QUEM CONTA UM CONTO…III

21 \21\UTC abril \21\UTC 2010 at 17:01 Deixe um comentário

Foi morar com um dos irmãos, comerciante em Campos. Tentou aprender as técnicas de venda e atendimento aos clientes. Era ótimo com as carinhas bonitas das mulheres que iam comprar botões e fitas e desinteressado com as demais. Às vezes até grosseiro. Broncas e broncas do mano. Não gosto de trabalhar em balcão, alegou, cortar fitinhas, rendinhas, mostrar fivelas, botões, coisas de mulherzinha. Quero fazer outra coisa. O que? se perguntava a família preocupada. Ele passara quase vinte anos de sua vida fugindo das escolas, correndo de qualquer letra escrita, mal sabia somar e diminuir, só a memória era boa. Não se esquecia de nada, garantia, orgulhoso. Os caras que me denunciaram a papai ainda vão ver comigo. Pândego, quase analfabeto, irresponsável, mas simpático e trabalhador, desde que o deixassem dormir até mais tarde. Depois era uma máquina de trabalho.

O irmão comerciante, jeitoso, lhe conseguiu uma colocação: ia ser polícia. Comprou-lhe farda, com boné e apito e foi lançado numa esquina, depois de algumas instruções sobre como controlar o trânsito. Moleza, garantiu. Só não suportou o sol quente a transformar a farda num forno, a lhe cozinhar os miolos. Suava como animal de carga. Nas horas de folga freqüentava a repartição em busca de nova colocação. Conseguiu.

Só devia continuar de farda, o que foi muito bom, pois uma de suas funções era fazer a triagem dos candidatos a motorista para o exame de vista. Com os dentes trincados e a mão dura traçava os dados necessários. Dureza, ele dizia, cada nome grande! E como a sorte parecia persegui-lo, fez chegar à sua mesa um colega das derrubadas de telhado na roça. Se abraçaram, recordaram, riram muito, e o colega lhe contou que tinha um problema: no ano anterior, ao desbastar um bardo de gaiolinha, gotas do leite da planta lhe queimaram o olho esquerdo, quase não enxergava nada por ele. E precisava da carteira para dirigir o caminhão para levar a produção ao mercado. E na hora do exame… Não ia deixar o amigo sem a carteira de habilitação. Mandou que ele sentasse, entrou na sala do exame e com sua boa memória decorou as letras nas suas posições. De posse da carteira, o colega melhorou de vida, o caminhão vinha abarrotado com a sua produção agrícola e as dos vizinhos, desde que arcassem com o frete. Até que um dia, ao dobrar à esquerda, não viu o outro caminhão carregado e quase se quebrou todo. O pior foi que a perícia descobriu que ele não enxergava desse lado e como conseguira a carteira, como foi, como deixou de ser, outros apareceram, parece coisa do demo, numa semana três sujeitos bateram e todos com exames de vista fraudados. Jornais tiveram de ser silenciados e como nosso herói era um amor de pessoa, risonho, educado, prestativo, sua punição foi ser transferido para Niterói, na sede da secretaria. Não gostou da mudança, tinha arrumado em Campos a caixeira de livraria que morava sozinha e lhe dava amor, cama, comida e roupa lavada. Foi um drama separar-se dela, que queria ir junto. Como andava meio cansado da possessividade que ela demonstrava, saiu dizendo que ia trabalhar e não voltou mais. Na pasta levava o essencial.

Levou menos de quinze dias para se adaptar à nova vida. Com seu jeito carinhoso e alegre arrumou meia dúzia de amigos entre os novos colegas. Uma pessoa fantástica, disseram, colega precioso, amigo. Arrumou vaga numa pensão no centro, e mostrou-se um modelo de funcionário público. Não usava mais a farda, deixara de ser polícia. Um mês depois o destino voltou a mexer seus pauzinhos e matou de infarto o motorista de um grandão da cúpula da repartição onde fora lotado. Por pouco o grandão não morre no acidente provocado pela doença do motorista. A sorte, disse ele a nosso herói, é que estando sem fazer nada, você está sendo convidado a dirigir a viatura oficial. Trabalho de segunda a sexta, só atende a mim ou com minha ordem. Viagens ocasionais.

– Continua –

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