MEUS POEMAS PREFERIDOS III

16 \16\UTC outubro \16\UTC 2009 at 11:13 Deixe um comentário

Os poemas a seguir são do livro “Duas lendas sanjoanenses, poemas novos e antigos”, editado pela Cultura Goitacá em 2007. Alguns desses poemas foram publicados pela Revista da Academia Campista de Letras, em 2005/2007.

POEMANGUE PROSAICO

 

Insuficientes são as palavras para tecer loas de amor

e encantamento ao manguezal do delta do Paraíba do Sul.

Como encontrar palavras capazes de transmitir a emoção

do navegar neste mundo verde, aconchegante,

pontilhado de pios, sibilos, ruflar de asas, silvos, coaxares,

choca de ondas carinhando o solo musgoso do manguezal?

Como descrever os prateados saltos dos paratis – lâminas vivas –

que não aceitam os limites impostos pela superfície?

E como falar do mergulho certeiro dos pássaros e da rosácea

em que a tarrafa rendada se transmuda no seu salto mortal?

 

O mangue é um ser vivo, belo, sensual, selvagem,

com curvas e arestas, praias e abismos. Prazer.

Olhares dissimulados pela vegetação luxuriante.

Puãs que agarram, pernas velozes, dentes afiados,

asas cortantes, bicos e bocas vorazes. Sobrevivência.

Lutas, sussurros amorosos, botes mortíferos, abraços.

 

O vôo da garça traça branco risco nas águas turvas do rio ancestral

que abraça o mangue, amante cioso de suas belezas e podridões.

Cardumes de tainhas, robalos, traíras, outros peixes e seres aquáticos

borbulham em torno do manguezal, guardiães de tanta beleza e solidão.

Espera-marés, guaiamuns, uçás, fascinantes e estranhos seres,

vigiam o emaranhado de lianas, raízes, parasitas, na ansiosa espera

da visão da moça bonita que se casou com o lodo.

 

O rio-estrada que leva as canoas ao mar

para buscar o sol em sua hora crepuscular

demora-se um instante na contemplação

de sua catedral silenciosa e verde.

Cansado, o sol boceja ouro e carmim

e num feérico despedir-se da tarde

recolhe-se às sombras do manguezal.

Nas noites de estrelas muitas e lua una, o silencio recrudesce

nos pios, estalos, arfares, gemidos, assobios, chuás e gritos.

Mesmo cansado o rio não se nega a transportar estrelas,

miríades de luzes, pó de brilho esfregado nas águas turvas

trazendo alucinações, lembranças, visões oníricas.

 

De algum ponto na história planiciária

um fidalgo português suando em veludos se surpreende

vendo a flecha goitacá cortar as plúmbeas águas

e fisgar o surubim que poluição enxotou do rio.

Das águas mornas surge a morena iara erguendo macios braços

para que bolas de fogo por entre eles passem velozes

para seu paralelo e inalcançável mundo.

 

Amanhece e envolto em bruma o rio custa a despertar.

Ressona. Em vão pássaros se esgoelam, canoeiros madrugadores

cortam as águas, sapos mergulham de susto e lépidos caranguejos

correm para fora de suas tocas na andada amorosa.

O rio dorme enquanto o amor brota da lama.

O rio dorme, tem tempo certo para acordar.

 

As múltiplas flores, das amarelas dos silvestres algodoeiros,

às vaginas azuis, bocas de leão e de lobo,

belas e perdidas no capim orvalhado

atiram as pétalas vencidas em seu leito.

O rio dorme e não se importa com os arranjos florais,

com o desparrame de formas e cores,

com os cachos de frutos, os abacaxis selvagens,

nem com os animais que emergem dos pastos,

das locas, das tocas, do lodo borbulhante,

dos galhos pútridos caídos nos igarapés,

para saudar a manhã.

Pelo emaranhado de cipós sobem cobras

em busca de ninhos, esgueirando-se astutas,

silenciosas, fugindo do olhar feroz

do gavião pousado nas grimpas.

 

A neblina dissipa-se vagarosa

e um mundo quase irreal,

explosão de cores e dores, sons e sonhos,

delineia-se no manguezal silente,

palpitante da vida que nasce da morte

e da morte que nutre novas vidas,

tudo envolto no silêncio verde

em permanente bulício de pios, silvos,

coaxares, gritos, estalos

e mistério.

Vida. SJB,31/08/05

POEMA NOSTÁLGICO

Não dá pra ver

talvez dê pra sentir

a areia do tempo sendo pisada

por pés descalços e felizes,

apesar dos bichos-de-pé, das pernas finas,

emperebadas, e dos joelhos ralados

de jogar bolas de gude

e dedos rachados de segurar

a fieira do pião e linhas de pipa.

Não dá pra ver

mas deve dar para ouvir

os arrastados passos dos operários

indo ou voltando dos estaleiros.

Uns cantam, outros assoviam,

contam piadas, mexem com os companheiros,

que o dia é longo e trabalhoso.

Não dá pra ver

todavia se pode sentir

os olhares curiosos e ardentes

por trás das janelas de treliças

das mouras fogosas e dissimuladas

que piscam para os cavaleiros

fingindo que admiram seus cavalos

e olham com ardume e despeito

as moças que passam de olhos baixos

fingindo recato nos sorrisos dúbios

e os homens gulosos e atrevidos

com seus olhares e assobios.

Não dá pra ver

quem sabe dê pra perceber

um marulho mais forte, um choca,

o baque surdo do navio batendo no cais

o ranger mais firme das cordas tensas

que seguram as grandes pranchas.

Ou o saltitar das embarcações menores.

Não dá pra ver

é possível se notar

um brilho rápido nas águas barrentas

quando paratis e piabas

saltam prateadas em busca de insetos,

ou o rabear de um robalo ficudo

aceso atrás da fêmea ovada.

Não dá pra ver

por certo dá pra pressentir

um ligeiro deslocamento do ar

quando a garça paira na altura,

o socó assustado levanta vôo

e os negros miuás formam o círculo

fatal com o cardume escolhido para o almoço.

Não dá pra ver

muito menos para rememorar,

porque tudo ficou no passado

soterrado pelas areias trazidas pelo nordeste

e pela nossa memória perdida no bulício

da vida que passa. (20/09/05)

 

 

 

DESALENTADA ODE EÓLICA

 

Vento. Sul, nordeste, sudoeste. Vento/vida.

Vento. Ventania. O vento a gemer, a zunir,

a cochichar, a contar estórias, a lembrar, reviver.

O vento da memória perpassa nossas vidas.

Vento que faz chorar. Vento que faz sonhar.

 

Por esta imensa planície o vento zumbe,

afaga, angustia, alegra, entristece,

destrói, reconstrói. Vida vendaval.

Dunas e homens são trazidos pelo vento.

Dunas e homens são levados pelo vento.

Vento muda paisagem e história.

Vento faz marolas no rio e na vida.

Vento acaricia as telhas, lambe as paredes.

Vento derruba árvores, assusta, intimida.

Vento contraditório, vento humano demais.

Vento levanta a poeira das antigas ruas

aperta sem dó o coração das gentes,

balança suave o cocar das palmeiras

e sussurra as velhas histórias da cidade.

Paixões e ódios soterrados pela memória,

amores perdidos, aventuras nas noites,

morte e vida ressuscitadas, recriadas.

 

Pássaros assustados e surpresos buscam

beirais coloniais de solares abandonados,

da casa de vereanças que se desfaz em pó,

do solar do coronel da navegação prestes a ruir.

Pombos buscam refúgio no antigo e vistoso solar

erguido pela arrogância do sonho

de um porto fluvial que naufragou pela ganância

e insensatez dos homens. O vento ignora o poder.

 

O vento zune e as andorinhas lutam com as lufadas,

piam, chilreiam,guincham, reclamam, resistem,

mas são empurradas pelo vento implacável.

Como os operários do porto, os comerciantes

que empurrou para outras paragens e não trouxe de volta.

onde viveram mal e morreram chorando

as saudades que o vento da desgraça semeou

em suas almas doridas e vazias. Vento cruel.

 

A história não perdoa os derrotados,

não grava suas desditas e vitórias pessoais,

desconhece méritos e culpas. Não perdoa, esquece.

Traz a areia que os sepulta no esquecimento.

Vento piedoso. Sonhos mortos fedem e perturbam.

 

Vento que irrita os olhos e provoca o choro.

Quem chora pelos goitacás extintos,

que muito lutaram por sua terra invadida,

pelos portugueses, trazidos pelo vento

e que aqui ficaram afogados para sempre

no verde mar tinto de sangue dos canaviais?

Quem chora pelos negros arrancados de suas aldeias

e trazidos em tumbeiros de onde o vento levava

pro mar o mau cheiro do terror e da desesperança.

Lançados no oceano, largados pelos caminhos,

triturados pelas moendas de engenhos e engenhocas,

espancados e possuídos e hoje discriminados.

O vento impiedoso da ganância, do desejo de poder,

do sonho de enriquecer. Sonhos de posse nunca fizeram bem

nem a quem os detém. Vento derruba sonhos.

 

Quem chora os pescadores de Cabo Frio

que o vento trouxe em frágeis embarcações,

que acreditaram no sonho de Lourenço

de encontrar o mais piscoso mar,

redes repletas a afastar a fome.

O vento empurrou-os rio adentro

e o restinho de esperança, de fé em são João,

criou o povoado, a vila, a cidade,

criou a ilusão de um futuro que o mesmo vento

ajudou a soterrar sob camadas de areia grossa.

 

Quem chora os Sete Capitães, cansados de guerra,

falidos, sofridos, feridos, e o seu sonho

de recuperar poder e fausto perdidos

ao colocar espada e escravos a serviço del Rey?

Pela costa da capitania semearam currais de gado

até à foz do rio Iguaçu. Embalados pelo vento

e pela esperança de verem boiadas a se multiplicar

para encher suas burras. Vento enganador.

As crias que trariam a redenção financeira

fugiram pros matos, viraram gado de vento,

gozaram da liberdade que o vento dá e pouco dura.

Mãos gulosas as levaram e volta aos currais,

quase nunca os de sua origem.

Gado filho do vento e da liberdade da planície

não redimiu nem recompensou os Sete Capitães.

Nas noites escuras o vento chora por eles.

 

E pelo majestoso, poderoso e impetuoso

Rio Paraíba do Sul quem chora?

Nem o vento que agita suas águas barrentas.

Águas cor de estrada, águas cor de tragédia,

que invadiram campos e vilas e tudo destruíram

e tudo fertilizaram quando insone, inquieto,

e arrependido o vento as levou de volta ao leito retorcido.

Pobre amado e avacalhado rio, o vento se ri

de sua antiga empáfia, de seu poder destruidor,

sem vento ele nada é. Vento insensível.

Águas transpostas, represadas, poluídas,

margens despidas de cílios vegetais

a desbarrancar, a se desfazer, a assorear,

ao embate das marolas, dos banzeiros,

matando peixes, pitus e outros seres,

matando de fome os pescadores,

herdeiros de Lourenço, que vieram em busca

de fartura e paz. Vento irônico, retaliador.

Vento que viu o sumiço dos gordos cardumes

levando pra longe biguás, garças, socós e marrecas.

Só não levou o pobre ribeirinho e seu povo

que não tem pra onde ir. Nem onde ficar.

Falta-lhes um novo Lourenço.

 

O rio escorre lentamente, placa de aço

a se mover sob o sol, arfando de cansaço.

É um rio-rei que perdeu o trono e a força

acossado pelo mar, que invade seus domínios.

Sangrado, envenenado, humilhado pelo homem

a quem tanto serviu, agoniza. Ah, vento.

A garça traça um desolado vôo sobre ilhas

e manguezal. Nada a consola da falta de peixes.

O vento lhe conta do antigo porto coalhado de barcos,

da multidão de aves boiando nágua e pousada nos mastros.

Peixes à vontade e dinheiro brotando do porto.

Vento não esconde a tragédia do fim da cabotagem.

O vento não guarda segredos, espalha, divulga.

Não se apieda de quem sofre com as lembranças que traz.

 

Junto do rio a cidade dormita, refrescada pelo nordeste,

vento manso que a faz esquecer seu passado pujante.

Vento traz passado, não futuro. O futuro se constrói.

O porto se desfaz, as pedras do cais se gastam,

o rio é um vazio doloroso, percorrido por fantasmas.

Espectros de índios, negros, imigrantes, embarcadiços,

se desmancham no céu muito azul que encasula a cidade

numa redoma de cristalino olvido. Nada a atinge.

Nem o vento a perturbar maribondos e bem-te-vis.

O vento carrega o cheiro de pólvora dos foguetes

a toda hora a pipocar na cidade. O povo ri, feliz,

satisfeito com o pouco trabalho e pouco dinheiro.

Não incomoda a falta de perspectiva. Futuro?

O vento dirá. Mas o futuro não pertence ao vento.

O vento conta, não inventa, não cria. O vento traz.

 

Amortecido pela decadência que derrubou

sobrados e orgulho, o povo ignora o passado,

envergonhado com o presente mesquinho.

Vento anestesiante, ninguém quer recordar

a azáfama diária do trepidante porto. Extinta.

Estivadores suados a carregar caixas de açúcar,

pipas de aguardente, fardos de couros, sacas de café,

mantas de charque, rolos de esteiras, madeira em toras,

sacos de farinha, ruma de alimentos para a Corte e a Bahia.

Nem das alegres noites das patuscadas de marujos,

dos saraus vespertinos, onde moçoilas casadoiras

inspiravam versos, despertavam loucas paixões,

provocavam românticas serenatas e beijos roubados.

 

Das cavalhadas coloridas, do carrossel com argolinhas,

das ladainhas cantadas, das procissões com santos

que se arrastavam por quarteirões, só o vento se lembra.

O vento levou para muito, muito longe, o bom tempo

dos barões açucareiros e viscondes fazendeiros,

dos briosos alferes e coronéis da Guarda Nacional

que ora jazem em tumbas simples, desataviadas,

que no seu tempo eram para os despossuídos.

Toda pompa e glória levadas pelo vento,

que ao passar pela praça do padroeiro

não esbarra em nenhum monumento à sua memória.

Vento ingrato, que soterra fatos e feitos. E heróis.

 

Dá vontade de pedir ao insensível vento

que devolva vida aos figurões de antanho

para que venham insuflar nos descendentes

dos que escaparam do naufrágio do porto

seu brio, sua coragem, seu poder de mando

para que destruam diques, hidrelétricas, ferrovias,

indústrias poluidoras, agrotóxicos e outros males

como desesperança, preguiça e desânimo

e façam ressurgir da letargia que nos assola

o ímpeto que montou na vila de S. João da Praia

um movimentado porto de quem ninguém se lembra.

 

Ah, vento, venta com força, com vontade,

inunda esta terra de sonhos bons

– os sonhos movem o mundo –

e nos devolva a felicidade.

Vento que fez com que essa ode,

prevista para ser épica

tenha virado uma desalentada saga. SJB,25/05/2006

 

 

 

CORAÇÃO DEPRAVADO

 

Na mesa bife com fritas

arroz, feijão, farofa

e uma saladinha.

Tudo muito limpinho,

temperado com amor e carinho.

Meu olhar enfastiado, no entanto,

quer pratos estranhos,

elaborados, de sabor exótico,

estampados em revistas,

tão lindos e apetitosos

nas cores, na textura,

até cheiro dá pra sentir

– cheiro não, odor,

pratos finos odoram –

e enchem a boca dágua

e a cabeça de fantasias.

 

No entanto,

ponho no prato

feijão, arroz e farofa,

bife, batatas fritas

e saladinha.

E mastigo, cabisbaixo

pensando nos coloridos pratos

das páginas das revistas.

 

 

 

TUDO COMO DANTES

 

Sob a redoma azul cristalina

perfurada pelo belo sol de outono,

a cidade palpita.

O rio marola silente

sobre peixes esfomeados.

Buganvílias despejam cores

em cachos generosos

onde borboletas se nutrem:

relâmpagos amarelos, azuis,

pretos com manchas rubras.

 

A cidade resfolega, vibra.

Buzinadas, freadas, sustos,

crianças gritam na rua empoeirada,

galos cantam, latem em quintais remotos,

mulheres discutem por ninharias,

alguém assobia sucesso de ontem.

Som explode quando o carro passa

anunciando as atrações da noite.

Um bebê chora ao longe.

Bem-te-vis insistem em gritar denúncias,

Mãos se separam, olhares dissimulam,

e rolinhas arrulham, erotizadas,

que mais podem fazer as rolas

senão arrulhar, ciscar, brigar pelas fêmeas?

A cidade é um ser vivo, indiferente,

e sempre insensível. Como as flores.

Acontece o que sempre acontece

a intervalos regulares e previsíveis.

Sons, cores e cheiros, os mesmos.

Tudo como dantes.

Tudo como sempre.

 

Entretanto,

Na semana passada,

Um poeta morreu. SJB, 11/06/2006

 

 

 

UM ROSTO

 

Um rosto.

Procuro um rosto.

 

Ave tem rosto?

Não.

Então não é de ave.                                                                                                               

Anjo tem rosto?

Não. Então não é de anjo.

 

Um rosto de pedra?

Não, mas tangível,

que possa olhar no espelho

e me reconhecer.

Não um rosto amarelado

com olhos cor de terra

e olheiras de pierrô.

 

Um rosto comum,

cabelos castanho-cinza,

nariz perfeito,

expressão serena, segura.

Bom de se ver.

 

Um rosto que se perdeu

numa curva do caminho

por onde trilhei.

 

 

 

 

PETER PAN

 

Madrugada é noite morta

na preguiça de manhã nascer.

Eu sou o que quer ficar menino

no angustiante medo de crescer.

 

Se pelo caminho há pedras

não há porque caminhar.

Se há espinhos nas roseiras

em paz as rosas deixar.

 

Negar

fugir

esconder-se

deixar a vida passar

sem nela intrometer-se

é o ideal a alcançar.

 

 

 

CANTATA

 

Canto e cantarei sempre

que a garganta me arde

se a voz não solto.

 

Se canto bem não importa

importa o bem que o cantar me faz.

 

Canto por vício

                 desfastio

                 esporte

             ou necessidade.

Canto para afastar fantasmas

                  nutrir ilusões

                  deglutir a vida

                e saborear o amor.

Canto para traduzir o mundo

           e entender meus sentimentos;

canto para me entender.

Cantar é o fio

que prende à terra

a pipa dos meus sonhos.

Cantar é o liame

que me ata aos meus

convulsionados eus

em perturbadora trama.

 

Cantar é o canal discreto

por onde a memória escorre

até transbordar nos socavões

da antiga angústia.

Cantar é o manso ribeiro

correndo entre oníricos pastos e pedras

levando as paixões que permeiam

as conjunções de minhalma

 

Cantar é o esforço desesperado

de me tornar visível

aos olhos de Deus.

 

Cantar é a senha.

Cantar é.

 

 

 

ASPIRAÇÃO

 

Eu queria um lugar ermo

onde sozinho pudesse chorar

minhas penas, desilusões tão grandes

meus amores natimortos

minha estúpida honradez.

 

Sobre o galho torto de uma árvore seca

haveria um passarinho sem bico

tentando cantar.

Um céu muito azul

e um sol muito branco

a emoldurá-lo eternamente

sem uma nuança sequer.

 

Sobre pedras soltas e ferrugentas

lagartos preguiçosos;

e arquejantes, se arrastando pela areia,

borboletas lindas, multicoloridas,

se esforçando para voar.

Num redemoinho louco,

folhas secas e papéis velhos

e escritos inúteis

voariam.

 

Uma estátua de Apolo

mutilada e ensanguentada,

brotaria do chão.

E sobre o doce mar, boiando,

uma sensual Vênus de pedra

que nunca chegaria à praia.

O mar seria de vinho

– tinto, de preferência, e rascante –

e a areia o pó de ouro

que cobria o corpo dos atletas gregos.

 

E eu, sozinho,

Nu e aborrecido,

A olhar o céu

E a me lamentar.

 

 

RECEITA

 

Tome uma flor.

A mais pequena,

a mais singela.

Arranque-a devagar

do galho que a prende à planta.

Segure-a de leve, suavemente,

para não lhe magoar a haste.

Observe-a atentamente.

Percorra com os olhos

suas linhas puras

o contorno de suas pétalas

a pureza de sua cor.

Aproxime-a do nariz

e sinta seu perfume

(se não tiver, imagine-o).

Depois, com ternura,

sinta a textura das pétalas.

Beije-a

e em seguida

num copo de água clara

e limpa

a deponha. Sorrindo.

Exiba-a orgulhosamente

a quantos vierem a sua casa.

E toda manhã, quando for trabalhar

e toda tarde, ao regressar,

perca um minuto a admirá-la.

 

Aos poucos, mansamente, sem reclamar,

ela penderá e devagarinho, sem gemidos,

irá murchando, perdendo a cor,

a bela forma, o odor,

até morrer de vez.

Não fique triste.

Retire-a do copo, carinhosamente,

deite-a na concha de sua mão

e então chore.

Depois, abra um livro de poesias

e entre as páginas mais belas

a deposite.

 

…………………

 

E então vá!

Pode partir para a grande procura.

Você está pronto para o amor.

 

 

POEMAS PARA OS NETOS

 

 

PEDRO CHEGANDO

 

Os olhos claros de Pedro

examinam a todo momento

o mundo a que chegou

há quase dez meses.

No olhar de Pedro a pureza

e a curiosidade por esse povo todo

que por sua vez o olha cheio de amor.

Nada o intimida, tudo o seduz,

o cachorro, o cavalo, o passarinho.

 

Pedro estende a mãozinha rosada,

alonga o olhar luminoso

e sorri.

 

E o mundo fica muito mais bonito. SJB, maio 2006

 

 

PRIMAVER ANA

 

A primavera nos trouxe Ana

Ana flor

Ana menina linda

Ana flor-bela

de olhinhos muito abertos

como corolas florais

atraindo abelhas.

Abelhas nós,

irmãozinho,

pais, tia, avós,

ao seu redor,

encantados,

apaixonados pela flor – Ana.

E por ela ter chegado

trazendo a primavera,

tempo de renovação,

renasce em nós

a confiança

que um dia o mundo

será melhor, mais belo,

mais gostoso de viver.

Por Ana flor

nos cobrimos de brotos

verdes de esperança

e de botões

vermelhos de amor. SJB, agosto de 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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MEUS POEMAS PREFERIDOS II ALÔ, BEBEL? – USOS E ABUSOS DO CELULAR

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