A MESA

19 \19\UTC novembro \19\UTC 2008 at 20:04 1 comentário

A enorme mesa ocupava quase todo o comprimento da sala, uma das cabeceiras a poucos metros do fogão de lenha sempre aceso e, a cerca meio metro da parede oposta, a cabeceira ocupada do pai. Era feita com duas largas tábuas de grossa madeira de lei, brilhosa pelo contínuo esfregar de mãos, braços, cotovelos, pratos e talheres, toalha só em dias de festa.

   

Dois bancos inteiriços, de igual tamanho a ladeavam. Ali se sentavam os filhos, noras, parentes, agregados e visitantes. As crianças comiam no chão, perto da porta que dava para o terreiro, em meio a cachorros, gatos, galinhas atrevidas e galinholas ariscas. Na outra cabeceira devia sentar-se a mãe, o que só de raro em raro acontecia, pois ela aprendera com a mãe, que aprendera com a avó, que a dona da casa só se sentava quando todos estavam servidos. O que era difícil de acontecer, havia sempre um prato de comida que se esvaziava, o jarro dágua a ser reenchido, a cuia com a farinha de mandioca que não parava cheia, o talher a ser trocado, enfim, a mãe comia junto com as empregadas, o que sobrava, depois que todos haviam deixado a sala.

    Os pratos de comida vinham em série, primeiro a terrina de feijão, o pratarraz de arroz, o macarrão em pedaços, a carne ensopada fumegando, a assada em molho ferrugem, os bifes, bem passados como solas de sapatos, a farofa amarelinha de colorau, os ovos fritos, os peixes de água doce, também fritos, a batata cozida e a frita, aipim frito, couve cortada miudinha, uma salada pífia, com pálidas e retorcidas folhas de alface rodeando pequenas rodelas de tomate, quiabo ensopado, chuchu de diversos modos, inhame e, quando havia carne de porco, uma travessa das grandes com torresmos. E às vezes não chegava pros comensais. Tudo, verduras e legumes, colhidos na própria fazenda.

    Contado assim parece meio fantástico, pantagruélico, mas era o dia a dia da fazenda, comida de montão, acompanhada de bananas. As laranjas eram pequenas e azedas. Como se comia! Só de filhos eram mais de dez, alguns casados e com filhos, os agregados eram indispensáveis à postura de grão senhor do pai, parentes e visitantes apareciam sem avisar. E nada podia faltar. O fogão nunca se apagava.

   O pai era o primeiro a se servir e suspiros de alegria enchiam o ar quando ele despejava a concha de feijão em seu prato. As crianças, em pé em volta da mesa, apertavam os pratos de ágata, olhos brilhando e um fio de baba escorrendo no canto da boca. Se uma ousava estender o prato, ansiosa demais, levava um tapa na mão. Os adultos se mexiam nos bancos, inquietos, sorriam bobamente, faziam comentários desnecessários para fazer o pai sorrir. Os cachorros rodeavam a mesa, impacientes, se roçavam nas pernas dos comensais, erguiam o focinho brilhoso para abocanhar o cheiro ou algum pedaço de carne mais duro que alguém lhe jogava discretamente. Os gatos, manhosos, ficavam deitados nos peitoris das janelas, a olhar dissimulados a comezaina. Animais que desconheciam a existência de rações e só iriam comer direito ao roubar um pedaço do prato das crianças quando elas se sentassem na soleira da porta ou as empregadas jogassem o que sobrara no terreiro, restos duramente disputados com porcos e galinhas.

     Um pequeno arroto do pai mostrava sua satisfação. Barriga cheia, estufada, olhava complacente a mesa repleta de sorrisos gordurosos e queixos cansados. Sorria então e se levantava. Poucos o seguiam, às vezes um compadre, uma visita mais cerimoniosa ou alguém interessado em continuar a conversa de negócios. Na fresca varanda a rede esperava. O pai circunvagava o olhar mortiço pelo campo em volta, batia de leve na barriga, soltava um outro arroto, um pouco mais forte, podia se dar essa liberdade, as mulheres não estavam presentes. Seu olhar buscava a cadeira de balanço, onde ia saborear o café e pitar o cigarrinho de palha. A brisa o empurrava para a rede, as pálpebras ficavam pesadas, precisava tirar uma pestana, pouca coisa, só pra fazer a digestão. Os compadres e visitas conheciam a rotina, agiam assim em suas casas, sentavam-se nas cadeiras e assim que o pai deitava-se na rede fechavam os olhos por momentos sempre atentos ao despertar.

    Na sala vazia, as empregadas recolhiam os destroços da refeição. As crianças tinham fugido para o quintal, a ordem era não perturbar o descanso do chefe da família. O resto do povo se espalhava, uns voltavam às suas fainas, outros bocejavam ou iam para os quartos. No centro da sala, a mesa recebia os retardatários, a mãe, as empregadas, e novamente os cachorros que insatisfeitos com  o pouco de comida que puderam abocanhar, voltavam a rondá-la.

 

 

 

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DIVAGAÇÕES À BEIRA DO PARAIBA ANTIGAS EXPRESSÕES

1 Comentário Add your own

  • 1. Ademir Moore  |  14 \14\UTC dezembro \14\UTC 2008 às 10:35

    Carlos:
    Seu artigo me trouxe ótimas recordações…
    Lembrou-me velhos tempos, quando ia para a casa do meu avô, na localidade denominada Funil, hoje município de São Francisco de Itabapoana. Realmente existia uma mesa muito grande, com dois bancos nas laterais e duas cadeiras nas cabeceiras. Essas cadeiras eram utilizadas, uma pelo meu avô e a outra pela minha avó. Quando chegavam visitas, a cadeira da minha avó era usada pelo chefe da família visitante.
    Existiam duas curiosidades: um macaquinho de madeira na porta que tinha um cofre, quando se depositava alguma moeda, o macaquinho se inclinava a tirava o chapéu agradecendo o depósito efetuado. A outra curiosidade era um buraco que tinha no assoalho, que era usado para que entrasse e saísse uma cobra jibóia. A cobra saia a noite para alimentar-se e, durante o dia, permanecia sob a grande mesa. Quando sem querer a tocávamos com os pés, ela emitia um chiado assustador.
    Obrigado pelas recordações que me proporcionou com seu artigo.
    Parabéns pelo blog!
    Forte abraço!

    Responder

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