Brincadeiras de crianças

16 \16\UTC março \16\UTC 2009 at 18:35 Deixe um comentário

Com meu nariz quebrado e septo obstruído, impedindo a respiração normal, não era de todas as brincadeiras infantis que podia participar. Futebol, por exemplo, era uma tragédia. Na hora de sortear os meninos para compor os times, os capitães torciam para que eu fosse sorteado para o time adversário. Meu fôlego curto, meu desajeito inato, nada me recomendava como atleta. O pior é que sendo sobrinho de um jogador profissional, Zé Henriques, que participava da equipe principal do Fluminense Futebol Clube, do Rio de Janeiro, achavam que deveria ter herdado seu talento em lidar com a bola. Pique, só o pique-esconde, que no de pegar eu era presa fácil.

    Brincava-se muito, no tempo a que me reporto. As ruas eram quase vazias, os carros andavam devagar e os motoristas eram mais cuidadosos. Era um escândalo o atropelamento de uma criança. Rodávamos pneus vazios ou aros de bicicleta com o apoio de uma vara de arame entortada na ponta. Os cachorros ainda corriam atrás dos veículos, na esperança de abocanhá-los. Só não sabiam o que fazer quando os veículos paravam.

    Os quintais, por sua vez, eram grandes, cheio de árvores frutíferas, onde as crianças subiam, se balançavam, se escondiam, brincavam de tarzã. Frutas que hoje raramente se vê ficavam à disposição dos fedelhos: sapoti, manécascata, jambo, carambola, vampiro, jaca, bananas e laranjas azedas. As frutas tiradas do pé ou apanhadas do chão são muito mais gostosas que as compradas em hortifrutis ou supermercados. Com uma seta, que muitos chamam de bodoque ou estilingue, caçávamos rolinhas. A seta não era como a de hoje, com forquilha de plástico. A nossa forquilha era escolhida cuidadosamente, de preferência de uma goiabeira, madeira dura, as borrachas eram cortadas de velhas câmaras de ar e um pedacinho de couro completava nossa arma.

    Nos quintais também aconteciam as brincadeiras em que as meninas participavam: cozinhados, batizados de bonecas – geralmente de massa ou galalite, um precursor do plástico – e de venda. Com um tijolo servindo de apoio e uma tabuinha atravessada sobre ele fazíamos uma balança onde pesávamos as mercadorias: caroços de frutas, vagens não comestíveis, pequenas mangas caídas no chão. Os pesos eram pedras. Com folhas de bananeiras rasgadas fabricávamos o dinheiro para as compras.

     Mas brincadeiras boas mesmo eram na rua, principalmente na avenida onde morávamos, sem riscos. Susto apenas quando desabou o muro da chácara vizinha e o cachorrão que ali vivia começou a nos ameaçar. Nessa ampla avenida, ainda existente em Campos, que se articulava com duas outras menores, muitas eram as crianças. As meninas brincavam de roda ou de passar o anel e às vezes os meninos participavam. Numa das avenidas menores havia um enfezado galo garnizé que a gente gostava de provocar. A velhinha que o criava partia então pra cima da gente com a vassoura em riste. Como era divertido! Melhor só jogar búrica, com bolas de gude como aposta.

    Não sei se as crianças de hoje, engordando diante de uma televisão, curtiriam tanto. Acho que sim. Criança gosta de imaginar, de criar e a televisão lhe dá tudo pronto. Havia na nossa infância um gosto de aventura ao vivo, que nos deixava com aranhões, cortes e hematomas, mas cansados e felizes. E eram poucos os gordinhos entre nós. Brincar faz bem à saúde e evita a obesidade.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

LÁ VEM O TREM choque de ordem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: