conto fonado

3 \03\UTC janeiro \03\UTC 2010 at 11:52 Deixe um comentário

Fala rápido que estou no trânsito. Sei. E daí? Cê tá brincando. Negativo. De jeito nenhum. Tô trabalhando, Clotilde, acabei de visitar um cliente e já tem gente me esperando no escritório. E depois, o irmão é seu, se vire. Não, não dá. É muito mais fácil pra você. É sim. Pede a seu chefinho, ora, ele não é tão bonzinho? Quando cê quer bater perna ele deixa, né? Não vou me meter nessa história do seu irmão. Por mim, eles podem se lascar, tô nem aí. Seu irmão é cafajeste de nascença e babaca por conveniência. E sua cunhada uma lesma. Quero distância. Não vou me meter em briga de marido e mulher, tô fora. Pra te sustentar eu presto, né? Ah, não enche, Clô. Não vou e acabou-se. Desliguei não, tô escutando. Só tô encostando o carro, porque quando você começa a falar, haja Deus. Tá bom, tá, fala logo, Clotilde. Tá gastando seu latim à toa, não vou. E daí, vai fazer o que? Ah, não enche. Vai você. Cê tá enganada, quem fez a besteira fui eu. Eu, o grande babaca. Comprei gato por lebre. Foi sim, eu que…, pô, Clotilde, quer deixar eu falar? Que coisa, parece uma máquina de costura. Só você é que fala, fala, fala, cala a boca, pelo amor de Deus! Vou desligar essa merda, hein? Tô sim, muito arrependido, se você quer mesmo saber. Porque você me enrolou, me seduziu…tadinho sim. Eu era um bobão. Não era por isso não. Mulher boa, minha filha, em qualquer esquina se acha. Aos montes e bem melhores do que você. Foi enganação sim, você sabia que o que eu mais queria na vida era ser pai, conversamos muito sobre isso, lembra? Você me prometeu que assim que terminasse a faculdade engravidaria. Cadê? Não vem com essa conversa não, que você só estudou pra não ficar em casa, ainda mais que tinha um bobo pra pagar as mensalidades. Com seu salário? Quá, quá, quá. Não seja mais idiota do que é, Clotilde. Vai você. E se seu salário melhorou depois agradeça a quem? Claro, se você seguisse a carreira, se atuasse como advogada…Mas não, preferiu ser assessora, secretária ou sei lá o que mais. Podia sim, tinha esse bobão aqui para bancar suas despesas, ora… mas pra encher os peitos de silicone cê teve, né? Pra mim? Ora, Clotilde, vai procurar sua turma. Foi tudo por vaidade. Que corretiva. E foi por isso que não quis ter filhos…vai cair meu peito, cê dizia, vou me encher de celulite…não teve filho, estragou nosso casamento e tá aí fazendo massagens coreanas e não sei mais o quê para se livrar das gordurinhas e com os peitos inchados de silicone. Bem feito. Vai você, já disse. Não fala de novo senão vai se arrepender. Muita vontade eu tenho. Tenho outra não. A experiência com você me jogou contra as mulheres. Cês só querem se aproveitar. É isso aí. Sua mãe é uma bruxa, uma despeitada, o que ela fala não se escreve. Vai procurar o ombro muxibento dela, vai. Vai? É mesmo? Faz então o seguinte: junta tudo o que é meu numa mala que vou mandar um mensageiro aí pegar. Isso mesmo, tô falando sério sim. Cansei, Clotilde, cheguei no meu limite. Não quero nem ver mais sua cara. Tá certo, pode mandar seu advogado, pois nem pra defender sua causa você presta, advogada de merda. Ah, meu Deus, quanto dinheiro jogado fora naquela faculdade!

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PARA REFLEXÃO I A COMPLEXA GÊNESE DE UM COMPLEXO

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