A PARTE PELO TODO

15 \15\UTC julho \15\UTC 2009 at 17:03 Deixe um comentário

No dia 6 de junho o município de São João da Barra completou 323 ou 324 anos de sua criação, dependendo do historiador consultado. Obteve nessa data sua independência político-administrativa com o nome de Vila de São João da Praia. Em 17 de junho de 1850, graças a seu então movimentado porto, que atendia a todo o norte fluminense na exportação e importação de produtos, a vila foi elevada por Pedro II à categoria de cidade.
A data de 6 de junho é um dia comum no município, poucos professores a analisam na classe e as autoridades, como sempre desconhecedoras da história local, não se preocupam em comemorar a data, nem que seja com o hasteamento da bandeira do município na praça e nos prédios públicos.
Já o dia da cidade, uma semana depois, é pura festa, roupa nova, ponto facultativo nas repartições, discurseira, farta distribuição de títulos honoríficos e medalhas de mérito. É como se a parte – a cidade é parte do município – fosse maior que o todo, o município. Por alguns anos o dia da cidade foi confundido com o do município, como se a independência político-administrativa tivesse sido conseguida naquele dia.
Parece que a história gosta de ironias e no dia 6 de junho de 2006 faleceu João Oscar, o pesquisador-poeta-escritor que retomou os estudos da história sanjoanense. Sua vida e obra deveriam ser sempre reverenciadas nesse dia. Mas a memória cidadã, em especial a da nossa terra é muito curta, para a alegria dos políticos.
A parte aqui sempre prevalece sobre o todo. Fernando José Martins, em sua obra basilar da historiografia municipal, conta que o município perdeu parte de seu território, a localidade de Morro do Coco, para Campos por não mandar representante na hora de demarcar os limites entre os dois municípios. A perda de uma parte afeta o todo.
E a questão de limites, de perda de território, não para aí. Na década de 40 perdeu-se mais um bom pedaço de terra, localidades como Folha Larga, Quixaba e outras quando o então interventor do governo federal no estado do Rio, ignorando os limites de 1904, mandou o IBGE traçar uma reta de Barcelos ao Açu como limite. Ninguém protestou, que se saiba. A municipalidade, porém, continua a investir em saúde e educação na parte cortada, que recolhe impostos para Campos, a quem passou a pertencer, e tem sua população acrescida à daquele município para efeitos de recebimento de royalties e outras transferências de verbas federais. É a parte a afetar o todo.
No tempo em que éramos o terceiro município em extensão territorial do estado, dizia-se que o progresso custava a aqui chegar porque se gastava muito com “os sertões”, ou seja, a parte ao norte do rio Paraíba. Veio a emancipação de São Francisco de Itabapoana, formado pelos “sertões” e tudo continuou igual. Nada de progresso. Um dos argumentos que ensejou a perda desses dois terços do território era que o rio que cortava o município era o limite natural entre as partes. Se assim fosse Campos e S. Fidelis, por exemplo, seriam menores. Na hora de traçar os limites entre as duas partes, por desleixo ou descaso, perdemos ainda a ilha de Convivência, no meio do delta, quase colada a Atafona.
É sempre a parte sendo mais considerada. Está aí a instalação do complexo portuário do Açu, nova varinha mágica que trará o prometido progresso para o município. O Açu, há tanto tempo esquecido pelos administradores municipais, menos nas eleições, substitui os sertões no imaginário dos políticos. Será a fonte de onde jorrarão empregos e renda. Resta saber para quem. Para Campos, certamente, muito mais preparada para se beneficiar e mais próxima do porto. Fracos revérberos atingirão nossas localidades, sem boa infraestrutura, sem mão-de-obra capacitada. Talvez Cajueiro ou Barcelos. Mas como nossas partes não se integram ao todo…

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