UM CONTADOR DE HISTÓRIAS

4 \04\UTC março \04\UTC 2010 at 09:34 1 comentário

Meu pai era um exímio e nato contador de anedotas, muitas criadas por ele mesmo. Tinha carisma, charme, poder de sedução e onde chegasse logo um grupinho se reunia a seu redor para ouvir o que contava. Encontrando platéia atenta e receptiva, podia passar o dia ou a noite inteira contando suas anedotas.

Meu pai era farmacêutico prático, na época eram poucas as faculdades de farmácia e raro que um profissional se deslocasse para o interior. Não havia a exigência atual da presença por 24 horas de farmacêutico nos locais de venda de remédios.

Meu pai tinha um dom especial para tratar os doentes, sensibilidade que não raro fazia com que diagnosticasse certo antes do médico e salvou muitas vidas assim. Quando não sabia ou achava que o estado do doente inspirava cuidados, o encaminhava ao médico. Nos fins de semana, na velha fubica (camionete) saía pelos 5º e 6º distritos levando conforto, conselho aos doentes ou remédios de amostras grátis. Voltava carregado de ovos, frutas, aipins, abóboras, presentes dos doentes reconhecidos pelo atendimento.

Na farmácia ele encontrava personagens e situações que, com sua criatividade e senso de humor, transformava em anedotas. Não inventava, recriava em cima de fatos reais.

Como a história do muxuango que veio ao médico com a esposa e levou a receita à farmácia para aviar. Papai tinha por hábito explicar detalhadamente ao doente como tomar o remédio. Muitos não sabiam ler e outros ficavam confusos com as explicações dos médicos. Assim foi daquela vez. Sob o olhar da mulher, o homem o ouviu dizer:

– Este comprimido o senhor toma depois do almoço e este outro depois do jantar. Na hora de dormir pegue um supositório e introduza no ânus.

O casal saiu, mas lá na frente o homem parou, coçou a cabeça, e disse à mulher:

– Não entendi muito bem o que seu João disse, vamos voltar pra ele explicar melhor.

Papai tornou a dar a explicação, um pouco impaciente porque a farmácia estava cheia de gente a ser atendida. O homem agradeceu e saiu, mas mal chegou na esquina tornou a parar, coçou de novo a cabeça e disse à mulher:

– Continuo sem entender direito, tô querendo pedir a seu João para explicar melhor, mas ele é estourado, tenho medo que se aborreça.

E voltou. Papai estava atendendo um freguês e assim que desocupou, ouviu o velho dizer que continuava não entendendo. Vendo que a dificuldade estava nos termos empregados, papai resolveu ser mais explícito e depois de ensinar como ele tomaria os comprimidos, pegou um supositório e disse, um pouco irritado:

– E este supositório aqui, de noite, o senhor enfia no cu.

Ao que o velho disse à mulher: – Eu não disse que ele ia se empombar?utra história de casal, a mulher procurava um médico, não se sentia bem. Papai a  achou meio amarelada, era bom ir ao médico sim.

– Também, seu João, respondeu ela, amuada, esse homem não para de peidar debaixo das cobertas!

Ao que o homem disse, com um riso safado: – Também, mulher, formiga não te come.

Eram histórias assim e são dezenas, precisaria que o livro do Julio Macedo, outro bom contador de anedotas, estivesse sendo escrito para incluir. Júlio conheceu meu pai e seu poder de encantar com suas historinhas, como a da mulher que achava que o filho, aos três anos de idade, era um poeta. Como assim? perguntou meu pai.

– É que esse bezerrão ainda mama no meu peito e não quer largar e se eu demoro…

Daí a pouco, enquanto a mãe esperava o remédio ser aviado, o menino pediu o peito, já puxando o decote. Ela protegeu a mama e o menino gritou: Me dá de mamar, sua filha da puta, senão te mato!.

Ela sorriu ao dizer a papai: Eu não disse, seu João, que ele era poeta?

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NOTAS DO PARAISO III O INEBRIANTE PODER

1 Comentário Add your own

  • 1. betinho  |  5 \05\UTC março \05\UTC 2010 às 09:44

    Querido Carlos,
    Se puder apareça no programa de sábado as 11 horas na Ultra FM .
    Assuntos: Mobilização Fraca pelos Royalties em SJB.
    Royalties-emenda Ibsen e a transparência na aplicação.
    Seja bem vindo..

    Responder

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