Férias em Grussaí

15 \15\UTC janeiro \15\UTC 2010 at 18:53 Deixe um comentário

Era muito diferente a Grussaí da minha infância, onde passávamos as férias de verão.

Morávamos em Campos, na rua do Conselho, atual João Pessoa, onde meu pai tinha farmácia e mal acabava o período letivo íamos num sacolejante ônibus até à curva de Grussaí, onde o avô João Miguel nos aguardava em sua charrete. As crianças adoravam o passeio até a casa avoenga, no início da Restinga, como se chamava a av. Liberdade.

A charrete seguia com as crianças sentadas na parte de trás, sentindo o gostoso cheiro de mato. Tivesse chovido e a estradinha estivesse cheia dágua, o que no verão era comum acontecer, melhor ainda. Ver a charrete patinando, jogando água pros matos, ouvir o chuá das patas do cavalo no lamaçal, que delícia! A gente gritava de felicidade.

A casa de meu avô era a segunda da Restinga, logo após o fio dágua que vinha do rio Paraíba e desaguava na lagoa, e da casa do capitão Fernando Lopes. Da ponte rústica que permitia o acesso à restinga certo domingo vi um jacaré de médio porte e fui correndo avisar a meu pai, que veio e o matou. O bicho foi servido no almoço, uma gostosura. No riachinho, na parte que ficava por trás da casa, meu avô, descalço e com as pernas da calça arregaçadas, com facão amolado atacava gordas traíras que vinham do rio. O delicioso almoço estava garantido. Ainda não se tinha consciência ambiental.

A casa, um dos poucos bens que escapou da hecatombe financeira que atingiu meu avô nas décadas de 1920/30, ficava na face da rua; duas outras, que ele alugava no verão, ficavam no amplo terreno lateral. Era espaço demais para quem vivia encerrado num quintal na cidade. A gente se esbaldava, corria, pulava, às vezes na companhia de primos que moravam no Rio ou São João da Barra. Havia uma cabra, a Capuia, mansa, de longos chifres retorcidos, que nos fazia companhia nas peripécias. Bom demais.

A gente dormia embalada pelo marulho do mar, a duas quadras, as ondas se espraiando pela areia. Dormíamos e acordávamos cedo, a luz elétrica era fraca. Depois de bater um prato de coalhada coberta com açúcar cristal, íamos para a praia metidos em roupas de banho feitas de uma malha grossa, incômoda, que se enchia de areia no primeiro mergulho. Seguíamos por uma rua de areia que muito tempo depois vim a saber ser conhecida como rua do Lobisomem e ficávamos na água até no máximo nove horas da manhã, como a maioria dos banhistas. Depois dessa hora era difícil andar pelo areal fervente, pelo meio das pitangueiras esparramadas, cercadas de “picos”, que grudavam na roupa, e dos cordões subterrâneos da salsa da praia, com folhas finas e pontiagudas. Ainda não havia sandálias de borracha.

Ficaram só lembranças boas da Grussaí da infância, com suas espirradeiras, seus tipos populares, como a velhinha que morava num rancho de palha um pouco adiante, com suas noites enluaradas e manhãs muito claras. E espaço, muito espaço.

À noite pouco a fazer. Jogava-se trunfo e em algumas noites íamos ao víspora numa casa simples. Lembro-me que quando uma das jogadoras – acho que era a dona da casa – cantava as pedras que tirava do saco era um espetáculo. Poucos números eram cantados como simples números. Na maioria das vezes, ouvia-se “dois patinhos na lagoa (22), inquizilou perdeu (15), nas ventas (90), a idade de Cristo (33), quariquaquá (44), pingo no pé, nove é (9), dois machados num pau só (77)” e assim por diante.

Vou encerrar a crônica lembrando o som que se espalhava pelas noites grauçás em janeiro: a cantoria de reis. Um grupo de homens e mulheres, não muito jovens, com violão e pandeiro, saía cantando pela noite. Deitados nas caminhas, ouvíamos as vozes se aproximando até que, na porta da casa, cantavam em tom anasalado: “Senhora dona da casa/pela santa Aparecida/abri a vossa porta/que nós semo/ que nós semo conhecida.”

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