QUEM CONTA UM CONTO… II

21 \21\UTC abril \21\UTC 2010 at 09:24 Deixe um comentário

A vida e a lida na roça começam cedo. Nem bem o sol acabara de barrear o horizonte e um grupo circunspeto de homens atravessou a cancela e bateu na casa do pai do nosso herói. Ele dormia, claro, era domingo, dia de acordar mais tarde. O pai, porém, surgiu imponente na varA vida e a lida na roça começam cedo. Nem bem o sol acabara de barrear o horizonte e um grupo circunspeto de homens atravessou a cancela e bateu na casa do pai do nosso herói. Ele dormia, claro, era domingo, dia de acordar mais tarde. O pai, porém, surgiu imponente na varanda, preocupado, algo de sério teria acontecido para aquele farrancho amanhecer na sua porta.

Mandou que entrassem e se aboletassem nas cadeiras, mas o que parecia ser o líder, agradeceu e declinou, a visita era curta, apenas para lhe dar ciência de certas ocorrências que estavam azucrinando a comunidade. E contou, tintim por tintim, o que e quem os incomodava. E mais, se ele não pusesse cobro naquilo, iam tomar a liberdade de dar reclamar com o deputado. O homem se avermelhou, respirou fundo, disse desconhecer tudo aquilo, e prometeu que não iria acontecer mais. Não precisavam importunar o deputado. Sentou-se na cadeia de balanço, a biqueira da botina a coçar o cachorro que se deitara a seus pés. Esperou a comitiva sumir na estrada e gritou para a mulher acordar o filho.

Ele chegou estremunhado, enfiando a camisa do pijama nas calças, sabendo o que ia se passar e o que precisava dizer para se safar da embrulhada. Custava a crer que os capiaus tivessem ousado dar queixa a seu pai de uma brincadeira boba. Mas o que viu o assustou: o pai, de pé, a brandir o cinto que acabara de arrancar da calça. E não soube o que fazer quando o cinto bateu forte no seu lombo incontáveis vezes, rasgando a camisa e lanhando sua pele. Riscos de sangue faziam sua mãe, encolhida num canto, cobrir a boca com as mãos para não gritar e olhos arregalar para assistir à memorável surra. Os irmãos, atraídos pelo alarido e gritos do herói, se acotovelavam na porta do corredor, com os mesmos olhos arregalados da mãe diante da inacreditável cena, jamais vista depois que lhes nasceram os pentelhos. Quando o pai se cansou e arfando voltou à cadeira de balanço, ele enxugou as lágrimas com a ponta da camisa e entrou no seu quarto, fechando a porta. E então, aturdidos ainda pela cena, todos ouviram, com nitidez, um disparo vindo do quarto. Susto, gritos, tentativas de abrir a porta, trancada por dentro. O pai, os olhos já vermelhos de arrependimento, não precisava ter batido tanto, a mãe uivando em desespero. Os irmãos fortes, unidos, se arremessaram contra a porta e a arreganharam. O pai continuou sentado, os olhos turvos de lágrimas.

A mãe, descabelada, buscou o corpo do indigitado filho. Mas onde estava ele? O cheiro de pólvora enchia o ar, mas e o sangue no assoalho? E o maltratado corpo? Sem entender, os olhos de todos foram atraídos pela brisa matinal, refrescante, que entrava pela janela escancarada. De nervosismo um dos irmãos soltou uma gargalhada. O pai nem se ergueu, nem secou as lágrimas, a vergonha e a raiva as absorveram. Onde estava o safado? Os irmãos, como se recebessem a mesma ordem, se espalharam pela propriedade em busca do herói. O pai permaneceu sentado, um domingo para se lamentar por muito tempo.

O moço levado foi achado metido no canavial, chupando a cana que descascara com os dentes. Pelo irmão mais novo a mãe lhe pedia que ficasse longe por um tempo, até o pai se acalmar. E pelo mesmo filho mais tarde lhe mandou o almoço, que saboreou debaixo de frondosa ingazeira. Também chegou roupa limpa. Ele sorriu, matreiro, e murmurou para os irmãos: bate forte, o velho! Ria de tudo ao contar aos amigos de farra que, sabedores do ocorrido, tinham ido se solidarizar sob a ingazeira. Com uma garrafa de pinga.

O engraçadinho dormiu na casa de farinha, entre sacos de semente, enxadas, facões e galinhas poedeiras. Uma noite refrescaria os ânimos do pai. Acordou de supetão, não com o sol a lhe bater na cara, mas com o pai, cada vez mais solene a lhe apontar a soiteira:

 – O senhor não mora mais na minha casa, rua!

– continua –

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