LÁ VEM O TREM

19 \19\UTC janeiro \19\UTC 2009 at 11:15 2 comentários

Barak Obama, presidente eleito dos EUA, seguiu para Washington, para tomar posse no Capitólio, pelo histórico caminho de ferro percorrido pelo ex-presidente Lincoln, em 1861, o que demonstra a importância deste meio de transporte ontem, hoje e sempre.

Como Obama, viajei muito no último vagão da velha Maria Fumaça que ligava Atafona a Campos, viagens que não saem de minha memória. O ramal sanjoanense da Leopoldina Railway, extinto como grande parte da rede ferroviária brasileira para ensejar a implantação e desenvolvimento do rodoviarismo no país, saía de Atafona bem cedo, parava em São João da Barra, que contornava por onde hoje se espicha o trecho urbano da BR 356, seguia para a beira-rio, trecho onde hoje é o bairro do Pedregal (ou Nossa Senhora de Fátima), parava em Barcelos, Martins Lage, e nos diversos pontos de leite, onde fazia uma parada rápida para recolher os latões de leite e alguns caixotes de hortifrutigranjeiros e finalizava na Estação do Saco, em Campos, viagem maravilhosa. Lenta, mas de incrível beleza, pelas paisagens das margens do rio Paraíba do Sul, que se descortinavam através de suas janelas de guilhotina. Esse mesmo ramal contribuiu decisivamente para a extinção das atividades de nosso porto pela segurança e preços baixos oferecidos.

A meu ver, a política de desmantelamento da rede ferroviária federal, foi um dos maiores erros do governo juscelinista. Países de dimensões continentais como o Brasil e seus companheiros do BRIC – Rússia, Índia e China – assim como os Estados Unidos, não podem prescindir do transporte ferroviário, dadas as grandes distâncias a percorrer. Outros países mantiveram suas redes e ainda as utilizam, simultaneamente com a malha de rodovias. Aqui, por certo, fortes pressões das montadoras de veículos rodoviários, que queriam se instalar no país com total garantia de sucesso, pois não admitem perdas, mesmo que temporárias, provocaram o absurdo desmantelamento da rede ferroviária brasileira.

Mas quero falar mesmo é da viagem de trem daqueles tempos, que saudade! Que eu saiba, nunca houve um acidente com vítimas, fatais ou não, em nosso ramal. Todo dia a composição saía de Atafona em direção a Campos, de onde voltava à tarde. Aos domingos havia o famoso “trem passeio”, que trazia os banhistas para curtir a praia de Atafona. O trem trazia diariamente jornais e revistas, e veranistas, gente bonita e alegre, o que provocava o “footing” da garotas e garotos que iam esperar a composição. Ali surgiam flertes que duravam todo o verão ou só aquela tarde. Ou evoluíam para casamentos.

A viagem, como tudo na vida, tinha alguns inconvenientes. O sacolejo constante pelo deslizar nos trilhos, a lentidão, as paradas para embarque, desembarque e reabastecimento de água e lenha, que às vezes demoravam mais que o previsto, a fumaça, as fagulhas e o pó de carvão que entravam pelas janelas. Lembro-me que nas viagens para o Rio – a baldeação era feita em Campos, pois dava tempo para os passageiros oriundos de São João da Barra pegarem o expresso para o Rio – os homens vestiam guarda-pós brancos e chapéus, e quando a família viajava junta era comum levar um franguinho assado, arroz e farofa, para comer no caminho. A viagem para o Rio levava no mínimo nove horas.

Não havia engarrafamentos e as paradas eram divertidas. Vendedores de doces e salgados corriam pela plataforma anunciando: papa, pamonha, bolinho de arroz, puxa-puxa, alfenim, bombocado, mariola e outras delícias que praticamente deixaram de ser fabricadas. Chovesse ou fizesse sol lá estavam eles com seus tabuleiros e seus gritos esganiçados. Que pena ter acabado. E como faz falta o agudo apito da locomotiva na distância e a voz das crianças gritando, excitadas: lá vem o trem! (SJB, 19/01/2009)

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

NÃO À CORRUPÇÃO Brincadeiras de crianças

2 Comentários Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  7 \07\UTC fevereiro \07\UTC 2009 às 14:48

    Amigo Carlos Sá,
    Passei no seu blog para matar as saudades de você.Como essa memória do trem ainda está viva entre nós e nos causa um verdadeiro senso de nostalgia! Quando quero imaginar esse tempo “férreo e perpendicular” volto no tempo indo à Maria Fumaça do SESC – Mineiro em Grussaí! Dá pra sentir um gostinho, mesmo que seja por poucas horas…

    Grande abraço
    Andre Pinto

    Obs.Posso colocar seu blog na lista de favoritos de meu blog?

    Responder
  • 2. Antônio Nunes  |  27 \27\UTC fevereiro \27\UTC 2009 às 18:04

    Amigo, parabéns pela crônica Lá vem o trem. Oportuníssima abordagem da grande besteira que foi a extinção dos ramais ferroviários para beneficiar a indústria automobilística americana e os transportes por caminhão. Comungamos o mesmo pensamento. E nossos presidentes (de Jânio pra cá) ainda se declaram nacionalistas! Abraço do Tonunes.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: