RECORTE DE VIDA

17 \17\UTC setembro \17\UTC 2009 at 10:26 Deixe um comentário

A velha casa ficava do lado direito da rua, bem no centro do terreno. Diziam que fora a residência do caseiro de um sítio que ali existiu. A casa grande fora demolida ou desmoronara e a que restara não estava longe disso, com suas paredes descascadas, portas e janelas bambas. Ao fundo, esquálidas bananeiras agitavam incessantemente suas folhas rasgadas. Quase junto ao ângulo esquerdo, jaqueira frondosa, sempre carregada de seus rugosos frutos, que nenhum moleque da rua pegava, mesmo quando se esborrachavam no terreiro, espalhando seus gomos cheirosos no capim ralo.
Ali morava um homem jovem, fraco dos pulmões, doença mortal, contagiante, que pegava até pelo ar. Sua figura magra, quase diáfana, era pouco vista pela vizinhança. Nas manhãs de sol podia ser entrevisto o vulto amarelo e transparente, vestido com largos pijamas, que qualquer brisa fazia dançar em torno de seu corpo anguloso e o levava de volta à casa. Esse antecipado fantasma era o terror da criançada e das velhas, que compungidas se benziam ao vê-lo de longe.
Numa manhã nublada uma ambulância o levou, estirado numa maca, as mãos ossudas se mexendo ao ritmo de sua respiração difícil. A seu lado, uma mulher sem idade, cabelos grisalhos presos num coque, um grande lenço quadriculado cobrindo a parte inferior do rosto. Só era vista na rua quando ia à venda ou à quitanda, supunha-se que fosse sua mãe ou parenta próxima, abnegada. Uma aura de simpatia a envolvia por parte daquele povo que nessa manhã se ajuntava a certa distância para observar a partida do moço. Era admirada, de longe.
Nunca mais voltaram e a casa ficou fechada, fantasma de tijolo e cal, um abismo, uma gruta, uma caverna onde nem os moleques mais atrevidos se aventuravam em penetrar. Bananas apodreciam nos cachos, jacas se desfaziam no chão, atraindo pássaros e insetos com seus cheiros e cores irresistíveis. Ninguém ia pega-los.
Em frente à casa abandonada se abrira uma nova rua, ainda não de todo ocupada por moradias, como uma gengiva com falta de dentes. A rua, tão enlameada quanto a principal, se perdia num matagal ao longe. Era terreno propício a aventuras, correrias, esconderijos, sacanagens, da garotada indócil.
Os dois primeiros lotes custaram a receber construções. O da direita, esburacado com ferocidade para a colocação de alicerces, transformara-se numa piscina barrenta, onde flutuava um tronco da bananeira, bóia, trampolim, embarcação para a imaginativa turma de garotos. A chuva interrompera a colocação das pedras. Choveu muito naquele ano e tudo, crianças inclusive, parecia flutuar no lodaçal.
O lote do lado oposto era um terreno baldio de igual tamanho, coberto por capim e moitas de plantas rasteiras, que ostentavam entre seus ramos raquíticos e retorcidos, inesperadas e gritantes flores de um serelepe alaranjado. Largas folhas de aboboreira, ásperas e hostis, surgiam por entre o capim e escondiam carrapatos e outros bichinhos incômodos.
Uma cerca de madeira indicava o limite desse lote e toda manhã, cinco ou seis barulhentas crianças ali pousavam, agitadas como um bando de maritacas, gritando ritmadamente para o gordo pai que seguia para o trabalho, o paletó escuro e seboso aberto sobre o barrigão, a pasta de couro preto lhe pesando nas mãos:
– Té logo, papai! Vai com Deus!
Ao que ele respondia com dificuldade, enquanto avançava cautelosamente por entre as poças: – Amém!
SJB,16.09.2009

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Do mosquito ao desenho HISTÓRIA RESUMIDA DO JORNAL S. JOÃO DA BARRA

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