QUEM CONTA UM CONTO V… (final)

21 \21\UTC abril \21\UTC 2010 at 21:18 Deixe um comentário

Os primeiros anos de casamento são os melhores, até certo ponto. Há coisas para se descobrir juntos, sonhos cevados nas batalhas de amor, planos de constituir família, crianças correndo, estudando, namorando… coisas que são boas sonhadas. Sonhadas.

Foi assim com nosso herói. Além de bonita e bem educada, a mulher que levou pra casa era de nível sócio-cultural superior ao seu, o que o fascinava. Nos primeiros anos. Ela lhe ensinou como se portar à mesa, usar talheres e copos, para poderem ir às recepções e jantares oferecidos pelo pai político, a quem ele continuou a chamar de chefe, o que a irritava. Não nos primeiros anos.

Ele a levou para conhecer sua família, aproveitando para fazer as pazes com o pai. Toda a família a admirou, elogiou suas roupas, seus modos. A impressão dela sobre a família, porém, não foi lisonjeira. Achou que dizer que os cunhados eram selvagens era elogiá-los, assim como chamar a propriedade familiar de fazenda. Moça citadina, imaginara as fazendas como as que via nos filmes, cavalos briosos em estrebarias limpas, jamais uma galinha pondo ovo numa cama nem crianças barrigudas, olhos remelentos, narizes escorrendo, um horror!

Voltou lá poucas vezes, e nunca mais para dormir. Quando começava a escurecer ia com o marido e a filha para uma pousada numa cidade próxima. Ele voltava, alegava que a menina sofria de alergia, e com os velhos amigos emendava uma serenata até a manhã seguinte. Dormia na pousada, pois seu velho quarto estava ocupado pela família de um dos irmãos. Voltavam para o almoço e iam vivendo essa vida de aparências, o que não o incomodava, desde que o deixassem fazer suas serenatas.

Um dia eles se sentaram para conversar, discutir a relação, como se diz, e daí resultou uma separação consensual, ela voltou para a casa do pai com a filha, que o avô adorava e ele ficou na sua casa. Menos de um mês depois se encontraram por acaso na sala de trabalho do pai, aonde ela nunca ia. A filha, que a babá levava para ele ver toda semana, não estava presente. Também por acaso saíram na mesma hora. A tarde, belíssima, sugeria um passeio e foram para a beira mar, sentaram-se num banco da praia e num momento de distração ele confessou que sentia saudades dela. Surpresa, ela titubeou, mas acabou confessando que até sonhava com ele. Na cama, ela disse, você é perfeito, é meu príncipe encantado. Então vamos procurar uma, se precipitou ele, já sentindo a ereção chegando. O motel não ficava longe e a tarde foi perfeita.

Não tão perfeita assim, porque ela avisou, na hora de descer na casa do pai, que aquela seria a primeira e última vez. Não cederia a impulsos e viver com ele o dia a dia era difícil e desgastante. Ela tinha planos de voltar a estudar, era nova e já cuidara de se matricular no mesmo curso pré-vestibular. Ainda não sabia que carreira seguir, mas como o pai tinha queda pela política, pensara em estudar sociologia, gestão pública ou coisa parecida.

Duas semanas mais tarde o encontro foi numa festa da repartição do pai onde ela nunca havia ido e ela fraquejou novamente. Droga, não consigo escapar do seu fascínio, quando penso no seu corpo, nos seus beijos, sinto uma gastura, uma tonteira, que só passa depois que vamos ao motel, ela confessou enquanto se livrava da roupa. Mas juro que essa é a última vez que venho aqui com você, preciso tomar vergonha. Por outro lado, você não procura melhorar, fica satisfeito com esse empreguinho subalterno, nasceu para lacaio.

Há um ano se encontram semanalmente para matar as saudades. Ele nem insiste mais em pedir que ela volte para casa ou permita que ele vá morar com ela. Durona, nega entre dois beijos de língua. Hesita um pouco quando a mão dele alisa suas nádegas – eu não tenho bunda, avisou, tenho nádegas – mas resiste. Só quero você no motel, frisa. Sexualmente satisfeita, não suporto nem olhar para sua cara. Sabe que mente, prefere assim, preserva seu orgulho, sua privacidade, educa a filha a seu modo, é feliz.

                                                                             FIM

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