MEUS POEMAS PREFERIDOS 1/2/3

9 \09\UTC outubro \09\UTC 2009 at 17:58 Deixe um comentário

Meus poemas preferidos

 

Está cada vez mais difícil se ler poesia. Comprar livro de poesias então, nem pensar. As grandes consumidoras de poesia de antigamente estão mergulhadas na internet.  Como produzi muitas poesias, que deram para encher três livros: CANTO TENTADO, ANOTAÇÕES DE VIAGEM e DUAS LENDAS SANJOANENSES e pretendendo ser lido pela turma do hyperespaço, reuni os poemas que mais me agradaram ou caíram nos gosto de outras pessoas e estou colocando-os em meu blog para ser apreciado pelos leitores.

 

CANTO TENTADO:*

 

Tento o canto para situar-me aqui

para crescer e ofuscar a morte

e inundar-me de vida e amor.

 

Meu verbo tateia a expressão perfeita

que conte e cante

o que se passa em mim.

 

Meu verso tenta transformar-se em hino

que evoque anjos e heróis dispersos

nas calçadas da vida

nos caminhos da morte

nas rotas aéreas do sonho.

 

Tento um canto para a noite quieta

daquela cidade pequena

que expulsar não pude

de meu coração menino.

E outro canto para a cidade grande

em sua noite barulhenta e anônima

 

Faço alegre a voz, um trinar de pássaro,

nas manhãs claras e nas tardes rosas

em que a solidão foi o papão noturno

que a luz desmistificou.

 

Triste a voz faço quando navego sem rumo

entre as vagas humanas que povoam de solitude

essa cidade imensa e fria, que se deixa amar

sem dar amor em troca;

Que tem lábios duros para o beijo

e braços hirtos a impedir a posse.

 

Tentado canto com voz sussurrada

no ouvido surdo da vida possível

tornado em lamento

pela tristeza implícita

em qualquer semente de amor.

 

Inútil canto, até o fim tentado,

angustiadamente.

 

* Este poema abre a seqüência de poemas do livro do mesmo nome a o caderno de Poesia da revista trilíngüe Chasqui, nº 3, vol. VI, publicada pelo Swarthmore

College/USA, em novembro de 1977, com mais sete poemas do livro.

 

DEFINIÇÃO

 

Não, não sou poeta.

Sou apenas um homem em busca de expressão

para sua angústia.

e de uma maneira nova, sua,

de formular as perguntas do mundo.

Sou o que procura no dourado do chope

o tênue rastro do incognoscível;

que pergunta ao mar o porquê dos peixes

e despreza a roseira

por não saber a razão das rosas;

que olha pro céu e crê no riso irônico das estrelas

                                     no desconsolo do vento

                                   e na insaciável fome da terra.

 

Sou o que pergunta, pergunta, pergunta,

e não crê que haja resposta

e sabe que se houvesse

seria inaceitável.

 

DESTINO

 

Encher de rosas

as mãos de quem pede comida;

dar eternidade

a quem pede um instante de carne;

é o destino heróico

dos poetas

e dos santos.

 

 

POEMA PARA O MEU PAI*

 

Tua bela cabeça

merece um poema

meu pai.

Um poema másculo

como você.

Que fale em canaviais

               em bois mugindo à tarde,

               em garotos prendendo bezerros

                em cavalos correndo, jogando

                você de encontro à cerca;

     Que fale da selva civilizada

      que você enfrentou;

       nas feras humanas,

       as piores,

que você venceu;

Que fale nas subidas e descidas

da estrada da sua vida

que impávido você percorre.

 

Tua bela alma,

merece um poema,

meu pai,

que eu não soube fazer.

 

* Menção honrosa na categoria poesia na XI Festa da Inteligência da Academia Valenciana de Letras, em 1970.

 

 

NOTURNO II

 

Dentro da noite silenciosa

da cidade pequena

um homem caminha.

Um homem caminha

levando seu sono

seus pensamentos de domingo

seu amor fechado pela braguilha

para a mulher que o espera

adormecida.

Que se dará sem beijos

no amor de obrigação

de uma esposa que se preza.

 

Dentro da noite silenciosa

um homem caminha

sem pressa

porque nada aconteceu na sua ausência.

O namorado da filha já foi embora

as crianças dormem emboladas

na cama do quarto do meio.

E o cachorro

enrodilhado sobre a própria brabeza

descansa do dia andado à toa.

 

Dentro da noite silenciosa

um homem caminha.

O vento que o vai embalar

balança as folhas do mamoeiro

carregado de seios duros.

Um homem caminha

e no céu se acende mais uma estrela

e na rua uma janela  se apaga.

 

Dentro da noite silenciosa

um homem caminha

quase dormindo.

 

 

OS ANJOS*

 

Nuvens pariram anjos

na estranha terra em que morri.

Como flores tontas

como manchas vivas

vermelhas, azuis, arroxeadas,

verdes, cinzas e amarelas,

cobriram o chão que me cobriu.

 

Anjos vermelhos, ensangüentados,

de espadas rotas e asas sem penas;

anjos azuis, descabelados,

se diluindo no azul do céu;

anjos arroxeados,

bêbados e insones,

anjos verdes, orvalhados,

asas pesadas de lágrimas;

anjos cinzas e chorosos,

suplicando anonimatos;

anjos amarelos, gritantes,

numa revolta de luz.

 

E os anjos negros?

Por que não foram dados à luz?

E os anjos negros,

Que a si se negam,

Por que não tiveram vez?

 

E os anjos brancos?

 

* Publicado no nº 8, da revista Batarro, da Espanha, em novembro de 1977.

 

 

LAMENTO*

 

A impossibilidade de ser pássaro

– pousar em teu ombro –

me dilacera.

 

A tristeza de não ser mar

– a envolver teu corpo tostado –

me penumbra a alma.

 

A dor de não poder ser vento

– brincar em teus cabelos –

me atormenta.

 

A necessidade de ser a água

que te mata a sede

me alucina.

 

A certeza de jamais ser teu sol

teu remorso e tua grande alegria,

me estraga a vida.

 

E a ternura frustrada

e o beijo não dado

serão levados pela água pura,

pelo sol no mar,

pelo pássaro pousado no fio…

 

NUMA NOITE DE SÁBADO*

 

Cavalo absurdo

correndo, correndo

na minha imaginação,

 

PARE!

 

Lá no fim está a solidão.

Uma noite triste

um telefone mudo

um disco idiota na vitrola.

Talvez um copo entre os dedos

um cigarro entre os lábios

e um nome no pensamento.

 

Imbecil, eu lhe quebro as pernas!

Eu lhe arranco as asas

lhe furo os olhos

para que não corra!

 

Não adianta…

Para deter esse cavalo

Só a loucura.

 

*  Premiados nos concursos semanais do jornal O Fluminense, de Niterói/RJ, em 1970

 

 

POEMA VII ou DO APARTAMENTO CONJUGADO

 

Há nesta casa

estranhos ruídos

murmúrios, gemidos,

arfares de amor,

gritos de gozo, risadas ansiosas,

palavrões doces ditos em sussurro,

palavras soltas, alucinadas,

girando como sóis ensandecidos

ou margaridas levadas pelo vento.

 

Há nesta casa

diversos odores

de esperma e flores

suor e cerveja;

o cheiro de bife sua fumaça,

de sabonete, de cera, de fluido

para isqueiros.

de creme de barba e desodorante

da mulher que veio e se foi

de exaustos corpos

e sexos saciados.

 

Há nesta casa

suaves lembranças

de ventres orvalhados

seios amassados

mãos crispadas e lábios mordidos.

De mãos nervosas

passeando doidas

em corpos jovens e famintos;

de roupas lúbricas

voando lentas

para pousar na estante

sobre as cadeiras

ou mesmo no chão.

Há também nesta casa

certa tristeza

de margaridas mortas,

pontas de cigarro, toalhas sujas,

E desejos tontos de proibidos corpos,

de noites vazias

de copos cheios e

de almas cansadas.

 

 

POEMA XII ou DA TARDE DE VERÃO*

 

Não há poema.

Há apenas a vontade de comunicar

o impossível

ao impossível.

Há o desejo ardente

e beijar o nariz da amada

ou farejar seu útero.

O desejo que a lua

não fosse tão tola

e se deixasse cair

louca e lúbrica

sobre um poste aceso.

O desejo de que

todas as mulheres do mundo

ficassem grávidas de uma só vez

e parissem gatos

ou seres gatiformes

O desejo enfim que as tarde de verão

Fossem menos sensualizantes

ou então que as mulheres belas

– as demasiadamente belas –

Fossem consideradas

De utilidade pública.

 

* Publicado na revista anual Momento Cultural, de Campos dos Goytacazes

 

ROSA CONSTRUíDA*

 

Para que surgisses, rosa, úmida e brilhante,

dentre os espinhos e folhas recortadas,

foi necessário que antes em mim existisses,

fruto da solidão e do anseio de beleza.

A tua cor foi prevista nas madrugadas

inúteis que surgiram depois das despedidas;

a sensação docemente exasperante

que meus dedos arrancam de tuas pétalas,

veio da rude seda dos corpos amados

em momentos de nenhum amor;

E o teu perfume, espiral de angústia e sede,

Antes de te envolver banhou de desejo

Os crepúsculos que antecederam a saciedade.

……………………………………………..

 

Para que surgisses, rosa, perfeita e exata,

foi necessário que de meu ser brotasse

a sombra da beleza jamais alcançada

e a esperança absurda de alcançá-la.

E se te lembro agora tua construção penosa,

Não é para isentar-me da culpa de colhê-la

Mas para tentar amar os andaimes que restaram.

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PAIXÕES, TESÕES MEUS POEMAS PREFERIDOS II

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