Do mosquito ao desenho

3 \03\UTC setembro \03\UTC 2009 at 09:49 1 comentário

Nos meus tempos de criança, o impaludismo era uma preocupante e constante endemia. O mosquito doméstico não transmitia dengue e sim impaludismo. O doente era confinado num cômodo da casa para não infectar os familiares. Impaludismo, ou malária, era marcado por febre alta, tremedeira e outros sintomas.
A casa onde vivíamos, na rua do Conselho, em Campos, continuação da farmácia de meu pai, era separada por um corredor lateral que levava até à rua. Era comum nosso trânsito pela farmácia, aonde chegavam doentes para comprar remédios ou tomar injeções. Em conseqüência, peguei todas as doenças infantis, inclusive crupe ou difteria, não muito comum. E logicamente, impaludismo.
Éramos três crianças que dormiam no mesmo quarto. Depois de diagnosticada a doença, eu não mais poderia continuar a dormir ali. A casa tinha um grande quintal, com árvores frutíferas, depósito para lenha cortada – não se usava ainda gás de cozinha – e no fundo, uma água furtada, com dois cômodos, ocupando toda a largura do terreno.
Um dos cômodos foi preparado para me receber, pelo menos até passar o período em que a doença contaminava.
O problema revelou-se maior do que se pensava. Como eu, que tinha 6 ou 7 anos, ficaria sozinho naquele lugar? E se mamãe ficasse comigo, quem cuidaria de minhas irmãs, ainda mais novas, e quem cuidaria da casa?
Não me recordo da solução encontrada. Lembro que, para eu conseguir agüentar as longas horas em cima de uma cama – naquele tempo uma simples gripe jogava o doente por dias na cama – sem choramingar, mamãe precisou ser criativa. Num canto do cômodo havia um monte de cédulas eleitorais não utilizadas. De candidatos do PSD, provavelmente, partido ao qual meu pai era filiado.
Mamãe, que gostava de desenhar, herança de seu tio Coriolano, pegou um punhado daquelas cédulas e pôs-se a desenhar rostos de mulheres de perfil. Eram feitos num só traço, o nariz levemente empinado, pequeno triângulo como olho e cabelo num rolo que começava na testa e ia aos ombros. Uma gracinha. Mamãe era habilidosa, criativa.
Gostei da distração e durante os dias em que não pude sair para o quintal e acompanhar minhas irmãs em suas brincadeiras e correrias, fui aperfeiçoando meu traço. Muitos anos depois, quando morava em uma pensão em Niterói e cursava o pré-vestibular, fui apresentado por um colega ao guache e à aquarela. Fiquei fascinado.
Perdido o vestibular voltei à terrinha, por um tempo. Para não ficar à toa, estudei um pouco de desenho com um professor que morava na rua Aquidabã, em Campos, uma rua linda, com grandes árvores, cujos galhos, cobertos de flores rosadas, se debruçavam sobre os paralelepípedos da rua. Anos depois, já morando na cidade do Rio de Janeiro, fiz vários cursos de desenho e pintura, com professores renomados, como Ivan Senra, do MAM, e Fernando Lamarca, que ganhou prêmio de viagem à Europa com um trabalho a óleo.
Voltando ao impaludismo, durante muito tempo depois da cura fui obrigado a comer carne moída e ovos crus. Bem temperada, a carne fica sabor parecido ao do quibe, melhor que o peixe cru japonês. Outra lembrança ficou docemente marcada no meu coração: nas horas em que a febre se manifestava, meu pai ou minha mãe me pegavam no colo e iam até à laranjeira perto da cerca. Ali arrancavam folhinhas e me faziam recitar: minha comadre laranjeira, peço que me empreste esses pratinhos, pois tenho visita em casa. Quando ela for embora venho devolver e agradecer.
Com uma pequena ajuda dos remédios a febre – a indesejável visita – foi-se embora. Não lembro se voltei para agradecer a generosidade da laranjeira.

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Entry filed under: Crônicas.

O PORTO DA DISCÓRDIA RECORTE DE VIDA

1 Comentário Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  27 \27\UTC setembro \27\UTC 2009 às 09:22

    Carlos,
    Descobri agora como você leva jeito para desenhos ! Enfim você contou como surgiu essa sua vocação de um quase “Picasso”, “Miró” e “Monet”!
    Grande abraço!
    Andre Pinto

    Responder

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