ANTIGAS EXPRESSÕES

26 \26\UTC novembro \26\UTC 2008 at 21:11 1 comentário

Hoje praticamente não se ouve falar em “golpe de ar”, “vento encanado” e outras expressões de terror materno semelhantes. No entanto, há uns tantos anos eram expressões corriqueiras, que assombravam mães e avós. Na época em que a tuberculose grassava, sem perspectiva de cura, era preocupação constante. Temia-se que o golpe de ar ou o vento encanado fizesse uma pessoa adoecer de “fraqueza dos pulmões” ou tísica, eufemismos para designar a tuberculose. A tuberculose era incurável e muita gente morreu por causa dela. Principalmente os jovens, sem juízo, destemidos, descuidados. Nunca se pronunciava o nome da doença, achando que isso a atrairia. Como a palavra câncer hoje. A penicilina, popularizada depois da 2ª Guerra Mundial afastou o pesadelo materno.

    

Era comum ouvir pela casa:

– Menino, sai desse corredor, olha o golpe de ar.

– Sai daí, meu filho, cuidado com o vento encanado! Vai se constipar!

     Quando alguém adoecia, fosse de uma simples gripe ou diarréia, as janelas do quarto eram hermeticamente fechadas, não fosse entrar um vento encanado e piorar o quadro do paciente. Um golpe de ar podia transformar a gripe em pneumonia.O doente não podia deixar a cama e suas necessidades fisiológicas eram feitas nos urinóis (penicos).Os quartos ficavam com um ranço terrível, mistura de roupas usadas, suor, urina, remédios e frutas. Por qualquer mazela ficava-se acamado.     

     Nessa época maçãs e pêras eram frutas para doentes. Como eram importadas da Argentina ou Chile, seu preço era caro e não freqüentavam o dia a dia da classe média sadia. Quando alguém ia visitar um doente, passava antes numa confeitaria – frutas especiais não eram vendidas em quitandas – comprava uma pêra, uma maçã, um cachinho de uva, que eram devidamente acondicionados num pratinho de papelão. Flores nem pensar, era de mau augúrio levar flores para doentes.

     Havia outros motivos para as ansiosas mães se preocupar. Lombrigas, por exemplo. As crianças, obrigatoriamente, tomavam purgante de óleo de rícino todo ano para acabar com elas. Antes de dormir, a criança recebia uma mariola, que deveria colocar debaixo do travesseiro, para comer depois do purgante. Muitas não resistiam e comiam antes. E iam dormir com o gosto do purgante na boca, que era horrível. E pela madrugada, a criança era acordada pelos pais e obrigada a engolir uma colherada daquele remédio pior que a doença. Muitas vomitavam e tinham de tomar outra dose.

– Gente, olha a barriga desse menino! Deve estar cheia de lombrigas! alertava ma vizinha.

     No dia seguinte esperava-se o efeito do purgante. Penico ao lado da cama, mãe ansiosa, a criança evacuava o dia inteiro. A mãe vistoriava as fezes para ver se as lombrigas tinham sido expelidas. Era terrível a visão daquelas minhocas esbranquiçadas se contorcendo no fundo do urinol. Algumas ficavam presas no ânus e a mãe já tinha em mão um pano limpo para puxá-las. Era uma das experiências mais constrangedoras da infância. Durante 24 horas a criança só comia biscoitos de maisena ou bananas amassadas com aveia. Nada de comida. A barriga roncava de fome. Mas as mães eram inflexíveis, comida só no dia seguinte.

     A febre tifo, contraída no manuseio da água servida, misturada à da chuva, que corria pelas sarjetas, onde as crianças brincavam com barquinhos de papel era outra ameaça. As mães tinham de ficar de olho, pois o tifo contribuía para aumento da mortalidade infanto-juvenil. Os avanços da medicina, com antibióticos, vermífugos com gosto de morango etc, acabaram com esses tormentos.

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A MESA Debaixo dágua

1 Comentário Add your own

  • 1. Paulo Noel  |  21 \21\UTC março \21\UTC 2009 às 18:32

    Carlos. Boa noite! Outro dia, estava reclamando que deixaram a janela do meu quarto aberta quando sai do banho. Usei a expressão. “Vou acabar me gripando! Você viu o golpe de “ar” que me atingiu”. Fiquei rindo sozinho com seu artigo. Grande abraço do Paulo Noel

    Responder

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