MEUS POEMAS PREFERIDOS II

10 \10\UTC outubro \10\UTC 2009 at 18:43 Deixe um comentário

Poemas do livro “ANOTAÇÕES DE VIAGEM E OUTROS POEMAS”, editado em 1994 pela editora Códice, de Brasília/DF.

Nº VI

Não sou equilibrado.
Eu me equilíbrio, com dificuldade,
entre paixões, projetos e lembranças
nem sempre boas.

Equilibrada é a garça
num pé só, a meditar
na beira do rio.

Equilibrado é o motorista do ônibus
a pilotar esta flecha pesada
de sonhos, angústias e desejos,
entre paisagens velozes,
que sugerem parar e olhar
pássaros pastando carrapatos
em vacas malhadas.

Equilibrado é Deus
que apenas uma vez
tentou afogar
os seres absurdos
que havia criado
num momento de cansaço.

INVERNO

Manhã de inverno.

Na praia deserta
eu caminhava
devagar
opresso
esmagado
pelo horizonte.

Entre a areia clara
e o mar barrento
– faixas estendidas
infinitamente –

eu
solitário
e ambulante ponto.

Será que ao menos nesse instante
Deus me viu?

MEMÓRIA

Uma história de amor,
não duas, nem dezenas.
Uma história de amor
forte e bem contada
povoa a memória
de quem muito amou.

POEMA INFINIT (IV) O

Antonio Luares
e seus cantares, falares, olhares
que entonteciam as mulheres;
Tonico Luares
e seus amores, ardores, fervores
a marcar fundamente,
o incorpóreo dos corpos amados;
Toninho Luares
E seus quereres, gemeres, prazeres
de amor cigano-vagamundo
andante-vagabundo
luzente-vagalume
a alumiar o coração das mulheres perdidas
pérfidas
perjuras;
Totonho Luares
E seus fingires, mentires, partires
Para algures, alhures, nenhures
Largando lembranças gozosas
fogosas
dolorosas
pelos caminhos.
Antonio Luares
e suas paixões substantivas
definitivas
infinit (iv) as
que duraram o tempo de um poema.

EXERCÍCIOS DE PINTURA I

Canas cortadas
juntadas
em longas esteiras roxas
verdes
amarelas
por onde corro
escorrego
caio
contente, feliz.

No alto o sol
pondo
o mais puro azul no céu
verde no canavial
e reflexos de prata
nos facões que sobem
e
descem
nas mãos escuras dos cortadores
– manchas pardas
suadas
sofridas
a humanizar a paisagem.

ERÓTICA IV

Insuportável
é o feroz desejo
de lhe interromper o sono
e irromper pelo seu corpo
como um cavalo selvagem
no cio.
Mas você dorme
placidamente
e percorre caminhos
que não conheço
e nem conhecerei
por mais que penetre
com amor e ciência
as misteriosas moradas
de seu desconhecido
território.

ERÓTICA VII

Há o sussurro
de botões em flor se abrindo
e o escorregar macio
do orvalho em folhas de veludo
quando
bêbada de luz e mel
a abelha penetra na colméia
e eu em ti.

CREPÚSCULO EM SÃO JOÃO DA BARRA

Muito do ouro
muito do tudo que virava ouro
ao entrar ou sair desse antigo porto;
muito do sangue
muito de todo o sangue derramado
nos becos
tavernas
e pedras desse cais,
somados às manchas escuras
dos homens
barcos
e ilhas,
mais os riscos negros
das garças em busca de pouso,
tudo bem misturado
e esparramado pelo céu
e pelo rio que o reflete
dão ao homem que olha o poente
em São João da Barra
a visão antecipada
do esplendor imaginado
para seu encontro final
com a verdade.

POEMA DAS BODAS*

Um caminho
quase tão longo quanto a vida
percorrido a dois
de corpos dados
amando, odiando,
sorrindo, chorando,
vencendo, perdendo,
mas lutando sempre.

Cinqüenta anos depois
os dois são tantos
que nem dá
para contar nos dedos.

O caminho floriu
apesar das pedras.

* Lido na Missa em Ação de Graças pelas bodas de ouro de seus pais, realizada em setembro de 1986 na igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, em São João da Barra

FLAGRANTES XIII

A parede e o batente da janela
apertam os ombros do menino
que olha a rua intransitável
para quem não se veste de lata.
Seus olhos enclausurados
não verão a rua larga e vazia
onde se podia jogar bola,
soltar pipa, brincar de pique
e andar de bicicleta.

A não ser em filmes antigos.

CARTÕES POSTAIS*

IGREJA DA PENHA

Esfolando joelhos pela escadaria
os fiéis se punem
Por haver tentado subornar a santa
Com rezas e velas.

* Publicado com outros poemas dessa série no jornal Plástico Bolha envolvendo palavras, do Rio de Janeiro, em 2008.

CIDADE FOTOGRAFADA

Palavras não fotografam a cidade
são in/signi/ficantes, insuficientes,
sem pertinência e pouco expressivas.
Não fixam as cores cambiantes
nem seus tons difusos. Nem os sons.
Se há palavras capazes, estão por ai,
rolando pelas calçadas, perdidas nas esquinas,
jogadas nos bueiros, grudadas na lama,
escondidas na folhagem, cercadas de grades.
Passam rápido, surfando em trens e ônibus,
ou lentamente, em carrinhos de mão.
O poeta precisa delas para foto/grafar
a angústia de uma cidade
que já foi maravilhosa.
Onde as palavras capazes
de descrever sua amargura?

Palavra, ser exasperante, rebelde e fugidio,
que ri e desaparece, seduz e debocha,
e não se comove com os esforços do poeta.

A cidade e sua decadência aí estão,
zombando das frases feitas, dos chavões,
dos lugares comuns.
As palavras escapolem, como ratos maliciosos.
Caçador inepto e incansável, o poeta espreita,
quem sabe uma delas se distrai e se deixa pegar?
O poeta quer cantar o desgosto de ver sofrer
a cidade que o acolheu no tempo
em que era bela e tranqüila
e não acha as palavras certas.

O que é a cidade, uma cidade?

Será um polo energético
em constante movimento
de atração e repulsa
a criar e destruir
incessantemente?

Será o tumor principal de um câncer
que se espraia em metásteses pelo litoral,
baixada, vales e planícies?

O que será a cidade,
esta cidade especificamente,
tão sofrida
onde o poeta vive e se consome
A imaginar, delirante,
que outra cidade é possível,
e que deve estar por aí,
entre postes e cartazes
jardins e monturos de lixo;
uma outra cidade
sem deixar de ser esta
cheia de graça e pecado,
menos cruel e apressada
mais apropriada para o homem.

Como fotografar esta cidade oculta,
verdadeira imagem do Rio?

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