QUEM CONTA UM CONTO…

20 \20\UTC abril \20\UTC 2010 at 15:15 Deixe um comentário

…aumenta um ponto, diz o ditado. Não é o caso, embora esta história tenha todos os ingredientes de uma lenda ou anedota exagerada.O caso se deu nos anos 50 do século passado e envolve gente da minha família. Não vou dar nomes, mas em que pese o tom rocambolessco, é a mais pura verdade. Beijo os dedos cruzados.

Nosso personagem principal era moreno, de baixa estatura, lavrador, e embora adulto,  vivia na casa do pai, um produtor rural. Atrevido, alegre, irresponsável, sedutor, brigão, estava sempre a se meter em confusões, o que deixava o pai, líder político na região, furioso, por lhe atrapalhar o trabalho de conquista de eleitores. Simpático, nosso herói estava sempre pronto para uma caçoada ou uma brincadeira pesada. Tinha dois ou três amigos de fé, os mais baderneiros da região.

Naquela época, quando o rádio estava se expandindo para o interior e ainda não nascera a febre das radio-novelas, a diversão do povo eram os bailes das noites dos sábados. Era quando as moçoilas se empetecavam, os rapazes tomavam o banho completo – no resto da semana só se lavava a cara, os sovacos e os pés – e iam ao barbeiro. Lindos e lindas se excitavam ao pensar no arrasta-pé noturno na casa do conhecido que comemorava ou não alguma coisa. Muitos casamentos surgiram nesses bailes.

Nosso herói e seus amigos adoravam os bailes, não para dançar ao som da sanfona e do pandeiro, mas para arrumar confusão e acabar com a festa. Era eles chegarem e a bagunça começar, fosse por causa da menina bestinha que se recusava a dançar, fosse por causa do regional caipira que não sabia tocar a música pedida. Armado o sarilho, a festa acabava entre gritinhos e empurrões, palavrões, socos e gorumbumbas voando sem rumo. Ele adorava, mas o pessoal se aborrecia e chegou a parar com as festas. O tédio e a falta do que fazer para se distrair um pouquinho depois da dura lida na lavoura, fez com que as festas retornassem.

Mas os dançarinos tomaram suas providências. A uns duzentos metros da casa puseram um observador, que viria disparado avisar quando os quatro cavaleiros do apocalipse caboclo surgissem ao longe. De imediato a música silenciava e os lampiões eram apagados, até que eles estivessem longe. Nesse ínterim, no escurinho da casa, beijos rápidos, algumas bolinagens e arrochos aconteciam, sem ninguém ver. Ou fingindo não ver, o que dá no mesmo. Era o melhor dos mundos, todo mundo feliz.

Mas, e há sempre um mas a perturbar a felicidade, alguém contou aos pilantras o que estava acontecendo. Ah, é assim!, exclamou nosso herói, indignado com o fim de sua diversão. Também criaram uma estratégia, que consistia em infiltrar um agente entre os festeiros que descobriria onde seria o próximo baile. Conseguiram a adesão de um boboca que queria integrar o grupo, por não ter muito sucesso com as damas dos bailes. Nosso herói esfregou as mãos de pura alegria e explicou seu plano de ação aos amigos. Numa noite, quando o vigia vislumbrou o grupo, saiu quase às quedas para avisar aos bailantes que, de imediato e sem rumor, tomaram as providências tranqüilizadoras.

A casa da festa tinha cobertura de sapê, como a da maioria das casas da roça na época. Os cavaleiros vieram num trote ritmado, conversando trivialidades, contando piadas, rindo e balançando a corda do laço com elegância. A lua prateava os canaviais. Na casa da festa o silêncio só era cortado por risadinhas em surdina das moças apalpadas.

O teto do casebre era composto de cumeeira e ripas segurando a palha do sapê. Dois dos cavaleiros se adiantaram e, ao mesmo tempo que os atrasados laçaram as pontas da cumeeira e açoitaram os cavalos, que dispararam pela estrada embranquecida pelo luar, arrastando a cobertura. O caos se instalou na casa quando o telhado foi arrancado e as palhas do sapê e ripas voaram, deixando os convidados apavorados a olhar a lua pela improvisada janela.

Serelepes, orgulhosos do que haviam aprontado, os jovens baderneiros seguiram em frente. Nosso herói, depois de muito gargalhar, meteu-se debaixo dos lençóis, como se nada tivesse a ver com o feito.

 – continua –

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