PAIXÕES, TESÕES

5 \05\UTC outubro \05\UTC 2009 at 11:20 1 comentário

Paixão é aquele sentimento súbito, avassalador, inesperado, que leva o ser humano do auge da euforia ao fundo da depressão. Tem um lado bom, passa; e tem um lado ruim, passa. A paixão só se realiza quando para na cama. Paixão é tesão, tesão é cama ou qualquer outro lugar confortável para se fazer amor. É aí também que ela para, pois depois de meses apaixonado, depois de saciada de tanto amar, a paixão se esgota. A tesão, como a paixão, se consome pela realização.
Tive duas paixões na vida no meu tempo de solteiro. A primeira era arruivada, cheia de sardas, uma lindeza. A pele rosada parecia de seda, se enrugava ao toque dos dedos. Sorriso doce, confiante, satisfeito. Era minha vizinha de apartamento num prédio de conjugados em Copacabana. Travamos conhecimento por sair juntos para o trabalho, fecharmos a porta com o mesmo gesto, tomar o mesmo elevador, chegar à rua com o mesmo número de passos. Um cumprimento aqui, um comentário sobre o tempo ali, fomos ficando íntimos, a ponto dela me contar que havia brigado com o namorado, e quem nunca mais queria ver. Falei-lhe da minha solidão, morando sozinho, longe da família, casa-trabalho-casa, ela também, filha única, a mãe vivia no interior de Goiás, ela queria uma vida melhor, estudava e trabalhava.
Gamei, ou melhor, gamamos um pelo outro. Ninguém consegue determinar quando surge e quando acaba a paixão. Ninguém também consegue entender porque, como se diz por aí, a pessoa arrasta um bonde por alguém que há pouco tempo mal conhecia.
Determinamos, cada um viver em sua casa, espaço reservado para a privacidade, para o isolamento sadio de repor energias, recompor ideias e sensações. Passávamos as noites juntos, os dias trabalhando e nos fins de semana cada um dava um tempo para o outro suspirar de saudade e de desejo. Fomos felizes. Um dia, me contou que estava entregando o apartamento, não estava dando para pagar o aluguel, mas não queria me impor sua presença. Desculpa, a paixão se esvaía. Sei porque o mesmo acontecia comigo, cada vez mais prezava meus momentos comigo mesmo. Nunca mais a vi e foi bom, por que a imagem do tempo de paixão feliz ficou intacto em minhas recordações.
A segunda, uma morena clara, ondulados cabelos negros e sorriso de menina levada, me apareceu na vida um ou dois anos depois. O que primeiro notei foi seu rosto perfeito e seu corpo espetacular. Vestia-se bem e cheirava melhor ainda. Olhei assim, como quem olha um objeto de consumo, na era mulher para ricaços, no mínimo para celebridades. Mulher para se exibir em festas, apresentar aos amigos impando de orgulho, desfilar no calçadão de Copacabana. E foi aí, no calçadão que tudo começou, ou seja, que a paixão nos atingiu em cheio e jogou na areia.
Sábado à noite, quase fim de mês, dinheiro curtíssimo, dando apenas para um sanduíche e sentar nos bancos do calçadão para apreciar o desfile das deusas. E lá estava ela, andando assim meio distraída, como se não fizesse parte daquela paisagem comum. Eu a conhecia do curso que fazia na cidade, chegava sempre atrasada e ao passar me dava um olhar vago e um sorriso bem educado. Assim eu pensava.
Naquele sábado, não acreditei quando ela veio em minha direção, sorriso aberto de boas vindas, de felicidade. Te achei, exclamou a meu lado. Ela não andava distraída, estava à minha procura. Me ouvira dizer a colegas que quando estava sem dinheiro gostava de me sentar na beira mar, um divertimento barato.
Eu nem imaginava, mas ela já estava apaixonada por mim. Inacreditável! E ficamos juntos por um tempo que não dá pra precisar, principalmente porque foi a paixão mais maluca que vivi. Eu não me cansava de olhar seu rosto belo, de abraçar o corpão de deusa grega. Mas só abraçar. Durante o tempo em que convivemos nunca passamos de abraço, de um amasso, de um beijo furtivo. Nunca quis ir ao meu apartamento, nem me convidava para ira a sua casa. Motel então, nem pensar. Gostava de ficar a meu lado, sentada na beira mar, ombro apertando ombro, boca roçando pele, mão passeando pelo corpo. Nada mais que isso. Mas como era delicioso!
No fim do ano o curso terminou. Ela sumiu, sequer foi à festa de confraternização da turma. Nunca me havia dado seu endereço, nem me disse onde trabalhava. Uma ilusão? Uma miragem de solitário? Não, paixão, tesão que se fosse saciada perderia o encanto.
SJB, 05/10/09

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1 Comentário Add your own

  • 1. Eliane  |  14 \14\UTC outubro \14\UTC 2009 às 00:55

    Achei maravilhoso.Não conhecia esses momentos de sua vida,pois creio que seja realmente uma experiência pessoal.Adorei relembrar os versos ou poemas,não sei distinguir um do outro,só sei que admiro muito tudo o que você faz.Parabéns!Beijo no seu coração tão generoso.

    Responder

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