QUEM CONTA UM CONTO IV

21 \21\UTC abril \21\UTC 2010 at 21:07 Deixe um comentário

Moleza o trabalho. Buscar e levar o chefe, às vezes uma encomenda para entregar ou uma autoridade para pegar, mas na maior parte do dia ficava estacionado no jardim da repartição, lavando e polindo a viatura, batendo papo e paquerando as mulheres. Na pensão se dava bem com todos, mas desenvolvera amizade mesmo com os gêmeos coloridos, como apelidara os irmãos idênticos só que um moreno e outro louro, e com o Barbosa, pernambucano que não comia verduras porque não era bode e tocava violão e cantava como gente grande. Depois do jantar os quatro davam uma volta pela rua da praia, buliam com as putas e terminavam a noite no boteco pé-sujo, na esquina antes da rodoviária. Tocavam e cantavam até dar sono. Menos nosso herói que parecia um pato rouco quando soltava a voz.

O chefe o adorava, até os casos amorosos em que só pensava baixo, com gente fina, lhe contava. Nosso herói virou o leva-e-traz nos romances clandestinos do chefão bonitão. Era seu homem de confiança, sabia de todos os seus segredos, financeiros e de alcova. De agora em diante, disse-lhe o chefe um dia, como merece minha confiança, você vai levar e buscar minha filha no colégio. A linda garota, que acabara de completar 17 anos, faria em breve o vestibular. Pra que carreira não sabia, na hora escolheria. A princesinha arrumara flerte indigno de sua posição social e o pai pretendia que indo de carro para a escola não se encontrasse com o moleque atrevido. Nos primeiros dias ela ia chorando, o belo rostinho virado para o estofamento do banco de trás, que molhava com suas lágrimas de amor contrariado. Nosso herói, jeitoso, terno, compreensivo, ganhou-lhe a confiança e em breve ela passara a sentar-se no banco da frente e o chefão ficara encantado com a habilidade de seu funcionário.

Então, deu-se a melódia: os laços afetivos entre os dois ocupantes do carro oficial se estreitaram a tal ponto que decidiram fugir juntos, arrostando a ira e decepção do pai-chefe. Numa bela tarde ela não foi deixada em casa. Ele estacionou o automóvel perto da estação ferroviária e tomaram o primeiro trem para Campos. Ele achava que se fossem de ônibus, opção mais rápida, seriam apanhados em Macaé, onde o veículo parava para os passageiros comer e urinar. O chefe, geração motorizada, não imaginaria que seu motorista embarcaria num trem, transporte que começava a ficar obsoleto. Foram apanhados na estação de Rio Bonito. Depois de encontrar seu carro perto da estação, a polícia concluíra que tipo de transporte os pombinhos utilizavam na fuga e detiveram o casal antes que pudesse trocar mais que alguns tórridos beijos, num canto do vagão, a época não permitia grandes expansões amorosas.

O cenho franzido do pai-chefe na delegacia era assustador. Não para nosso herói, que tinha mais essa virtude: era corajoso e sabia que sendo a menina menor de idade o pai a casaria com ele, mesmo sabendo que nada de mais acontecera. Ao denunciar o sumiço do carro oficial, o pessoal da secretaria despertara a curiosidade da imprensa que seguira os polícias, principalmente depois que descobrira o rapto embutido na ação. Para o casamento foi acionado por telefon’e um parente de nosso herói que morava na pensão, que munido de roupas e documentos, apresentou-se na delegacia pedindo para falar com o parente que praticara o roubo e provocara estrondosas gargalhadas nos duros policiais ao explicar que ele “roubara uma moça.”

O casamento foi realizado na fria sala do delegado, roupas, padrinhos e convidados improvisados. O casal, nadando em felicidade, foi para um hotel em Icaraí, único luxo admitido pelo indignado pai, que se imaginou vítima de golpe do baú bem aplicado. Nosso herói, mais uma vez, andara certo por caminhos tortos. E se viu alçado a um posto melhor, com direito ao carro onde transportava o sogro para o trabalho e para casa. A princípio sério, magoado pela ofensa, o chefe mal falava com o motorista. Mas não era à toa que ele tinha a fama de sedutor.

– continua –

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