MEU AVÔ DODÔ SÁ

9 \09\UTC março \09\UTC 2010 at 08:57 1 comentário

Meu avô paterno, Godofredo Gomes de Sá, o Dodô Sá, viveu toda sua vida em Pipeiras. Era moreno, de estatura mediana – não mais que l, 60 m, asmático, cabelos crespos e incríveis olhos azuis. Azuis como os do cantor Frank Sinatra. Seu cavalo, castanho, era o mais alto do plantel da propriedade, compensando sua baixa estatura.

Era filho do fazendeiro capitão João Francisco (Caboclo) Sá, que morreu em 1918, durante seu mandato como vereador em São João da Barra. O corpo veio de trem, de Campos, para aqui ser enterrado. Não consegui encontrar sua sepultura.

Dodô Sá tinha pouca altura física, mas grande estatura moral. Era muito respeitado. Fazendeiro, plantava cana que vendia para a usina Barcelos. A fazenda não era grande e se dividia em diversos trechos do 5º distrito: Valetas, Mundéus, Entre lagoas, Lagoa do Taí. Além de cana, produzia quase tudo para abastecer a fazenda, exceto arroz. Lembro-me das férias que lá passei, acompanhando a colheita do milho e da mandioca. O milho se debulhava sentado no chão da casa de farinha, onde também a mandioca era raspada, ralada na grande roda da bolandeira, imprensada no tipiti para escorrer o soro, venenoso, e pendurada no galho de uma paineira para secar até ficar no ponto de ir para o forno, um enorme e raso tacho de ferro, onde se fazia farinha de mesa, biju e tapioca. O queijo branco era feito ali, assim como o farte, único doce que conheço que leva pimenta do reino e que hoje em dia quase ninguém faz, a não ser a prima Sueli, recentemente empossada presidente da Academia Pedralva de Campos. A papa de milho e a pamonha eram feitas na cozinha. Vovô criava algumas cabeças de gado.

Ele era líder político do PSD de Afonso Celso e do interventor Amaral Peixoto. Não concorreu a mandato eletivo, como seu pai, mas foi delegado de polícia. Um de seus filho, Telço, se elegeu vereador no município Campos.

Sua fazenda principal ficava em Valetas, onde era vizinho de seu turbulento sobrinho, Joca Sá. O coronel Joca sitiou a cidade de S. João da Barra com 100 cavaleiros, contra a aprovação de taxa votada pela Câmara que considerava lesiva aos agricultores. Havia um boato que Joca matara um homem a tiros em Pipeiras, mas meu pai não referendava a versão. A história do sítio à cidade por Joca Célio Aquino conta em um de seus livros.

Meu avô tinha 11 irmãos e 19 filhos, sendo cinco ditos naturais, com as empregadas da casa. Meu pai era seu terceiro filho. O mais velho vivia em Pureza, junto à usina de seu tio afim, Olavo Cardoso, onde tinha um açougue. Chamava-se José e morreu vitimado por enfarte, por volta dos 40 anos. Poucos de meus tios dedicaram-se à lavoura. Evaristo formou-se em contabilidade e Getúlio, um dos mais novos, trabalhava em farmácia.

Vovô aniversariava em 26 de outubro e nesse dia, a fazenda era uma festa. Todos os filhos, filhas, genros, noras e netos se faziam presentes e para alimentar esse mundo de gente matava-se porcos, bois e criação (aves domésticas) de todo tipo. Lembro da casa lotada, só a família dava para encher os cômodos, a criançada gritando, correndo desabalada pelo terreiro, pastos e currais, de cambulhada com galinhas, patos, bacorinhos e cachorros, as mães a gritar, chamar e a ralhar.

À noite se dançava a quadrilha na sala e as visitas de parentes, amigos, vizinhos, políticos e autoridades se multiplicavam. Chegavam a cavalo, de carroça e de automóvel. Doces, licores e pinga – a cerveja não estava na moda nem o uísque – circulavam sem parar. De madrugada, os homens que ficaram dormiam nesta sala e as mulheres com seus filhos nos quartos. Uma doideira. Para mim nunca houve nada igual.

Vovô morreu em conseqüência de complicações de uma cirurgia de vesícula na Santa Casa de Campos, em 1954. Foi o primeiro cadáver que vi e para piorar, foi colocado na mesa de mármore do necrotério, onde tive de montar guarda, enquanto papai e um tio agiam o enterro. Que sufoco!

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1 Comentário Add your own

  • 1. Cadinho RoCo  |  9 \09\UTC março \09\UTC 2010 às 18:46

    Na vida sempre esbarramos com a tal da primeira vez.
    Cadinho RoCo

    Responder

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