DURISTAS X TURISTAS

8 \08\UTC fevereiro \08\UTC 2010 at 16:33 Deixe um comentário

                                                                                                           Carlos AA de Sá

Antigamente era o badalado trem-passeio que trazia os duristas de Campos e arredores para dourar seus corpichos em Atafona. Alguns halterofilistas exibiam seus bíceps e tríceps desenvolvidos. O termo sarado não era comum. Nem periguete e assemelhados.

No domingo bem cedo o trem, atulhado de passageiros, apitava, deixava a estação em Campos e seguia para nossa praia margeando o rio Paraíba do Sul. A viagem era lenta, mas oferecia em troca um desfile de belíssimas paisagens fluviais, com direito a vôos de garças, miuás, socós e marrecas. A viagem de volta começava às quatro da tarde na estação de Atafona e o por do sol sobre o rio era o deslumbrante espetáculo pararelaxar e recuperar os corpos cansados, ardidos e vermelhos de um dia sob o fogo celeste.

Crepúsculos existem no mundo inteiro e são belos, especialmente às margens de rios. O crepúsculo que se exibe no cais do Alecrim, em São João da Barra, em certas ocasiões, tem um diferencial importante: entre os vermelhos gritantes e amarelos escandalosos, em alguns momentos se vêem na água barrenta faixas de suave cor verde ou lilás que só uma máquina fotográfica de ponta, munida de filtros especiais, consegue registrar.

A volta seria cômica se não fosse terrível para uns tantos. A situação de seus estômagos revoltados só seria normalizada nos dias seguintes e os efeitos do frango assado com farofa e arroz, regado a muita pinga e cerveja quente, podiam ser vistos no assoalho do vagão ou nas golfadas nauseabundas largadas pelas janelas do trem. Espetáculo digno do inferno, mas quem se importava? Mulheres e crianças bebiam, crush, grapette, guará.

Nos bancos de madeira corpos intumescidos e assados pelo sol atafonense se derreavam e os roncos faziam a trilha sonora, em compasso com berros das crianças e choramingas de bebês. Nos intervalos entre os vagões, sentados nas escadas, os jovens se esbaldavam nos amassos. Irmãos menores, com metade do rosto oculta pelo portal do vagão, aprendiam a arte de namorar.

Na ida, como ainda não estavam em moda em os barulhentos aparelhos de som, a turma alegrava a viagem com conjunto de cavaquinho, violão, pandeiro e tamborim. Com direito a coro de vozes desencontradas e desafinadas. Na volta, alguns instrumentos eram abraçados pelos donos quase inconscientes, tamborins babados serviam de travesseiros. Havia outros motivos para arrependimento e para prometer nunca mais tocar instrumento no trem. O durista era às vezes chamado de farofeiro.

Hoje, a coisa não mudou muito, apenas foi acrescida do item violência, raro naqueles tempos em que um palavrão provocava repreensões e mãos bobas podiam resultar em expulsão do veículo. O durista de hoje vem de carro, moto ou de ônibus, depredam, provocam acidentes e desrespeitam que os contraria. Terrível.

E por que durista? Ao contrário do turista, que vem para apreciar os sítios aprazíveis, curtir a praia, se espantar com os efeitos da transgressão do mar, admirar monumentos históricos, o durista, vem apenas à praia ou assistir um desses shows popularescos que de uns tempos pra cá pululam no verão. O durista vandaliza, não tem a preocupação de preservar, quebra plantas, bancos de praça e orelhões, joga lixo em qualquer lugar, urina na rua sem pudor, ensurdece com potentes aparelhos de som a serviço do pior tipo de música, enfim, um problema. Quase não gasta e nos lugares aonde vai dá mais prejuízos que lucros. Algumas cidades começam a impor restrições a esse tipo de visitante.

O durista não traz desenvolvimento, não cria empregos nem gera renda, pois muitos deles trazem farnel e bebidas de casa. Alguns trazem latinhas de cerveja em caixas de isopor cheias de gelo para fazer um ganho que pague o passeio.

O durismo é uma praga e ameaça nossas praias. Resta saber se nosso município quer duristas ou turistas. SJB/fev/2010

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