ODE AOS SETE CAPITÃES*

15 \15\UTC maio \15\UTC 2010 at 12:15 Deixe um comentário

 

I – OS CAVALOS

Por caminhos de areia, barro e lama

os cavalos cortam dias e noites.

São sete cavalos mouriscos

e galopam, galopam, galopam.

O vento embaraça suas crinas

as cores ofuscam seus olhos

os sons confundem seus ouvidos.

São sete cavalos nervosos

e seus cavaleiros.

Os brejos. Os charcos. Os areais.

Os sons. As cores. Os cheiros.

O novo assusta mas não intimida.

Por dias e noites os cavalos

galopam impacientes

abrindo caminho

para seus cavaleiros.

São sete cavalos, belos

como as cores do arco-íris

e as maravilhas do mundo.

São sete capitães valentes,

curtidos de outras guerras,

leais a El Rey português.

São sete fogosos cavalos

e seus bravos cavaleiros.

São sete fidalgos lusitanos

e seus árabes ginetes.

Impacientes os cavalos sacodem as cabeças

para afastar o bando de ávidas muriçocas.

Impacientes os cavaleiros sacodem as cabeças

para afastar pensamentos de amor e de saudade.

São sete cavalos ariscos e seus cavaleiros.

Orelhas em pé, os cavalos se preocupam

com os ruídos estranhos que surgem do mato

e com o cheiro de bichos ferozes.

Ouvidos atentos os cavaleiros cansados

também se preocupam com a sinfonia

que vem da estrada, da noite, do dia.

Quem vem lá? gritam. Ninguém vem.

São onças esturrando nos capões,

são bichos que piam, estriam, assoviam

a modo de gente enfurecida e traiçoeira.

À noite os cavalos não dormem,

cochilam em pé, assustados, atentos.

À noite os homens se entregam a um sono

cheio de sustos, de acordares, de espantos.

Os cavalos ainda sonham com o longo tempo

encerrados entre tábuas, em navios, em carroças,

a obscuridade, as longas pernas dormentes,

o balanço contínuo, o sono picado por medos.

Sonham com o desembarque difícil,

pernas endurecidas, crinas emaranhadas,

olhos que doem ante um sol tão brilhante

narinas que se abrem para novos odores.

Os brejos. Os charcos. Os areais.

Bichos ferozes entrevistos na mata

borboletas em bando, aves gritadoras,

homens morenos, seminus, armados,

correndo e gritando por entre as árvores.

Os sons, os cheiros, as cores, tudo

perturba os guerreiros montados

nos árabes ginetes. Tudo assusta.

Por noites e dias os cavalos galopam

levando os cavaleiros por estranhos caminhos.

Não reclamam, não se cansam, não refugam

como quem os monta.

São sete cavalos ligeiros, belos

como as sete maravilhas do mundo,

iguais como os dias da semana

diferentes como as notas musicais.

São sete briosos cavalos e seus cavaleiros.

OS CAVALEIROS

Algarves, Trás-os-montes, Minho, Lisboa, Goa,

Bahia, São Vicente, Minas Gerais, Moçambique,

ou em que outros tantos lugares os cavaleiros

deixaram saudades, mulheres chorosas,

e crianças encatarradas e ramelentas?

Em Beira-alta talvez uma cachopa derrame lágrimas

ou no Porto alguém morda a mão de raiva.

Talvez em Angola alguém suspire de alívio

ou ainda em Goa alguém xingue ou lhes rogue pragas.

Quem sabe na Serra da Estrela um homem morre

chamando pelo filho aventureiro?

Ou em Lisboa uma donzela lamente

mais que a honra perdida, o amor ingrato.

Soldados, mulheres, parentes, sócios,

cobradores, carcereiros, filhos sem pai,

amigos, desafetos, patrões, professores,

todos ficaram no passado e é como

tivessem existido numa outra vida.

Há uma névoa entre o hoje nesse mato

e o ontem na tasca da Andrômeda,

bebericando o encorpado vinho velho

e roendo as lascas de queijo curado.

Os peitos redondos de Ciça Maruja

já não aparecem em sonhos

e nem se sabe mais se existiram

Ou são frutos da imaginação/solidão.

Além da névoa há o mar bravio

que esconde as terras fluminenses

onde plantavam cana e criavam gado

e as terras paulistas onde guerrearam

por um distante El Rey que manda em tudo.

Antes, a certeza da aventura rendosa,

mulheres, terras, escravos, ouro e prata.

A glória e a fortuna e no final de tudo,

satisfação, sonho e saudade. Novos senhores.

Hoje são as pernas metidas em alagadiços,

peles cortadas por espinhos e gravetos,

cansaço, pesadelo, desilusão, dívidas.

Se repetem baixinho, vezes sem conta,

que labutam e guerreiam duramente

para civilizar o novo mundo

e ganhá-lo para El Rey.

Mas já não acreditam tanto.

Alguns voltarão um dia

para suas fazendas abandonadas

para as mulheres indignadas

para os filhos que vão conhecer

cônscios da missão cumprida

apesar do amargo na boca e das cicatrizes.

Outros talvez morram de febres malinas,

de ferimentos, de saudades, de solidão,

da certeza que sua valentia e crueldade

não melhoraram nada o mundo.

Por caminhos de areia, barro e lama,

cavalos nervosos cortam dias e noites.

São sete cavalos mouriscos

e galopam, galopam, galopam.

O vento embaraça as crinas

as cores ofuscam seus olhos

os sons confundem seus ouvidos.

São sete cavalos e seus cavaleiros

em busca de seus destinos. (SJB, 1995/2006)

* Do livro “Duas lendas sanjoanenses – poemas novos e antigos”

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

NOTAS DO PARAÍSO XIII NOTAS DO PARAÍSO XIV

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: