Será que nem pra isso vocês servem? Que coisa mais chata!

– Chato, eu? Sou uma das maravilhas da natureza, canto muito bem, disse o sabiá inchando o peito, por isso os homens vivem a me caçar, armam alçapão nas gaiolas. Como não sou bobo, aprendi a evitar armadilhas. O bem-te-vi é que só serve pra pegar mosquitos e moscas, e gritar que nem aquele quero-quero lá no meio do campo que parece meio maluco. Vê se tem algum garoto querendo prender o bem-te-vi ou o quero-quero na gaiola? Só sabem gritar.

– Por que o quero-quero vive gritando? indagou Pedrinho.

– O quequé é outro boboca, disse o sabiá. Sabe voar, podia fazer o ninho nos galhos das árvores mais altas, como o bem-te-vi e eu, mas ao invés disso faz um buraquinho no meio do pasto e ali bota os ovos. Aí, ficam ele e a fêmea dele o dia inteiro nervosos, a tomar conta do ninho, e a gritar para ninguém pisar sem querer e quebrar seus ovinhos.

– O quero-quero, seu passarinho falador, cuida do ninho dele, lembrou dona Fulu. Você sabe muito bem que o gavião vive de olhos nos filhotes dos passarinhos. Fora as cobras, os lagartos e os homens.

– Se o quequé acha, zombou uma pequena garça que se aproximara do grupo, que os espinhos que têm debaixo das asas vão assustar o gavião, são realmente uns tolos.

– Quem é essa? perguntou Pedrinho.

– É a tal da garça boiadeira, uma implicante, que vive bicando a gente, disse a vaca, irritada. Aonde eu vou e ela vai atrás.

– Sua mal agradecida, reclamou a garcinha, levantando o comprido bico. Passo o dia catando os carrapatos que infestam suas orelhas e você ainda reclama. Pateta!

– Cata porque gosta de comer carrapato, respondeu a vaca com desprezo, não pedi nada.

– Garça enjoada, disse o sabiá, gosta de se fazer necessária e nem brasileira é.

– Sou sim, gritou a garça, sou tão brasileira quanto você, seu enjoado. Meu bisavô nasceu na África e para fugir dos crocodilos voou para a ilha de Fernando de Noronha e depois para cá. Nasci aqui. Somos muito úteis sim, catamos carrapatos e outras pragas, como os grilos e lagartas, que atacam plantas e animais e limpamos os campos.

– Isso os anus faziam, zombou o bem-te-vi. Vocês são garças falsificadas, garças de verdade são as belas imperiais, que vivem na beira do rio e só comem peixes. Vocês morrem de inveja porque elas são lindas e não dão pelota para seus olhares de despeito.

– Não enche, senão lhe dou uma bicada, ameaçou a garcinha.

– Não quero saber de brigas aqui, interveio Pedrinho. Quero é saber quem é que está piando tão triste ali naquela moita.

– É a juriti, só vive resmungando, respondeu o sabiá.

A juriti deu um vôo curto e pousou num galho um pouco acima.

– Tão falando de mim, é? Resmungo sim, disse ela, e com razão. Fico triste quando vejo os homens pegarem machados e serras elétricas para derrubar árvores. Estão acabando com as matas.

– Nisso você tem razão, disse o sabiá. No ano passado sofri muito quando os homens derrubaram um lindo pé de jacarandá onde tinha feito meu ninho. Ainda bem que minha companheira ainda não tinha posto os ovinhos, senão, nem sei. Mas uma rolinha minha amiga perdeu tudo.

– Os homens precisam preservar a natureza, alertou o bem-te-vi, para o nosso bem e para o bem deles também, pois sem plantas o ar fica cheio de gás carbônico e o oxigênio é indispensável à vida de todos nós.

– Eu que vivo num garceiro na margem do rio, ainda fico mais preocupada, pois os homens jogam um monte de porcarias no rio e poluem as águas. O rio vira esgoto.

– O que é garceiro? perguntou Pedrinho.

– É uma árvore grande, onde nos reunimos para dormir. Um lugar tranqüilo, silencioso. Toda tarde voamos para lá.

Aborrecida, por não ter assunto para conversar com as aves, a vaca Fulu começou a se levantar, com dificuldade. Era muito pesada. Firmou os joelhos no chão e suspirou.

– Não dá pra conversar com bichos ignorantes, ela comentou, desgostosa. Eles só sabem reclamar e discutir, são um tremendo baixo-astral. Não gosto disso. Vou curtir a sombra do pé de jenipapo, ruminar em paz. Espero que ninguém me siga.

– O que é ruminar? perguntou Pedrinho.

– Uma coisa nojenta, disse o sabiá. Ela come o capim, mastiga, mastiga até virar papa, engole, a massa vai para o estômago e ui! volta pra boca uma porção de vezes. Nojento!

– Deixa de ser tolo, sabiá! A nossa comida é bem mastigada para não dar dor de barriga. Sabe o que é, Pedrinho? Inveja desses cantadores de meia tigela. O estômago dos animais ruminantes, como o boi, o cavalo, o cabrito, o carneiro, a zebra, o búfalo, a gazela, o camelo, a rena e outros, tem quatro compartimentos. Cada vez que engole o capim mastigado, a comida vai para um desses compartimentos para ser bem digerida. São quatro mastigações. Pior são vocês que não têm dentes e são obrigados a engolir areia para moer o que comem. A mesma areia onde fazemos cocô, que nojo!

– Então é isso, exclamou a coruja buraqueira, lá de sua toca no chão, quando eu via que a sua boca não parava de mexer, pensava que estava mascando chicletes.

– Cala a boca, sua feiosa. Não dê atenção a esses patetas, disse vaca a Pedrinho. A nossa refeição é demorada e bem mastigada, porque o capim tem muita celulose, alimenta bem, fortalece. Por isso nós somos grandes, fortes e bonitos, não somos mirrados que nem essa cambada de pássaros metidos. Sabem cantar, e daí? Isso serve pra quê?

– Em compensação, disse o bem-te-vi, entre risadinhas, vocês não podem voar. Quá, quá, quá.

– Bobão! Voar pra que? Eu, hein! Quem gosta de voar é mosca, mosquito e maribondo, uns insetos horríveis, que só servem para perturbar as pessoas. Não servem para mais nada, que nem vocês. Eu não, sou um animal útil. E muito bonito sim, até participo de concursos de beleza e ganho medalhas. Sou vaca de raça e não passarinho da roça.

– Olha como ela pretensiosa, disse a borboleta, que acabara de chegar. Não é mais bonita que eu. Sacudiu as asas azuis com manchas amarelas. Você tem asas coloridas como eu, tem? Presunçosa!   

– Essa vaca é muito besta, pensa que é bonita, quá, quá, quá!

– E vocês são uns idiotas que riem fazendo quá, quá, quá, como se fossem patos, retrucou dona Fulu.

A vaca, irritada, acabou de se levantar, ergueu a cabeça, sacudiu a poeira, balançou o rabo e piscou para o garoto.

– Está vendo, Pedrinho, não dá pra conversar com esse pessoal invejoso. Só cuidam da vida dos outros. Gostei de você, bem que gostaria de conversar mais um pouquinho, mas com esses bichos chatos a encher nossa paciência não dá. São tão mal educados que se metem na conversa alheia. Que coisa!  Xô, entojados!

– Tá bom, disse o menino, conformado, mas sempre que eu estiver aqui sozinho, venha conversar. E depois, meu avô está vindo ali, vou encontrar com ele e me distrair, vou ajudá-lo a cuidar do sítio. Quando eu crescer também vou ter um sítio assim, cheio de árvores e de bichos com o nome de Quiriba, igual ao sítio do meu avô.

                                              FIM

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