UM CARNAVAL QUE PASSOU

7 \07\UTC novembro \07\UTC 2008 at 10:08 3 comentários

Foi um carnaval de muita, muita chuva, talvez o mais chuvoso de toda a minha vida.  Durante todo o reinado de momo (via o chavão!) choveu torrencialmente.Lembro o céu cinza escurecendo o rio, a chuva caindo, poucos períodos de estiagem, as ruas vazias, de noite e de dia. Uma tristeza para esse povo tão festeiro, que espera o carnaval com ansiedade.

    Poucos mascarados ousaram sair à rua e logo retornaram para os bares, entanguidos. Os dominós, figuras marcantes dessas festas, devolveram as fantasias aos armários. O bloco União das Flores não saiu. Como cantar e dançar naquelas fantasias de papel crepom debaixo do aguaceiro? Iam derreter antes de chegar na praça, tingindo a pele das meninas com as variadas cores das flores. As crianças permaneceram em casa, olhando desoladas a água que não parava de cair do céu.

    Não me lembro do ano, sei que foi na década dos 50. Choveu pra valer o carnaval inteiro. Os blocos noturnos, que viriam a se transformar nas escolas de samba pra turista, não puderam evoluir graciosamente ao som dos langorosos ranchos de compositores da cidade. Uma pena! Adorava ver as filas de moças fantasiadas, portando alegorias, cantando e de tempos em tempos, ao toque de um apito, circulando em torno do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Carnaval caseiro, simples, com ritmo próprio, gostoso, onde a comunidade participava, dançando ou aplaudindo. Sanjoanenses que viviam fora voltavam para vê-lo.

    Da janela do sobrado da praça onde morava, eu olhava aborrecido a chuvarada. Droga! Minhas irmãs já nem pensavam no assunto, entretidas em ler ou escutar música na radiola da sala de visitas. Mas eu, que estava morando no Rio, que lá passara todo o ano, enfrentara uma desconfortável e demorada viagem de ônibus dias antes, não me dei por vencido. Havia os bailes nos clubes, oba!

     Os clubes sociais da cidade merecem uma crônica à parte. Eram três: o Democrata, freqüentado pela elite, o Operários pela classe média e o Congos, preferido pelo povão. Não sei se pela frustração de ter sido um dos mais movimentados portos do estado e se transformado numa quase cidade fantasma com o fim das atividades navais e saída dos que foram em busca de novas oportunidades, o povo que ficou passou a desenvolver paixões desenfreadas pelas coisas boas que restaram: futebol e carnaval. Essa rivalidade provocou situações hilárias e trágicas que um dia contarei. Hoje essa rivalidade nociva se concentra nas eleições municipais, quando adversários políticos se transmudam em inimigos pessoais, causando rompimento de velhas amizades e divisões familiares. Às vezes levam a ódios que duram toda uma vida e muitas vezes passam de pais para filhos.

     Nessa época a cidade estava em plena decadência, pouco comércio, apenas as fábricas de bebidas e de vassouras e a prefeitura ofereciam empregos estáveis, nem sempre bem remunerados. Não havia perspectiva de melhoras, uma pasmaceira. As posições na sociedade pareciam ter se estratificado para sempre. Os clubes se tornaram discriminatórios. Quem era sócio do Democrata não freqüentava o Operários e alguns eram tão radicais que mudavam de calçada para não passar em frente ao clube rival. Quem torcia por futebol então…nem se fala.

    Na flor da idade (viva o chavão de novo!), hormônios circulando furiosamente pelo corpo magro, não quis ficar em cassa. Dobrei a bainha da calça para dentro, para não sujá-la nas poças, peguei o guarda-chuva e me toquei para o Operários. Ia-se a bailes de carnaval e camisa social e calça comprida. Os clubes discriminavam os freqüentadores por tudo e por nada: cor, posição social, parentesco, aparência e por aí a fora. Nessa noite chuvosa, enquanto o conjunto musical tocava para poucos e corajosos foliões, deixando grandes claros no salão, sofri uma inesperada decepção. Um dos diretores, amigo do meu pai, levou-me discretamente para um canto e disse que minha calça estava curta e não ficava bem dançar assim. E era carnaval. Chocado, nem me lembrei de lhe dizer que dobrara a banha da calça. Um vexame. Saí de fininho e só voltei ao clube quando nova diretoria tomou posse.

   Naquela noite choveu na cidade e no meu orgulho. E meu carnaval se acabou.

SJB, out/08

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As aranhas do Paraíba DIVAGAÇÕES À BEIRA DO PARAIBA

3 Comentários Add your own

  • 1. Murilo Henriques  |  9 \09\UTC novembro \09\UTC 2008 às 00:12

    Seus escritos são mesmo muito bons, ótimos! Realmente, gosto muito do seu estilo simples e direto. Para mim, é sempre um grande prazer ler o que vc escreve.

    Responder
  • 2. Ademir Moore  |  1 \01\UTC dezembro \01\UTC 2008 às 12:14

    Finalmente consegui acessar o site!
    Assim como Murilo, que fez o comentário anterior, realmente é um grande prazer ler o que é escrito por Carlos Sá.
    A partir de hoje serei um freqüentador diário do site.
    Parabéns, Carlos Sá, por nos proporcionar leituras tão maravilhosas!
    Forte abraço!
    PS: Aproveito para pedir que acesse nosso blogspot, cujo link e: http://sjbemacao.blogspot.com/

    Responder
  • 3. JORGE BENEVIDES  |  3 \03\UTC dezembro \03\UTC 2008 às 11:40

    gostei do que li nao so pela riqueza dos detalhes como tb pela saudade q bateu de uma sjb de antes

    Responder

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