As aranhas do Paraíba

3 \03\UTC novembro \03\UTC 2008 at 13:25 Deixe um comentário

O rio Paraíba do Sul proporciona inesquecíveis momentos de beleza e paz a quem freqüenta suas margens. Também fornece alimento e trabalho para as populações ribeirinhas, apesar do peixe estar se tornando escasso. Seus manguezais são berçários da vida marinha e fluvial. Fertiliza as terras durante as cheias periódicas e promoveu o desenvolvimento da indústria do açúcar desde o século XVIII, época em que começou a se transformar na grande via, por onde os europeus colonizaram essa ampla região e ensejou o surgimento de uma portentosa indústria naval e de navegação que durou até a primeira guerra mundial.

Estamos falando apenas da região que envolve seu delta, um dos maiores do país.  Nem lembro seu curso médio, onde foi implantado um portentoso pólo industrial. Da foz à nascente, o Paraíba do Sul tornou produtiva e rendosa a região que atravessa.

    O Paraíba do Sul, por sua utilidade, desde sempre sofreu abusos do ser humano, exceto dos goitacás, que pouco ou em nada alteraram seu leito. Os indígenas não haviam sido tocados pela ambição, não quiseram transformar o rio em fonte de riqueza, custasse o que custasse. Como custou a existência do surubim do Paraíba, peixe delicioso, outrora abundante em todo o seu curso e atualmente restrito a bolsões perto da nascente a ao Projeto Piabanha, que consegue reproduzi-lo em cativeiro, evitando sua extinção, que parecia inevitável.

     Esse belo e explorado rio é uma sombra do que foi. Graças à atuação descontrolada e predatória do homem, teve sua vazão drasticamente diminuída para fornecer água potável a populações a uma certa distância, suas águas turvas viraram depósito de esgotos in natura e dejetos industriais, foram sugadas para gerar energia e irrigar projetos agropecuários. Tudo sem planejamento, sem pensar no futuro, como se o rio fosse auto renovável. Houve tempo em que suas águas adentravam o mar nos braços de Gargaú e de Atafona; hoje é invadido por uma língua salina que já ultrapassa a Usina Barcelos. Peixes exclusivos do mar são pescados em seu leito.

    Diversas entidades foram criadas elos governos para salvá-lo da exploração destrutiva do homem. Temos Ceivap, Agevap, não sei o que vap, que nada fizeram senão criar a cobrança de tarifa pelo uso da água. Recurso que deveria retornar sob a forma de benefícios que minimizassem a prática predatória. No delta, pelo menos, não se sente qualquer mudança. Só ameaças. As Hidrelétricas, que eram cinco, vão ser acrescidas de mais duas ou três. Novos reservatórios reterão as águas e propiciando o surgimento de algas vermelhas, azuis, amarelas, tóxicas para o seu humano. A população parece insensível às ameaças.

    E de seus gabinetes com janelões de vidro e ar condicionado os executivos das empresas criadas para cuidar do rio continuam a permitir novos abusos contra o que lhes permite viver. São como os filhos das aranhas, que devoram a mãe tão logo nascem.

    Somos as aranhas do Paraíba e ao devorá-lo comprometemos o futuro. Rio, out/08

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A MESA UM CARNAVAL QUE PASSOU

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