Debaixo dágua

14 \14\UTC dezembro \14\UTC 2008 at 09:43 Deixe um comentário

Não vou falar deste verão aquoso, que quase afoga as férias.

O título da crônica se deve ao fato de estar debaixo do chuveiro, no fim da tarde, quando me veio a idéia de estar lavando não apenas o corpo cansado de bater pernas atrás de fotos dos blocos e escolas de samba, mas também a alma.

Não que ela esteja suja, a esta altura da vida são poucos os fatos e feitos de que me arrepender ou censurar. Uma olhada mal intencionada aqui, um pensamento lúbrico ali, nada por culpa minha, mas de quem os provocou. Conseqüências.

Resolvo, enquanto a água me escorre pelo corpo, fazer uma espécie de balanço, com base nos chamados sete pecados capitais. Ou capitosos, talvez a tradução correta. Fazer como nos velhos tempos em que eu, ajoelhado no confessionário, ficava escarafunchando a idéia para dizer alguma coisa à criatura que ficava na sombra, esperando um motivo para me encher de penitências. Como agora, os pecados eram tão poucos e tolos, que era difícil relatá-los. Os que a igreja considerava capitais ninguém jamais contava e os outros, como xingar a mãe do colega, olhar as pernas e os peitinhos da vizinha com más intenções, tacar pedra na vidraça da casa ao lado, fazer má-criação, eram tão simplórios que irritavam o calejado padre. O que queria ele ouvir não era dito. Esse menino ou é retardado ou acha que sou bobo, devia pensar o exausto pastor de almas.

Voltando ao heptálogo pecaminoso, não acho muito que dizer, esquecimento, coisa da idade. Sempre fui magro, embora comesse muito e de tudo, a ponto de meu pai dizer que minha barriga era o caldeirão do inferno. Era guloso. Naquele tempo o que se comia muito eram frutas da terra, banana caturra, laranja azeda, jaca mole, carambola, cana caiana, essas delícias, pois no mundo em que vivi nada se sabia de hambúrgueres, pizzas e outros acepipes que fazem a festa dos gorduchinhos. Era uma gula natural, sadia, reposição de energia. Se bem me lembro, éramos magros na maioria, de tanto correr, brincar pelas ruas, pelos quintais, subir em árvores. Atingi tal esbelteza que minha avó dizia não saber qual dos ossos dos meus ombros furaria a pele primeira. E tome purgantes, bentônicos, calcigenóis e que tais. No inverno, óleo de fígado de bacalhau, argh!, injeções de cálcio e gadusan na veia, para não pegar uma fraqueza, eufemismo que designava a tuberculose, ainda endêmica, pavor das mães.

Quanto à luxúria, restam traços, as uvas ficaram verdes. Vale lembrar?

Ah, a preguiça!…numa tarde calma dessas, com o vento nordeste a amenizar os calores de fevereiro e uma rede na varanda, quem resiste? Estou com um romance parado desde que o verão começou, sem ânimo para retomá-lo. Talvez no inverno, quem sabe…

De inveja não sofro, ou melhor, só um pouquinho, de quem escolhe o prato, leva para a mesa e o devora, se é que me entendem. Devo incluí-lo no item luxúria?

Se o que ganho dá para viver confortavelmente e realizar algumas de minhas fantasias ou sonhos, por que invejar a celebridade que não tem sossego, que agüenta desaforos e cantadas de quem não lhe agrada? Que não tem privacidade? Por que invejar o dono de um carrão, se nunca quis ter nem ao menos um carrinho, se adoro andar a pé?

De orgulho, só um pouquinho, de algumas coisas que escrevi, de algumas iniciativas que tomei, de nunca ter prejudicado ninguém, pelo menos conscientemente, de ser honesto e leal às amizades. Nesse caso, não sei se devo sentir orgulho ou me considerar anacrônico.

Por conseqüência não sou soberbo, principalmente quando me olho no espelho.

Já a ira…também não é assim tão grave, minha raiva é de pouca duração, geralmente acabo por descobrir motivos para relevar o que me tirou do sério, quando não para terminar por achar que a culpa, na realidade, é minha. No mais das vezes sinto raiva de mim.

No momento, a única coisa que me deixa furioso, é o som alto. Dá vontade de pegar o dono do carro ou o vizinho que me obriga ouvir o que não quero ou não gosto em som altíssimo e pendurá-lo pelos pés na praça, com microfones nos ouvidos, ligados ao mais potente som do mundo até ficar como Elton John, com seqüelas auditivas depois de tanto gritar nos ouvidos alheios. SJB, 22/02/08

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ANTIGAS EXPRESSÕES NÃO À CORRUPÇÃO

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