O PARAÍBA, NOVAMENTE

20 \20\UTC dezembro \20\UTC 2009 at 08:48 1 comentário

Do terraço de minha casa, a duas esquinas da beira rio, vejo que o Paraíba, após essas chuvosas semanas de fim de primavera e início de verão “tomou água”, como diz o povo ribeirinho. Pujante, exibe corrente volumosa, cobre as ilhas, nada que se compare aos tempos anteriores a tantas agressões sofridas, intervenções humanas desastradas.

Houve tempo em que o Paraíba do Sul era capaz de abrigar um porto flúvio-marítimo como o de São João da Barra, que recebia cerca de 75 navios por mês, responsável pelo escoamento da produção da região norte-fluminense e por onde entravam máquinas, implementos, pessoal e gêneros alimentícios. O desinteresse do governo federal pela navegação de cabotagem, a chegada da ferrovia, a politicagem e outros problemas acabaram com essa atividade que foi importante a ponto de promover a visita de um chefe de estado, o imperador Pedro II à cidade.

Assoreado, poluído, enfraquecido, o Paraíba é a sombra do que foi. A transposição de suas águas para mover as turbinas da hidrelétrica de Santa Cecília foi o começo de um longo e cruel processo de exploração. Graças a essa transposição, que jogou 160 m³ de sua água no rio Guandu, que deixou assim de ser um riacho e passou a rio e criou o maior delta fluvial do mundo, que vai de Gargaú a Sepetiba, onde deságua. Outros represamentos foram feitos para se criar novas hidrelétricas e apesar da represa de Itaocara ter sido abortada por pressão de sua população, a idéia não foi descartada.

O rio Paraíba e seus afluentes garantem o abastecimento de água a cerca de 14 milhões de habitantes de S. Paulo, Minas e Rio de Janeiro, e segundo a carta do Codivap – Comitê das Bacias hidrográficas do rio Paraíba do Sul, divulgada em 30 de novembro em São José dos Campos/SP, a demanda de São Paulo pela água do nosso rio para abastecimento doméstico, industrial e de irrigação é da ordem de 27 m³/s.Estudos são realizados pelo governo paulista, que considera a bacia como eventual doadora para abastecimento da sua macrometrópole, apesar da existência naquele estado de outras bacias potencialmente doadoras e com maior disponibilidade de água. Até parece que a água do nosso rio é inesgotável. Vê-se isso na atitude irresponsável de pessoas de nossa cidade, por exemplo, que lavam as calçadas com água do rio sem preocupação.

A diminuição da vazão do rio tem propiciado o aumento dos efeitos negativos do fenômeno da transgressão do mar em Atafona. Sabe-se que como o rio perdeu forças, o mar invade seu leito e a língua salina já chega a Barcelos, onde o pargo, peixe marinho tem sido pescado. Em Sepetiba, a cunha salina no Guandu/Paraíba também preocupa.

O Paraíba precisa de socorro urgente. É preciso botar paradeiro nas intervenções humanas em seu leito, no despejo de esgoto doméstico e industrial sem tratamento em suas águas, na retirada ilegal de areia e de água para irrigação de projetos agropecuários. Tudo tem um limite e o Paraíba parece ter atingido o seu.

No Brasil, quando não se quer resolver um problema cria-se uma comissão. Também aqui se criou a Comissão Especial para Câmara Técnica de Recursos Hídricos, nome pomposo, que será coordenada por André Pinto, cara sério, dinâmico, uma perspectiva de bom funcionamento. Vamos lhe dar um crédito de confiança.

O médio Paraíba tem recebido muita atenção graças à atuação vibrante e constante da deputada Inês Pandeló, que está conseguindo reflorestar suas margens, uma providência imprescindível para evitar o desbarrancamento e assoreamento do rio. O baixo Paraíba, que já teve uma outra comissão criada e afogada em suas águas, ainda não teve essa sorte. Vamos torcer para que André, imbuído de seus bons propósitos, consiga fazer alguma coisa por esse agonizante rio, embora eu ache que sem o decidido e competente apoio oficial pouco poderá ser feito.

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Entry filed under: Crônicas.

Poesia de Carlos Sá em jornal carioca ÁRVORES PARA A VIDA

1 Comentário Add your own

  • 1. luiz alberto  |  13 \13\UTC janeiro \13\UTC 2010 às 15:46

    excelente !!! são artigos como este que nos motivam a continuar a lutar pela defesa do meio ambiente.

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