choque de ordem

13 \13\UTC abril \13\UTC 2009 at 15:32 1 comentário

             CHOQUE DE ORDEM

                                                                  Carlos AA de Sá

              “O passado, na verdade, nunca é passado. Ele está sempre na nossa vida diária.”

                                                                                                         Bruce Springsteen, cantor de rock

 O Zépereira abre o carnaval desde o século XVIII

Quando os tambores do Zépereira soam pelas ruas da cidade, anunciando simbolicamente o início do período carnavalesco, é impossível não pensar com saudade nos carnavais de antanho. Em termos de tranqüilidade e liberdade para brincar nas ruas, o carnaval antigo era muito melhor. Um carnaval alegre e tranqüilo, onde não se podia conceber que um jovem, massacrado por outros jovens de sua cidade, em plena rua principal, saísse sozinho, sangrando, todo quebrado, em busca de socorro médico, ante a indiferença dos circunstantes. Há não muito tempo, se no carnaval um folião caísse desmaiado na rua de tanto beber, pessoas o levavam para sua casa. Onde foi parar a decantada solidariedade sanjoanense? Não é essa a São João da Barra que deixei para estudar e trabalhar e para onde sonhei tantas vezes voltar após a aposentadoria em busca de paz e melhor qualidade de vida.

    Podem até dizer que é saudosismo, rabujice ou coisa semelhante, mas é verdade que além desses adjetivos está o desejo do bem estar das pessoas, o prazer de viver numa comunidade onde todos se respeitam, onde se pode divertir-se nas ruas em medo de agressões. São João da Barra já foi assim. Vivi aqui muito tempo para poder dizer que tudo mudou e para pior. É hoje uma cidade enlouquecida, onde ninguém se respeita. Aqui reina a desordem. Se isso é progresso, a cidade optou por entrar na modernidade pela porta dos fundos. Junto com o consumo de drogas ilícitas.

     O abuso, o desrespeito e a insensibilidade chegaram antes do emprego e da geração de renda. Os carros de propaganda comercial, e são muitos, passam pelas ruas rápidos como um trovão, com toda a potência do aparelho de som ligado para anunciar produtos e eventos, muitos patrocinados pelo poder público, cuja mensagem ninguém consegue ouvir por inteiro. Além de o ouvido humano bloquear sons que o agridem, passam rápido demais e é comum que uma frase comece a ser dita numa esquina e termine esquinas depois. No instante que passam defronte da casa, o barulho ensurdecedor impede que se ouça o que é dito na televisão ou tópicos da conversa das visitas. Para completar, em algumas residências de pessoas que, por certo, sofrem de deficiência auditiva, o rádio é ligado em tal altura que incomoda os moradores das casas em frente e ao lado.

     A par desse abuso, surgem os carros dos “playboys na lona”, ou seja daqueles caras que só tem dinheiro para a gasolina e ficam pra lá e pra cá, da praça de Santo Antonio à praça de São Pedro, versão motorizada e barulhenta dos antigos footings, quando se aproveitava para arrumar garotas. Só que não arrumam ninguém, a não ser um carona. E tome músicas de péssima qualidade, raps com letras indecentes, compostas em favelas e outros redutos de marginais.

     E não se relacionou aí as motocicletas desreguladas, com a descarga aberta, para baixo e para cima, em alta velocidade, acordando crianças, velhos e doentes cada vez que passam. A lei do silêncio que impera na área próxima aos hospitais é solenemente ignorada. Insuportável.

     Se você apela para a Polícia Militar perde tempo. Os soldados podem, no máximo, repreender os transgressores. Não existe depósito público para onde levar os veículos irregulares ou barulhentos. Em cada viatura há uma cópia da decisão do promotor de Justiça Leandro Manhães ordenando a detenção dos infratores da lei do silêncio, mas não há decibelímetro para provar que o limite foi ultrapassado. Não há fiscais municipais para coibir outros desmandos. Tudo é permitido. Inacreditável.

     Outras infrações marcam essa postura irresponsável de parte da população: o vandalismo, o lixo jogado na rua ou mal colocado nas lixeiras, a destruição de árvores, quadros de medidores de luz e água, transgressões das normas do bem viver, como por exemplo, cachorros ferozes conduzidos sem focinheiras, menores dirigindo veículos ou sendo transportados no banco dianteiro e, pasmem! no colo dos pais que dirigem. As placas de sinalização de trânsito parecem ter sido colocadas como enfeite. As transgressões são rotineiras. Na esquina da praça principal, sob placas que indicam proibição de parar e estacionar, veículos são deixados enquanto o motorista toma sorvete ou conversa.  

      Por outro lado, estacionar o veículo é uma tarefa complicada. Estaciona-se a meio metro do meio-fio ou dos dois lados das ruas estreitas, sem se importar se está na mão ou na contramão. O motorista muitas vezes tem de fazer malabarismos para evitar as masseiras ou os montes de entulho de obras urbanas. Andar pelas calçadas é como participar de uma corrida de obstáculos. Cada calçada tem uma altura, as rampas das entradas de garagem invadem o leito da rua, bicicletas e motos são deixadas sobre elas. Uma loucura.

     A cidadania aqui parece ser composta só de direitos e nenhum dever. No ano passado, ano eleitoral, a repressão tornava-se complicada, não se queria contrariar eleitor. Votos nas urnas eram mais importantes que uma melhor qualidade de vida para uma população que já não conta com rede de esgotos e outras melhorias urbanas essenciais. Só se pode considerar nossa cidade como boa para se viver quando o esgoto não fluir para a rua quando chove um pouco mais forte ou quando estiver reduzido ao mínimo o número de doentes que precisam ser levados a hospitais de Campos para receber tratamento eficaz. E o povo disponha de transporte coletivo decente.

    A cidade está precisando de um prefeito como Eduardo Paes, neste ano eleito para a cidade do Rio de Janeiro, que promova choques de ordem, que dê tranqüilidade à população ordeira e trabalhadora. Recentemente, reportagem do jornal carioca O Globo conta que a prefeitura do Rio de Janeiro decidiu produzir uma cartilha para mudar os hábitos da população, estimulando a civilidade entre moradores e visitantes, para, no mínimo, evitar casos de descortesia com o próximo. O Manual da Ordem Pública será distribuído em abril, com tiragem inicial de 400 mil exemplares.

    Não se pode voltar aos hábitos do Brasil Colônia, quando se urinava e defecava na rua, o que está ficando cada vez mais comum. Antes só se via isso na rua do Sacramento, esquina da Casa Paroquial, no carnaval, quando não havia banheiro público. Hoje, nas festas populares banheiros químicos ficam à disposição da população, mas poucos os usam. Para urinar os homens preferem verter diretamente no rio Paraíba do Sul, já tão poluído. Para defecar ruas de pouco movimento como a que fica entre os dois galpões da fábrica de conhaque, nos fundos da Santa Casa de Misericórdia. Em qualquer tempo. Num desses sábados, um carro estacionou sobre a calçada da esquina da rua dos Passos com Coronel Cintra – uma esquina perigosa, pois aqui se parece desconhecer o que é rua preferencial – e dois homens saltaram. Enquanto um deles foi à farmácia, em frente, o outro se aproximou do orelhão e urinou com vontade. Eram cerca de oito da noite e carros e pedestres passavam sem que o incomodasse ou envergonhasse.

     O Manual da prefeitura carioca talvez não obtenha o resultado desejado, mas demonstrará a intenção de corrigir esses habitantes que parecem viver no tempo das cavernas. Foi a boa educação, o respeito ao próximo, a obediência às regras de boa convivência que permitiram que o homem vivesse em sociedade. A educação é essencial ao convívio humano. A falta de civilidade é uma faca de dois gumes: o transgressor de hoje pode amanhã ser alvo de uma transgressão. E não vai gostar.

      Essas transgressões trazem outro malefício: acostuma a população aos desmandos e leva a transgressões maiores. Banaliza as infrações. Assim como o furar fila leva à sensação de esperteza, e as “carteiradas” dão uma sensação de impunidade que leva as pessoas a ousarem sempre mais, chegando muitas vezes a atos criminosos, a impunidade às transgressões do dia a dia levam os maus a ousarem mais.

      A desordem urbana, para o bem de todos, precisa ser combatida com eficiência e presteza. Não se pode deixar para amanhã, não se pode relevar quando seu autor tem maior poder aquisitivo, não se pode considerar como coisas de pouca importância. Nesses pequenos delitos se cevam os grandes transgressores, que assaltam lojas, residências e o tesouro público. Nada de contemporização. Quem não sabe viver em sociedade, deve procurar um lugar afastado para dar vazão à sua incapacidade de seguir normas.

     É preciso também que a família e a escola se unam para preparar as crianças e jovens. Os adultos, já insensibilizados pela violência cotidiana, pouco mudarão, mas as crianças e jovens bem formados podem até mudar o mundo.

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Brincadeiras de crianças xenofobia

1 Comentário Add your own

  • 1. Sonia  |  18 \18\UTC agosto \18\UTC 2009 às 00:00

    Não é bem um comentário e sim um convite.
    Estive com a Tessa Cardoso e procuramos por seu email… Sou representante dos Poetas del Mundo em Armação dos Búzios.
    No dia 22 de Agosto, estaremos fazendo um Encontro aqui com poetas de vários cidades do Rio de Janeiro e de outros Estados.
    Ela sugeriu que te convidasse… Bem Será no dia 22 de Agosto, às 16:30 na Praça Santos Dumont. – Centro de Búios
    TEremos o Coral Canto Encanto abrindo o evento, o ator Nivaldo Costa, interpretando Fernando Pessoa, récitas com poetas inscritos, e música com J. Barros.
    Às 20 horas, Jantar com Poesia no Restaurante Boom- Centro, Búzios.
    E no Domingo, outras programações.
    Se puder, venha!!!!
    A Tessa irá participar.

    Responder

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