ALÔ, BEBEL? – USOS E ABUSOS DO CELULAR

19 \19\UTC outubro \19\UTC 2009 at 10:31 1 comentário

Alô, Bebel? é o bordão que marca a entrada em cena da personagem da nova rica que, deslumbrada, liga pelo celular para a amiga Bebel, contando excitada o que está vendo de extraordinário nas festas e locais onde chega, no programa humorístico das noites de sábado na TV Globo

      Esse mau hábito exposto na tela da televisão, fica ridículo, mas divertido. Inoportuno, por exemplo, é quando se está numa viagem intermunicipal como São João da Barra/Rio, que dura em média absurdas seis horas, e mal o ônibus entra na estrada e começa-se a ouvir as estranhas campainhas de celular – e a criatividade nesse aspecto é imbatível, ouve-se hinos, músicas chatas, roncos de motor envenenado e até coaxar de sapos. E aí começa a tortura: benhê, tô saindo daqui agora, devo chegar a tal hora. Cê me espera? Ou então: mô, tamos passando por Itaboraí, me espera no mesmo lugar, tá? Tudo isso em tom alto.

     Uns passageiros, geralmente vestidos como executivos, que mal a viagem começa disparam telefonemas dando ordens, marcando reuniões, fazendo cobranças e dando esporros, falando mal de colegas, como se estivessem em seu escritório. Há dias ouvi esse comentário de um outro passageiro: “Que babaca esse cara, se fosse o executivo que quer parecer, estaria telefonando de um carro do ano, com motorista particular.”

     Pior são as senhoras faladeiras que comentam de tudo com amigas, da coisa mais banal à mais escandalosa. Como a que dizia a uma amiga: “Já disse que só vou na sua casa quando seu marido está viajando. Não tolero que ele fique passando a mão na minha bunda quando você se distrai. E o pior é isso, você não acredita!” E todos em volta ficam sabendo do calhorda que é o marido da amiga.

    Tem as que gerenciam a casa pelo celular, seja no ônibus, no trabalho, ou andando pelos corredores do shopping, carregadas de bolsas de grife, mandando a empregada – real ou fictícia – fazer certas tarefas ou brigando com os filhos, ou ajudando-os nas trabalhos escolares de casa. Outras mandam e desmandam nos maridos, reclamam, cobram, choramingam, um horror.

     O telefone celular foi uma das melhores invenções dos nossos tempos. Facilitou a vida, agilizou comunicações, melhorou o desempenho de profissionais e empresas, um avanço e tanto. Quem, como eu, conheceu as ligações telefônicas no século passado lembra-se da dificuldade que era conseguir falar com alguém em outra cidade. As ligações locais eram ruins, levava-se um bom tempo para conseguir uma linha, mas as interurbanas eram terríveis. Em São João da Barra, por exemplo, havia três ou quatro linhas particulares, que interferiam na ligação quando alguém precisava falar do posto telefônico para o Rio ou outras cidades. Ah, sim, porque as ligações eram feitas no posto e eram afetadas pelas ligações pedidas pelos postos de Atafona e Grussaí. “Sai da linha, Atafona, gritava a telefonista, estou falando com o Rio!”

     Receber ligações interurbanas era outro sufoco. Quem ligava tinha de autorizar o chamada de um mensageiro para chamar o interessado em casa ou combinar antecipadamente que ele esperasse sentado bonitinho na sala do posto em determinada hora até que a ligação fosse completada.

    O telefone mudou isso tudo, virou o mundo das comunicações de cabeça para baixo. Hoje qualquer um anda com seu celularzinho bem visível, liga de qualquer lugar, e principalmente quando quer impressionar. Como a Bebel.

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Entry filed under: Crônicas.

MEUS POEMAS PREFERIDOS III O que é bom dura pouco.

1 Comentário Add your own

  • 1. Gaby  |  27 \27\UTC setembro \27\UTC 2011 às 20:34

    sou d+

    Responder

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