UM PASSADO DE SE ORGULHAR

24 \24\UTC janeiro \24\UTC 2010 at 16:06 Deixe um comentário

O sambista Martinho da Vila, em matéria veiculada no jornal O Globo, edição de domingo 24 de janeiro, estranha que Vila Isabel, bairro carioca onde nasceu e viveu o também sambista Noel Rosa, seu morador mais famoso, não tenha um memorial a ele dedicado. Mais estranho é verificar que São João da Barra, que sediou um dos mais movimentados portos do Estado até o início do século XX, não tenha erguido um Memorial dedicado à navegação costeira.

Desde que voltou a circular, em 1995, o jornal S. João da Barra pleiteou a construção do Memorial, de preferência entre as ruínas do trapiche dos Araújo, bem representativo. Ali eram guardadas mercadorias importadas ou exportadas através do nosso porto. Havia um outro trapiche, na outra ponta do cais do Alecrim, assim como existiam, no entorno da cidade até perto da praia de Atafona, seis estaleiros de construção e reparos de embarcações de médio e grande porte. O cais do Alecrim tem esse nome porque do outro lado da rua ficava o imponente casarão do português Alecrim, empresário exportador e importador.

Como se pode ver no mapa do primeiro Plano Diretor da cidade, produzido nos anos de 1858 a 1861, e no livro de João Oscar, também na cidade existiram as sedes dos consulados da Espanha, de Portugal. O porto, que chegou a receber 75 navios/mês, foi visitado por um príncipe de procedência germânica, por altas autoridades e por um chefe de estado, o imperador Pedro II. Não é de encher o peito de orgulho e proclamá-lo para o mundo inteiro? Não é de se erguer um monumento aos homens e mulheres que ali trabalharam, como oficiais, marujos, taifeiros, estivadores, operários, empresários?

Aqui não. Aqui se esquece, se soterra nossos feitos e heróis sob camadas de areia. Nenhum povo vive sem reverenciar sua história, seus feitos e vultos mais importantes. A impressão que fica desse absurdo relegar de sua história ao esquecimento é que nosso município se envergonha de seu passado, quando deveria se orgulhar. Ou então que os administradores que sucederam o Barão de Barcelos, que mandou erguer o cais de pedra, foram de tal mediocridade e estavam tão convictos disso, que preferiram esquecer o período áureo do município, ara evitar comparações.

Caso seja muito complicada e onerosa a criação desse Memorial da Navegação, podia-se, ao menos erguer um monumento, sob a forma de um obelisco, como existe em dezenas de cidades pelo mundo afora.

Segundo outro projeto desenvolvido pela Casa de Cultura Zenriques, o obelisco seria levantado na calçada do cais do imperador, em meio a um gramado cercado por uma grade, trazendo em cada uma de suas faces as embarcações que ali estacionavam entre colônias de miuás e garças: barcos a vela, a vapor e pranchas. A quarta face conteria a homenagem da municipalidade a esses denodados portuários.

Quem tem um rico passado como o nosso, tem mais é que cultuá-lo. Já que pusemos no chão todo o casario do tempo do império, que tiramos o valor histórico dos prédios sobreviventes, modificando ou alterando sua estrutura com torre, enfeites de granito e andares extras. Já que não temos um museu mínimo, para louvar o passado, façamos pelo menos o memorial e o obelisco. Ou monumentos semelhantes.

Não devemos nos envergonhar e sim nos vangloriar do nosso passado. Não devemos cultivar inveja desse povo maravilhoso que movimentou o delta do nosso rio com seus empreendimentos. Não devemos temer comparações. Cada tempo é diferente.

Se não proclamarmos em pedra e cal que aqui existiu um belo porto flúvio-marítimo, as novas gerações vão achar que o Barão de Barcelos mandou construir o cais de pedra só para os moradores observar os deslumbrantes pores-de-sol no agonizante rio Paraíba do Sul.

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INfÂNCIA EM QUADRINHOS QUEM VALE O QUÊ.

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