O CARNAVAL, DE NOVO, A PEDIDOS

22 \22\UTC fevereiro \22\UTC 2010 at 09:58 1 comentário

Descobri, feliz da vida, que tenho nove leitores que diariamente acessam meu blog. Podia dizer que são noventa, só pra impressionar e, com um pouco de boa vontade, que são quase vinte, nos bons dias. Bom, né? Eu acho, porque procuram minhas crônicas por vontade própria e se voltam é porque gostaram. Um desses poucos, mas fiéis leitores, comentou dias desses que gostaria que eu falasse mais deste carnaval que acabou de passar e dos carnavais sanjoanenses do passado. Como não sou deste tempo, como disse o diretor de cinema Martin Scorcese, vou falar um pouco dos carnavais que vivi. Com muito prazer e saudade. A luz nas ruas era fraca e pouca, por isso os blocos saíam mais cedo. O bloco União das Flores, do Nico Natalha, com suas meninas com fantasias de papel crepon colorido, saíam logo que terminavam as matinês dançantes nos clubes. Os maiores, Congos e Chinês, saíam mais tarde e como anotei em matéria no jornal “O Caranguejo/O Sanjoanense”, poucos eram os rapazes que participavam dos blocos. Eram duas alas, ladeando o casal de mestre sala e porta bandeira, que dançava muito bem. O bloco seguia pelas ruas sem calçamento e quando o casal se punha a dançar, as alas circulavam em volta dele, evoluindo em sentido contrário uma da outra. As músicas eram ranchos, de letras alegres e provocativas, compostas por gente da cidade, muitas até hoje lembradas. Não existiam fantasias luxuosas e caras. A rivalidade às vezes descambava para o tumulto. Contam que no carnaval de 1913, o que ficou na memória do povo não foi a ameaça de guerra mundial que pairava no ar e que aqui chegava através dos poucos navios que ainda atracavam em nosso porto, e sim pela morte de um carnavalesco, de paixão, por ter seu laborioso e brioso cavalo da alegoria sido espionado, copiado e posto na rua horas antes do desfile e de forma gaiata. Célio Aquino conta essa história verídica em um de seus livros. A falta de assuntos ou de emoções na cidade em decadência, com seu casario ruindo e a poeira a flutuar pela passagem dos poucos automóveis e das carroças puxadas a burros, criava perigosa bipolarização sempre que uma novidade empolgante surgia. No futebol, no carnaval ou na política não havia adversários e sim inimigos. Até pouco tempo ainda se apelidavam os seguidores de candidatos – nunca de partidos políticos – de abelhas e maribondos. A necessidade de extravasar emoções, nas grandes cidades diluídas no cotidiano, era então exacerbada. Quem era Congos não admitia que se elogiasse o Chinês e vice-versa. Quem torcia pelo Fluminense não podia aplaudir o Sanjoanense e quem não era Fluminense tinha dificuldade até de conseguir emprego na fábrica de conhaque. Na política, ninguém era PSD ou UDN, era Afonso ou Simão. No carnaval dos mascarados sujos e dominós e dos animados bailes nos clubes, com cordões e amassos discretos para não cair na boca do povo que espiava do “sereno”, os blocos saíam em horários diferentes, um vinha “lá de cima” e outro “lá de baixo”, como se uma cidade de planície pudesse ter níveis diferentes. No caminho para a praça surgiam os conflitos. Quando um bloco atravessava a área onde viviam apaixonados pelo outro, pedradas, cusparadas e xingamentos cortavam o ar. Provocações pipocavam. Se os blocos se cruzassem na rua, a rivalidade se externava em gritos, piadas, pancadaria, depredação de alegorias. Como as alas eram compostas por adolescentes, a porradaria ficava a cargo dos homens que seguiam as namoradas e filhas que dançavam. Apesar de tudo, era um carnaval de paz, sem conflitos armados ou mortes por espancamento, como no ano passado. Não sobravam ressentimentos, a paixão só iria explodir no próximo. Esse o carnaval familiar que ficou famoso e atraiu visitantes e turistas e foi desvirtuado pela ganância. Hoje pode ser luxuoso e movimentado, mas o melhor ficou lá atrás, oculto pela poeira do tempo.

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NOTÍCIAS DO PARAÍSO II HOMENAGEAR SIM, POR QUE NÃO?

1 Comentário Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  22 \22\UTC fevereiro \22\UTC 2010 às 17:14

    Excelente retrospectiva Carlos! Uma volta ao passado nos melhores moldes do escritor, poeta, romancista Carlos AA de Sá!
    Grande Abraço
    Andre Pinto

    Responder

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