ZECA

11 \11\UTC maio \11\UTC 2010 at 21:08 Deixe um comentário

A brisa noturna vinda do mar refrescava o salão do hotel cassino que regurgitava de pessoas alegres, que dançavam, conversavam, apreciavam o movimento ou escutavam a música tocada pelo regional. No final do salão, havia um arco com um biombo de madeira ocultava, sem esconder de todo, o salão reservado aos jogos de azar, bingo, roleta e bacará. No fundo do salão, sobre o estrado de madeira, Ivone, bela morena, cantava ao microfone os números gravados nas bolas que retirava da esfera de metal.

Garçons corriam esbaforidos de um lado para outro,suando, equilibrando bandejas nas pontas dos dedos, se desviando de obstáculos de toda a espécie. Ao sair da cozinha, por pouco Zeca não bateu de frente no colega que chegava com a bandeja cheia de copos e pratos usados. Olha por onde anda, gritou o que entrava.

Zeca seguiu seu caminho, sorrindo. O gaiato sorriso só deixava seu rosto quando se transformava numa gargalhada. Alegre e brincalhão por natureza, Zeca era moreno, com cerca de 1,60 metros de altura, tinha um rosto bonito emoldurado por cabelos lisos e castanhos. Era esperto, conversador e querido pelos que o conheciam. Gostava de azucrinar o juízo dos outros, fazer molecagem como passar discretamente a mão na bunda do colega enquanto ele atendia uma mesa, fazendo que perdesse a concentração e se irritasse. Não raras vezes a brincadeira terminava em desastre e Zeca levava um baita esporro do chefe. Não aprendia. Não fora despedido por causa da simpatia e eficiência. Naquela noite, antes de ir para o trabalho, pela primeira vez beijara a namorada e seu ânimo era excelente e agitado. Era a namorada mais difícil que encontrara e enquanto seguia para o cassino, excitado, jogava beijos para a multidão de estrelas que assistira a moça atender ao que, naquela época, era considerada uma ousada prova de amor. Pensava seriamente em se casar com ela, que tinha os lábios mais doces e macios do mundo. Além da alegria, Zeca estava cheio de paixão. Na cozinha do restaurante, apertara as gorduras do cozinheiro, se esfregara na bunda do ajudante, mexera com os garçons, sua inquietação não tinha limites. Todos reclamavam.

Com a bandeja oscilante, seguiu pelo salão, se esquivando de um aqui, mexendo com outro ali, expandindo sua alegria e hiperatividade. Num momento em que se curvou para trás para passar por um casal que dançava apertadinho, sentiu um volume na coxa. Por um momento ficou intrigado, o que seria aquilo? Logo se lembrou que seu amigo Rique, marinheiro em visita aos pais, lhe presenteara com um isqueiro que imitava perfeitamente uma mauser, arma da moda. Como não fumava, entendeu que o amigo lhe dera um brinquedinho.

Nesse momento de distração tornou a esbarrar no colega que quase derrubara ao sair da cozinha. Toma tento, gritou o outro. Não olha por onde anda? Foi a deixa que ele precisava. Fingindo aborrecimento, meteu a mão no bolso, sacou a pistola e a apontou para o outro, rosnando: Vou lhe mostrar quem não olha por onde anda. Vou lhe ensinar o caminho do inferno.

Com o susto o garçom deixou cair a bandeja com estrondo. Pratos, copos e garrafas se esfacelaram. As pessoas sentadas nas mesas mais próximas, viram Zeca apontando a arma para o outro e entraram em pânico. As mulheres gritavam, homens voavam pelas janelas, esbarravam uns nos outros, tropeçavam e caíam. A balbúrdia foi geral, o caos se instalou e espraiou pelo salão social e em seguida pelo salão de jogos. Ninguém sabia o que estava acontecendo, mas ao olhar na direção da porta da rua viram Zeca, de olhos arregalados, segurando a arma, surpreso com a confusão que provocara, e o outro garçom estático, braços levantados e olhos esbugalhados de pavor.

Dessa vez Zeca foi despedido. (SJB,11/05/2010)

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