DIVAGAÇÕES À BEIRA DO PARAIBA

11 \11\UTC novembro \11\UTC 2008 at 11:00 Deixe um comentário

Na manhã nublada saio para comprar o jornal, ritual diário indispensável. Caminho por uma rua do Rosário quase deserta, rua que nos tempos do auge do porto foi uma das mais movimentadas da cidade. Nos 37 sobrados recenseados por um jornal da época, moravam proprietários de navios, armadores, exportadores, abastados comerciantes e altos funcionários das Companhias de navegação. Paralela à rua Boa Vista (beira rio), que acompanhava a linha do cais de atracação, era o local ideal para eles morarem.

    

Circulo a praça do padroeiro sempre ao lado do ainda magnífico rio Paraíba do Sul, emoldurado pelas ilhas, pelo manguezal e pelo céu, quase sempre de um azul tão puro que parece cristal. Poucas traineiras e botes singram suas águas, outro contraste com o movimento intenso de embarcações nos anos de ouro, quando cerca de 75 navios, sumacas, patachos, iates e pranchas trafegavam em meio a bandos de biguás famintos e garças senhoriais. Os biguás (mbiuás) partiram e poucas garças permanecem.

     Tudo passou, mas a bela vista do rio ainda lava a alma. Mesmo agora, enfraquecido pela brutal e constante transposição de suas águas, a começar pelos 60% de sua vazão para o Guandu-mirim na década de 40, ainda se mostra majestoso, como um rei no exílio. No momento se mostra inchado pelas torrenciais e constantes chuvas deste verão, suas águas barrentas carregadas dos sedimentos que ajudaram a construir a planície goitacá.

    No bloco de cimento que restou dos prédios geminados da Companhia de Navegação São João da Barra-Campos saltam peixes apavorados com o aumento do volume das águas. Um sapo de olhos arregalados tenta se agarrar às pedras do cais que o Barão de Barcelos mandou construir, mas suas ventosas não conseguem se firmar e segue, arrastado pelas águas revoltas. Pelo meio do rio desfila um amontoado de plantas, arrancado das margens, a caminho do mar. Por sorte pode esbarrar nas pontas do balsedo inundado e estacionar. Como turista despreocupado, sobre ele viaja um bem-te-vi lampeiro que, de vez em quando, grita seu clássico aviso. Um, gozador.

    Na ilha inundada nem sinal da boiada costumeira, os espera-marés, guaimuns e caranguejos, acostumados a essas invasões no verão, escalaram as árvores do mangue. Quando pequeno cansei de ver boiadas mergulhadas até o focinho, atravessando o rio a nado, tangidas por vaqueiros em canoas. As aves voam e piam, desorientadas, aflitas, não sabem se caçam seu alimento ou pousam. A força recuperada pela água morena assusta todos os que dela se aproveitam. É sua forra.

    Na impassibilidade de seus mais de 200 anos, o prédio deteriorado da antiga Casa de Vereanças e Cadeia Pública, a tudo assiste. Já viu enchentes piores, como a de 1966, quando a água invadiu as ruas. Apesar de sólido, o prédio não serve para mais nada de útil, seus salões e celas que abrigaram tantos dramas e injustiças nem para museu são aproveitadas. Mas em época de carnaval suas janelas viram camarotes privilegiados de autoridades. Seus beirais continuam dando abrigo às andorinhas.

    Caminho absorto, pensando e revivendo tempos que não vivi. Sob a cadeia, dizem, nunca vi, há um fojo – túnel que sai no rio – utilizado por prisioneiros para escape. Há pouco tempo morreu Nonô, o último carcereiro. Um velhinho risonho e conversador, folião criativo dos últimos os carnavais, carnavais que também mudaram, nem sempre para melhor. Difícil, ao conversar com Nonô, fantasiado de mulher, imaginar que serviu como carcereiro algum dia.

    Tudo muda, às vezes imperceptivelmente, como o envelhecer do ser humano e a decadência de um prédio, às vezes brutalmente, como o antes movimentadíssimo porto do mercado, ora com seu cais soterrado por montes de terra, onde plantaram uma amendoeira e construíram uma academia de ginástica na sua sombra. Ali, jovens puxam ferros na esperança de atingir o ideal estético de nossa época: peitorais que parecem marquises e braços da grossura de coxas das antigas vedetes do teatro rebolado. No tempo do porto, as mulheres preferiam homens que cultivavam outros dotes. Os belos peitos e coxas eram atributos delas.

   Finalmente eis o mercado, de risco arquitetônico delicado demais para abrigar barracas de peixe e verduras, hoje transmudado em Centro Cultural Narcisa Amália. Lá adiante, o renque de palmeiras imperiais, plantadas para marcar a visita do imperador Pedro II, com seus penachos acariciados pelo vento nordeste, abandonadas, caindo uma a cada vez, a pontuar a indiferença de uma cidade que parece odiar seu glorioso passado. SJB,10/01/07

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UM CARNAVAL QUE PASSOU A MESA

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