AUTO DA FUNDAÇÃO DA MUI NOBRE E FESTEIRA CIDADE DE SÃO JOÃO DA BARRA

19 \19\UTC novembro \19\UTC 2009 at 18:34 4 comentários

Celebração histórica em cinco quadros entremeados por versos cantados por coro, que pode ou deve ser composto pelos próprios personagens do auto, para ser encenada em ruas, adros de igreja, praças, pátios de escola, porta de fábrica, onde der na telha do diretor. Música simples e alegre e fácil de ser memorizada a ser ainda composta.

Personagens – dois tropeiros, Lourenço do Espírito Santo e seus pescadores, são João Batista, o chefe goitacá, alguns índios, anhangá e o povo (coro). Quando o coro cantar, todos dançam. O figurino deve ser o mais colorido possível, com elementos comuns, material, se possível, reciclado. Lourenço e seus pescadores virão dentro de canoas presas por suspensórios, os índios trarão arcos e flechas e os tropeiros e outros elementos do povo vestirão mulinhas, também presas por suspensórios. São João, como sempre, vestido com pele de carneiro, segurando um cajado.

CORO:

Chegá cantano, pedino licencia pra presentá

esse alegre auto, que uma estora vai contá.

chegá dançano, dançá contano, pra todos presente

a estora da fundação de São João da Barra.

QUADRO I – OS TROPEIROS   (noite)

 

Tropeiro 1 – É essa, cumpadi, a tapera

                      adonde nóis vamo sabrigá sa noite?

Tropeiro 2 – Não tá veno, home, a lamparina

                     alumiano a escuridão? Entonces…

                     Apeie, sorta os animá, baixa os trem

                     e vamo aqui sa noite arranchá.

T 1 – Coisa mais mal ajambrada

         nem parede dereito tem, óia só,

         Tem certeza, cumpadi que é aqui,

         onde judas perdeu as butina?

T 2 – Então não hei de conhece,

          se pouso aqui todo santo mês,

         antes do rio travessá?

         E dispois sua casinha

         lá nas montanha mineira

         não é mais mió que a de cá.

T 1 – (mudando de assunto)

        O rio, isso mesmo, o rio.

         E adonde fica o tal rião?

T 2 – Bem aí na frente, paspalhão.

         Num tá ouvino esse maruio,

         esse chuá que não passa?

         Apois, é o rio aí passano.

         E quando faiz lua cheia

         é tão bunito de se oiá!

         Mas com essa lua nova

         é tamanha a escuridão

         que se não fosse a lamparina…

T1 – Esse baruio tão perto…

         Eu gosto, posso ir me banhá?

         Num minuto sorto as mulas

         e vô no rio arrefescá.

T2 – Vai, mas se o ururau comê mecê

        ou se o boitatá fô pro seu lado

        cum vontade de jantá

        num me venha arreclamá.

T1 – Cruz, credo! E eu quase merguio.

T2 – Merguiá nesse mundaréu dágua?

         E no escuro? Nem os índio faiz isso.

T1 – E temos índios por cá?

         Ai, meu santo, num to gostano

         nem um pouco dessa estora.

         Bem que eu tava prissintindo

         coração apertado desque que saímo de lá.

         E os cabelinho dos braço se arrepiano.

T2 – Índio inda deve de tê, mas os bravo,

       os tá de goitacá, os que comia gente,

       os branco mataro tudo,

       num sobrô um pra contá.

       Custô munto, é bem verdade,

       raça braba, forte, ardilosa,

      e de certeira pontaria.

       Mas no fim, só temo cá,

       uns caboquinho amansado,

       uns bedamerda, pinguço,

       que por um vintém o rio

       trevessa o povo nas canoa.

T1- E quem agarante isso,

        de num tê quem coma nóis?       

        Eu, hein, num tô gostano

        nadinha dessa conversa.

T2 – Agora chega de trelelê,

       tô com a barriga a roncá.

        Enquanto mecê sorta as mula

        vô acendê um foguinho

        praquela carninha assá.

T1- Isso tombém me assusta.

       Aquele boi que nóis carniô

       deve de tê dono, que a essa hora,

        atrás de nóis deve de está.

T2 – Aquilo tudo é gado de vento,

        tem uma chusma deles por cá,

        sem dono, sem compromisso,

        pra quarqué um apanhá.

        Fugiro dalgum currá

        ou são cria de boi fugido

        e véve assim, ao deus dará.

         Mecê não tenha cuidado

         já nos tempos do finado

         nóis dois pegava esse gado

         como quem caça apreá.

         Carninha boa, si siô, macia,

          sumarenta, dá sustança.

          cuma é sua primeira viage

          muito tem pra aprendê.

         Viu cumo sarguei as partes mió,

          as fresca pragora guardei

          e as pelancas pros cachorros dei?

          Apois aprende, cumpadi, aprende,

          Se nessa nossa lida andeja,

          mecê qué continuá.

          Pois que nem sempre se acha

          carne de boi pra comprá.

         Só de capivara, paca, tatu,

          Uns passarinho mofino,

          Difícer de se caçá.

          Tudo carne boa, mas a gente enjoa.

          Tá sentino esse cheirinho

          que só faiz a fome aumentá?

          Se avie, homi, vamo comê

          e drumi, que amanhã

          ainda temo munto a andá.

          E nosso patrão é exigente

          não podemo a entrega atrasá.

          Dançá cantano, cantá dançano

Coro  queste mundo é pequeno e a vida curtinha

          Cantá dançano, dançá cantano,

          pra esquecê a morte, criatura mesquinha.

QUADRO 2 – OS PESCADORES (Amanhecer)

T2 – Levanta, cumpadi, que o só

        já espia detrás do horizonte,

        e nóis temo pela frente

        rio, mata, brejo e monte.

T1 – Arre, drumi tão pouco

        que meus óio num qué se abri.

        Mais um pouquinho, cumpadi,

        deixeu ficá por aqui um tantinho…

T2 – Quá, o dia é munto curto

        pru que  nóis temo que andá

        levano essa tropa lerda.

        Anda, levanta, vem trabaiá.

T1 – Posso ao menos espreguiçá

        por um bom quarto de hora?

T2 – Se avexe, home tão novo,

        que preguiça faiz é mal.

        Levanta daí agora

        vem vê esse rio lindo

        que num drumiu um instante

        a noite inteira a passá

        carregano seus peixinho

        levano tudo pro mar.

        Até a nossa esperança

        de um dia mió chegá.

T1 – É esse o rio? Virge Santa!

        Pra mim mais parece o mar.

        Cumo nóis dois, mais as mula

        arriadas com os jacás

        havemo de trevessá?

T2 – As mula se vão no nado

         nadam mió que piraquê

         nóis muntemo nos cavalos

         que num tem medo cumocê.

T1 – E o que é aquilo que vem,

         lá longe, mode formiga de asa?

          Ai, ai, ai, meus gorgomio!

         Cobra grande será? Boitatá?

T2 – São canoa, num tá veno, medroso?

        Home mais assustadiço.

        Tá vindo gente, decerto pra cá,

        quem será a essa hora da matina?

T1 – E haverá perigo nisso?

        Tem assartante por cá

        Como ns estradas das mina,

         Por onde passemo já?

         Ai, meus prissintimento!

         Pode num sê gente boa…

         E cumo eles vem depressa

        mesmo contra a correnteza!

T2 –  É o nordeste, vento bão, 

        vento que venta prazê.

        São pra mais de dez canoa

        até aí sei conta. E munta gente

        amontada nelas, cumpadi,

         junto com as suas traias.

T1 – Boa vista tem mecê,

       Divurgo uns vurto deslizano

       Pelo rio, o sol custa a clareá.

        E continuo pensano…

        nos índio e nos assartante.

T2 – Já embicaro pra cá

        Aqui é porto de todos.

        Deve de sê pescadô vortano

        da lida no mar, só pode.

        Bandido não madrugueia.

T1 – Que Nosso Sinhô le ouça

        mas por via de minhas dúvida

        vô pegá a garrucha e deixá

        engatiada. Sei lá sesse cabrunco

        são mesmo gente do bem?

T2 – A canoa da frente embicou na areia.

        Deixa a arma pra lá, semo da paz.

        Não é bom os outro provocá

        com valentia exibida. Carma.

O pescador que vem na proa da canoa da frente baixa o remo e grita:

LES – Ô, de terra, viemo em paz,

           podemo desembarcá?

T2 – Vindo com Deus é benvindo,

         Pode na areia sartá.

LES – É tudo famia aqui, muié, criança,

           Cachorro, galinha e o mais da casa.

           Tem até papagaio e gato marisco.

T2 – Que mal lê pregunte, amigo, o que faiz

         tanta gente tão cedo a navegá?

         Tão fugido darguma coisa

         vão se esconder nargum lugá?

LES (se achegando, seguido dos outros)

        Tamo percurano terra pra mode morá

        Ouvimo dizê que aqui é bom lugá.

        Tamo vindo da barra do mar

         Tamo fugindo é da sorte má.

T1 – E me adescurpe tombém

        a curiosidade malsã,

        mas que má sorte é essa

        que fez mecê e o farrancho todo

        se decidi a mudá? Bicho brabo?

LES – Ah, meu sinhô, nem le conto,

        a disgraça não escoie a hora

        e nem a quem acertá. Perdi minha patroa

        afogada nesse mar, quando pescava de puçá.

        Pra mim o lugá ficô mardiçoado,

        e meu pessoá, que eu trusse pra cá,

        com medo do malfeito arrepeti,

        arresorveu me acompanhá.

        Tamo tudo aqui nessas canoa.

        Sou Lourenço do Esprito Santo,

        pescadô, na graça do bom Deus,

        somo gente dereita, deixe se apresentá.

        e vosmicês são tropero,

        que mal les pregunte?

T2 – Com a graça de Deus, sim sinhô.

        Vinhemo de longe, das Gerais,

         com a tropa, em direção da Bahia.

T1 – Pela primeira vez eu o cumpadi acompanho

        dispois quele perdeu o parceiro de sempre

        cunhado dele, morrido de nó nas tripa.

        Deus o tenha em bom lugá.

        E já tou meio que arrependido

        pelos susto que vimos passano.

        Tô quereno é vortá pra casa,

         num nasci pra aventureiro.

LES – Entonces, sinhô mais exprimentado,

           sabe me dizê se aqui o lugá é bom

           pra casinha a gente armá

           e vida nova começá?

T2 – Decerto que sim, tem sempre gente a passá.

        Vai sê bom pra troperage encontrá

         gente assim, de boa qualidade,

         prum dedo de prosa trocá, gole de pinga prová.

         Passa tombém os cometa, gente andarilha,

         de tudo vendeno um pouco, baratinho,

         faca, tesoura, enxada, anzol, renda, fazenda,

         fita e outras bobajada pras muié se enfeitá.

LES – Já me deixô preocupado, tropeiro,

          nesse fruaá de gente, no meio vem gente má

          pra buli com as muié, com os homis arengá.

          Daí pra morte é um passo.

T1 – Ah, nisso mecê tem munta razão,

         tem de tudo nesse mundo de Deus.

         Mas gente de boa formação, como vós,

         não dá trela a esse povo sem vergonha.

T2 – Inda mais que aqui é arto e fresco

         adonde o rio nunca vai chegá nas enchente.

T1 – Se assim diz meu cumpadi experiente.

        Seu povo fica protegido e pode comerciá

        os pescado com a tropeirage.

         Um bom dinheirinho há de dá.

LES (voltando-se para o pessoal que o acompanha)

         E ocês tudo, o que pensa?

         Se achá que aqui é bom,

         Nóis fica e arma o arraiá.

Todos assentem com a cabeça, sorrindo. Alguns erguem os braços.

           E já que o sol subiu no céu,

           Pro mode nos esquentá,

           Vamo pegá das ferramenta

           Cortá mourão para armá

            Os esteios das casinha,

            pro barro, que aqui tem munto,

            nas paredes socá.

            Trabaiano e cantano nóis vamo criá

Coro – Um arruado de casa para nóis morá.

            Trabaiano e dançano vamo festejá

            A felicidade de nova terra encontrá.

 

(Todos começam a se movimentar, quando de algumas touceiras de mato próximas (touceiras pintadas em papelão grosso) se levantam alguns índios empenachados, de aparência feroz, as caras pintadas.)

QUADRO 3 – OS GOITACÁS

(Dia claro daqui por diante)

Cacique – (se adiantando, arco e flecha na mão) –

                Alto lá, que isso aqui tem dono!

                 Pra passar uma noite inda vá,

                 mas para plantar malocas

                 a minha terra cavar

                 derrubar s minhas árvores,

                  matar meus bichos

                 emporcalhar a água e o chão

                 é preciso que eu permita

                 e eu não quero chatos por cá.

T2 (persignando-se várias vezes)

       Cruz credo, valha-me Deus,

        são as arma dos goitacá!

       Óia a cara branca deles

        de arma penada a vagá!

CG – É verdade, estamos mortos,

          depois de muito lutar

           contra os brancos traiçoeiros

           armados de paus de fogo

           e com doenças malditas

           pra minha raça acabar.

          Mas não morremos de todo

          ficamos muitos por cá

          pra nos vingar dos maus tratos,

          do roubo da nossa terra,

          de nossa caça, nosso peixe, nosso lar.

LES – Vade retro, arma penada,

           o seu tempo já passô,

           o novo mundo é dos branco

           que essa terra conquistô.

            Mecês são tudo atrasado,

            nóis vamo civilizá ses mato,

            ará sa terra, produzi farinha,

            criá gado e sargá peixe,

             pro povo todo alimentá.

             Nóis vamo grobalizá

             sas terra de ninguém.

             E é bom fica sabeno

              que com branco num se brinca

              na hora de guerreá.

             Queremos sarvá vossas arma

              pra Jesus, nosso Sinhô,

              e o céu cês podê alcançá,

              nem que precise les matá

              pra mais depressa chega lá.

              Sinão vai tudo pro inferno

               ardê nas fornaia do demo.

T! – No inferno nóis véve faiz tempo,

        isso aqui é um horrô de bicho enjoado

        muriçoca, percevejo, cobra, gato brabo,

        e índio besta, que num sabe seu lugá.

CG – O inferno vocês trouxeram

          quando vieram pra cá

          enrolados em tanta roupa

          catingando que nem gambá.

          A gente vivia em paz

          só brigava com os vizinhos

          uns cabras broncos, com topete,

          pra enfrentar os goitacás.

          Comemos todos.

          (cospe pro lado, com nojo)

         Carne dura, ruim demais.

          Mas não comemos tudo duma vez

          senão perdia a graça, não ia ter mais

          com quem brigar e gostamos de briga.

          Também era assim com os bichos, a gente

           pegava os veados campeiro na carreira

           e os derrubava no chão.

           O tubarão a gente buscava no mar,

           só com um batoque, no meio das ondas altas,

           só pegava pra comer e fazer ponta de flecha.

           Não matava por matar, como os brancos.

T1 – Esse cabrunco té que fala bonito

        mas a nóis num vai enganá.

        Catingoso é ocê, índio fedido,

         que é o dono daqui pode prová?

LES – Nóis tombém queremo paz

           e um lugá para vivê com as famia,

           mas se for perciso nóis briga

           corage num há de fartá.

 T2 – Brigá com alucinação, tome tento,

          pescadô, esses índio num exeste,

          tudo ilusão, visage, pro mode assombrá,

          fruto da nossa má consciência,

CG – Seja o que for, não vamos permitir

          que nesta terra armem um arraial

          que com tempo vai virar vila, cidade,

           muita gente, barulho, violência.

É melhor procurar outro pouso

            lá na terra de vosmecês.

T1 – (apontando uma garrucha pro chefe goitacá):

         Vô dá um tiro nesse demônio.

         Tenho boa pontaria e duma vez

          devorvo ele pru inferno

          pra nunca mais purrinhá.

T2 – (contendo o companheiro):

         Deixa e sê burro, cumpadi,

         qué matá quem já morreu?

          Diga lá, seu goitacá,

          o que qué pra ir embora

          e nunca mais cá vortá?

          Vela, reza, um dinheirinho,

          diz, que nós num regateia.

CG – Tá vendo? Começou a corrupção

          que vai grassar nesse país mal criado.

           Não tem nada de deixar nosso lar

           em mãos e mentes tão sujas.

           Pode ser boa uma gente

           quem toma à força o que é alheio

           e aí se instala, como se dona fosse?

            Uma gente gananciosa, que sabe só destruir.

            Pensa que guerreamos à toa contra mecês?

            De olho na invasão, o povo da mata não dorme.

            Vocês só pensam em dinheiro.

            Os pajés nos avisaram das maldades

            e malfeitos que vocês vêm praticando

            contra nosso povo dês que desembarcaram.

            Por isso oferecemos resistência

            e não queremos amizade com mecês

            pois os bobos que quiseram, mecês

            maltrataram, escravizaram, roubaram

           terras, mulheres e filhos. E animais.

           Mecês num prestam. O que é um homem

           sem sua família, sem sua liberdade?

           Mecês devem morrer.

LES – Foram homens brutos, desalmados, doutro tempo

            tão todos mortos. Semo diferentes, da paz.

CG – E dá pra acreditar? Àrvore ruim não dá bom fruto.

          Homem bem intencionado não chega armado.

          Aqui cês não vão ficar, do outro mundo

           nós vamos combater mecês. Um vento forte

           vai soprar de repente e derrubar suas casas.

           O fogo vai surgir do mato, à toa, à toa,

           e vai consumir tudo que lhes pertencer,

           casa, rede, gado, cerca, o que mais tiver.

           Será sofrimento sobre sofrimento

           até que desistam, arrumem seus trecos

           e voltem correndo pra donde vieram.

Ergue o braço e grita: Juro por Tupã!

T1 – E agora, pescadô, cumo nóis faiz?

         Nóis num veio pra ficá, mas mecês…

         Se bala num mata e gorumgumba num espanta

        como haverão de fazê pra se livrá dos estrupício?

LES – Fui sempre home religioso, pago promessa,

           rezo ladainha, sigo procissão com vela na mão,

           e tenho por padrinho de batismo São João.

          (Grita para o alto)

           Valei-me, meu são João, com seu cajado

           e seu carneirinho encantado!

         Rezano e cantano saudemo s. João

Coro que desceu do céu só pra nos ajudá

          cantano e rezano saudemos S. João

          que os grande dessa terra qué nos explorá.

Ouve-se uma explosão e são João aparece, vestido como a  imagem do batistério da igreja matriz. No cajado estão penduradas fitas de cores variadas, presas pela sua mão durante o desenrolar da estória e que no final serão tomadas pelos participantes do auto para formar uma sombrinha que cobrirá o santo. No braço o personagem pode trazer um cordeiro deitado, pintado em papelão.

QUADRO 4 – SÃO JOÃO

LES (braços abertos, se ajoelhando, contrito)

         Sarve, sarve, meu padrinho,

         que não num me havera de fartá

         em tão melindrosa hora.

         A sua bença, meu padrinho!

S.JOÃO – (erguendo o braço para abençoar)

                  Que Deus abençoe a todos,

                   os de carne e os desencarnados.

                    Tenham Deus no coração!

T1 – (amuado) – Assim num é mais possíve.

O que farta acontecê?

Bem queu tava prissintindo,

índio morto, santo, ai meu Deus,

o que que mais tá pra vir?

Tô me breando todo de medo.

Pió de tudo é que a Maricota

nem vai acreditá, quando le contá!

CG – Como sempre, os brancos fazem trapaça.

           Não lutam de igual pra igual.

           antes foi o pau de fogo, doenças,

           agora um santo, assim num dá.

           Ô gente trambiqueira!

T1 – De iguá pra iguá? num seja besta, caboco.

        Nóis semo de carne e osso. Mecê é espritual.

SJ – Vamos resolver a pendenga,

       Não tenho tempo a perder

       tem gente assim me pedindo

       pra nos seus casos interceder.

LES – pois bem, meu santo padrinho,

           sou Lourenço, pescadô, na graça de Deus,

           que sofri uma grande perda.

          Minha mulher foi pro céu

          boiando nas águas do mar.

           Munto triste, desanimado,

          arresorvi me mudá,

          e meu povo, atrás de mim embarcô.

          Achemo essa terra boa

          pro nosso arraiá levantá

          e aí vem o tá de cacique

          pra gente desautorizá.

          São João, ajuda a agente,

          que eu prometo, se ajudá,

           a parte mais arta do arraiá

           uma linda capelinha alevantá

           pro santo padrinho louvá

           todo santo dia. Prometo!

SJ – Eu entendo o desespero

       do nobre chefe goitacá.

       Não era da vontade de Deus

      que os brancos viessem pra cá.

       Deviam ficar em suas terras,

       já que ele os colocou lá,

       mas os brancos, audaciosos,

       adentraram pelo mar.

       No futuro, até no espaço

       não celeste vão querer navegar.

       Eta, que esse povo branquelo

       não tem medida nem respeito.

T1 – Me adiscurpe, sinhô santo,

        o meu modo besta de falá

         mas num dá pra creditá

         nenhum de nóis aqui tem asa

         e nunca asa há de criá.

        Cuma nóis pode ir pro céu

        Bateno asa para avoá?

SJ – Quem viver, verá.

         Agora me deixe continuar:

          a tristeza de Deus não tem tamanho

          com as coisas que o branco fez e ainda fará.

          Seu representante na terá vai ter de se desculpar

           uma, duas, tantas vezes, que vai até se cansar.

          O que Ele pode fazer foi levar os índios mortos

          pro paraíso. Estão lá e não param de chegar.

          Por isso, o senhor cacique vai comigo voltar.

          Quanto a vosmicês, tropeiros, terminarão a viagem

          sem mais sustos nem perigos e vão se esquecer

          de tudo que por aqui sucedeu.

T1 – Uai! E que graça vai tê isso?

         Gosto munto de contá

          os havido e os inventado

           mode o povinho assombrá.

SJ – Como fala esse capiau! Seguindo:

        quanto aos pescadores, seu arraial vão ter.

         Erguerão casas e por enquanto viverão do peixe,

         do caranguejo e da carne de gado de vento

         que secarão pra atender aos tropeiros.

         Aos poucos isso aqui vai crescer e porto será,

         um porto movimentado, com barcos de todo o tipo

         a remo, a vela e a tudo mais que o branco inventar

          para andar mais depressa. O homem não tem jeito.

T1 (amuado) – Mais essa. Além de avoá,

      o home vai viajá com  vela acesa.

T2 – É vela de pano, sua besta, cala sua boca,

        deixa o santo terminá de contá o vem por aí.

SJ – O arraial vai crescer, bela vila virar,

        que o rei virá visitar um dia, e palmeiras

         serão plantadas para a visita comemorar.

         E todos viverão felizes, sempre a me festejar

         com muito foguete.

         Cantano e voano vamo nos alegrá

Coro O futuro da vila pra nóis bom será

          Orano e navegano vamo festejá

          o bom São João, que vai nos ajudá!

Ouve-se outro estouro e surge uma figura estranha, toda coberta de penas, galhos e folhas de árvore. É o Anhangá, o espírito da floresta que protege índios e animais selvagens. Está muito zangado. Se possível usar um ator baixo, magro e moreno.

QUADRO 5 – O ANHANGÁ

Anhangá – Essa não, assim já é demais.

                   Esses brancos roubam, matam,

                   derrubam florestas, poluem rios,

                   e ainda querem ser felizes

                   como nos bobos contos de fada?

                   Só porque o santo á branco que nem eles.

                    Protesto, com isso não vou concordar.

T1 (ameaçador) – E quem é ocê, seu gaiudo,

                          pro santinho contrariá?

                          Ninguém lê chamô pra conversa…

                          Vorta pra de donde saiu!

CG – Ele é o espírito das matas, das águas,

         que a seus moradores sempre protege.

          É Anhangá poderoso

          e veio porque eu chamei.

          Está havendo por aqui

           injustiça muito grande:

           os maus recompensados

           e os bons punidos sem dó.

           E isso não pode ser,

           embora isso seja comum

           nesse insensível mundo.

T2 – Que esse é um país injusto,

         sempre foi e sempre será,

         tamo farto de sabê

         e nada se faiz pra mudá,

         a gente sempre escóie

         os mais pió pra governá.

T1 – Num mete pulitica nisso, cumpadi,

         pelo amô de Deus! Pode dá azá!

A – Já deu. É com a politicagem,

       que é a política dos safados,

        que essa história vou melar.

        Não posso ir contra o santo

         não tenho tanto poder

        Mas posso usar os brancos

         para a si mesmo enrolar.

         Vai haver aqui cidade sim

         toda cheia de palmeiras

         que dirão imperiais, como

         se houvesse hierarquia na flora.

        Um porto movimentado

         muito dinheiro a rolar na poeira,

         mulheres, jogo, bebidas, carnaval

         e marimbondos e jacarés.

        E todos serão felizes

        como o santo disse.

        E aqui meto a politicagem roceira,

         mesquinha, daninha, feroz,

         pra brincadeira estragar.

         Como o povo é muito bobo,

        sempre se deixa enganar

        e só pensa em festejar,

        os manda-chuvas desse tempo,

        gananciosos, egoístas, ladrões,

        vão começar a brigar

        pra se manter no poder

        e vão do povo e do porto esquecer.

       A politicagem será furiosa

       e a roubalheira também.

       Amigos se voltarão contra amigos,

        irmãos brigarão com irmãos.

       O estrago será tão grande

       que o rio vai assorear

       espantando peixes e passarinhos

       lontras e ururaus.

       Os barcos?  Babau pra eles.

        Dinheiro não mais haverá.

        Mulheres fáceis, jogadores,

       doutores e comerciantes

       pra outras terras vão se mudar.

        E o povo, alheio a tudo, sempre a festejar.

    (Foguetes devem ser lançados nessa hora)

LES (para S. João) que coisa triste, meu santo,

        E o pobre povo, como viverá?

T! – E esse diabo enfoiado

        Pode essa praga rogá?

SJ – No mundo há o bem e o mal

        Um não existe sem o outro.

        O justo Deus quis assim,

        para o homem saber que é livre

        para escolher seu caminho na vida

        por sua própria vontade

       e não botar a culpa nos outros,

        especialmente Nele, como sempre faz.

A – E depois, muxuango bobo,

       a politicagem é do homem, não de Deus,

       é o jeito do homem explorar seu semelhante

        desde que foi expulso do paraíso..

       Em tempos antigos, no velho mundo,

      essa tal política foi tão braba

      que destruiu países, arrasou cidades,

      e os pobres desvalidos, pra sobreviver,

      se arriscaram por terra e mar

      em buscar de outros lugares.

     O homem é pior inimigo do homem.

      E pra que não digam que sou ruim,

     que pareço diabo com chifre e rabo

     que os bons cristãos inventaram

      para subjugar os pobres pelo terror,

      não vou radicalizar. Farei concessões.

     Essa cidade não vai morrer de todo

     quando o porto acabar, vai viver da bebida.

     Com a água desse rio, hoje limpo

     e uma misturada química, bem forte,

     vão fazer a beberagem que a cidade

     vai sustentar. Estão satisfeitos?

T1 – Eta, bicho tinhoso, encrenqueiro.

         Ah, se eu pudesse, com essas mãos

         pocava essa cara verde e desfoiava ele.

LES – (de mãos postas) – Meu santo padrinho,

           peço proteção mais uma vez e me escute.

           De que vale criá uma bela cidade

           que vai vivê de embebedá o povo?

            Vai sê assim, té o fim dos tempo?

SJ – (interferindo, de cenho franzido)

       Não, isso eu posso garantir.

       A salvação virá do mesmo mar

       que trouxe vosmecês pra cá

       prum novo mundo fundar.

        Com a graça do bom Deus

       do mar sairá um tipo de azeite

       como óleo de baleia para alumiar

       e fará o mundo andar mais depressa

       como ele tanto quer e deseja

        mesmo que seja para a destruição final.

        Mas isso já não é mais comigo

        é com Deus, nosso Senhor, misericordioso.

 

Todos os personagens vão se alegram e se aproximam de são João, que fecha os olhos por uns momentos e estende as mãos pedindo silêncio. Ao reabrir os olhos, diz:

        Seus pedidos foram atendidos,

         Lourenço do Espírito Santo, pescador,

         pela graça do bom Deus! Depois

        de um tempo de penitência, a cidade

         vai se salvar com outro porto.

         Agora é por mãos à obra

         e o seu povo a trabalhar.

         E só depois festejar, ouviu bem?

         que essa gente é festeira

         só quer saber de foguete, animação,

         cantoria, Banda de música, folguedos,

         de trabalho não gosta não.

 (mais foguetes no ar) Juízo, minha gente!

TODOS – E assim termina esta história galhofa

                 com a licença do nosso santo João, onde se conta

                 de forma um tanto inventada e gaiata

                 como a mui bela e festeira cidade

                 de São João da Barra foi fundada.

                         Deus seja louvado!

Na dança final, todos os personagens formam uma roda com São João no meio. Cada um personagem pega a ponta de uma fita colorida presa no cajado dele e dança à sua volta. Foguetes no ar.

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Precisa-se de um super-heroi OPINIÃO EM TÓPICOS

4 Comentários Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  21 \21\UTC novembro \21\UTC 2009 às 07:31

    Carlos, esta história, contada deste jeito tão criativo, tem que virar uma peça teatral urgente! Cara, que criatividade! Que visão realista desse mundo sanjoanense que tanto conhecemos! Só você mesmo para trazer à tona, satiricamente, tão grandioso auto! Preciso divulgar este auto urgentemente em meu (nosso) blog! Parabéns mais uma vez! É o tipo de auto que tinha que ser tomabado como patrimônio imaterial da cidade! Imagine um auto desse sendo encenado em frente à Casa da Câmara e Cadeia, com holofotes, cenários , etc…

    Vamos divulgar!
    Abraços
    Andre Pinto

    Responder
    • 2. carlosaadesa  |  23 \23\UTC novembro \23\UTC 2009 às 09:31

      André,mais uma vez obrigado pelo estímulo.Agora, uma coisa: vc me escreveu que viria à CCZ no sábado, mas se esqueceu de dizer o dia.Abs, carlos SáEm 21/11/2009 08:31, comment-reply@wordpress.com < comment-reply@wordpress.com > escreveu:

      Responder
  • 3. Tania N. de Aquino Santos  |  7 \07\UTC dezembro \07\UTC 2009 às 13:24

    Carlos, que bom encontrar o seu blog. E ainda mais ler algo que me deixou com vontade de não estar já no final do ano letivo, pois o auto da fundação de SJB me fez ficar com vontade de levá-lo para a escola imediatamente, mostrar para os alunos o que um dos grandes escritores da nossa terra fez e fazer um projeto pedagogico a partir dele. Para que isso aconteça no próximo ano, de antemão, peço permissão ao seu criador.
    Aguardo ansiosa por sua resposta.
    Parabéns pela brilhante ideia! Como sanjoanense bairrista agradeço pela homenagem prestada a nossa SJB.

    Responder
    • 4. carlosaadesa  |  7 \07\UTC dezembro \07\UTC 2009 às 15:23

      oi, Tania, boa tardeenfim uma boa notícia nesses tempos sombrios, sua leitura do meu Auto. Obrigado pelo comentário e fico muito orgulhoso de ter conseguido impressionar uma pessoa como vc.Toda a permissão é sua, obrigado.Nos próximos dias vou postar – ou melhor, o Caio está fazendo isso pra mim – meu trabalho intitulado “Aspectos Culturais Sanjaonenses”, que dividi em várias partes: história, economia, características locais, vultos importantes nas artes, política etc…Isso para facilitar as pesquisas dos estudantes que sempre procuram a Casa de Cultura. Ah, quando tiver tempo e disposição, dê uma olhada no romance Naufragantes, também publicado no blog. É o último da trilogia sobre São João da Barra:Lourenço das Velhas (5º  distrito), Porto da Fortuna (período do auge das atividades do porto) e Naufragantes, que se passa no segundo semestre de 1943,época da decadência. Depois me diga o que achou. A trilogia está sendo objeto de uma monografia de alunas do curso acho que de letras, do professor Joel Ferreira Mello, na Fafic, em Campos.Mais uma vez obrigado,Carlos Sá Em 07/12/2009 15:29, comment-reply@wordpress.com < comment-reply@wordpress.com > escreveu:

      Responder

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