A SEMANA PASSA

20 \20\UTC outubro \20\UTC 2008 at 15:53 2 comentários

A semana passa depressa e a gente nem percebe que envelheceu mais um pouco, que está mais cansado e desiludido e mais próximo daquela hora em que não se sabe o que acontece, como acontece e o que vem depois.

    Hoje é quinta-feira, ainda ontem era domingo, dia de uma cervejinha, pouca para não acumular ácido úrico no organismo, que vai inflamar as juntas e doer pra burro. O que aconteceu nesses dias? O que deixou de acontecer se era tão esperado? Nada e tudo aconteceu. O mundo ficou um pouco mais violento, mais injusto, mais poluído, e nossa vida menos prazerosa ao saber que nas estradas morre-se á toa, num descuido, por uns goles a mais, por bravata, por pressa, por insensatez. Sofre-se ao pensar que por ganância o homem desmata, massacra minorias, comete injustiças, faz de tudo para a vida ficar insuportável. Até mesmo para eles.

     O sol que se reflete no rio é o mesmo de ontem, mas o rio não é o mesmo, as águas passaram, outras vieram, alguns peixes foram pescados, outros asfixiados por alguma substância tóxica, plantas foram afogadas, arrancadas, paisagens mudadas. Nada sobrevive intacto. Como acontece com as amizades que a gente fez ao longo da estrada da vida e por um momento paro para lembrar a turma do ginásio, a do científico, a da faculdade, onde estão todos? Estarão todos aí, ainda na luta? E as namoradas, por onde andarão, terão se casado, são mães, são felizes? Se lembram de nós? Como, se quando a gente tenta reconstituir um rosto, um abraço, um afago, tudo fica turvo, borrado, impreciso? Por que então os grandes amigos e as lindas namoradas que ficaram pelo caminho se lembrariam de nós? E o grande amor, onde foi parar?

    E nós, somos os mesmos? Por onde se perderam os ideais, os planos, os projetos? Por que a vida tem tanto prazer em contrariar nossas expectativas? Mesmo para aqueles que acham que se deram bem, será que se deram bem no que queriam? Será que apesar do fausto, do sucesso, da paz, estão onde queriam estar? Realizaram seus sonhos ou apenas os projetos que a própria vida lhes impingiu? Alguns sofreram mudanças tão radicais – consentidas ou não – que ficaram irreconhecíveis. E irreconhecentes.

    Numa tarde vazia de uma quinta-feira, os pensamentos não são estimulantes. Amanhã o sol nascerá ou nuvens cobrirão o céu, com variantes previstas. Mais uma vez o que se esperava não acontece ou acontece de forma diferente da desejada. E não há como mudar isso. Nem como se conformar.

    E como a cerveja está proibida, último derivativo, o entorpecimento terá de vir de onde? Buscar dentro da gente razões para se alegrar é difícil, cai-se sempre na melancolia, nas lembranças idealizadas de tempos que não foram tão bons como agora parecem. O pior são as cobranças, por que não agi assim, por que tratei fulano assim, porque agi assim ou assado, por que não me rebelei e arquei com as conseqüências, por que, por que, por que?

    A semana passa despercebidamente, assim como a vida e o tempo. Novas caras, novos amigos, novos projetos, novos sonhos, apesar das limitações, das dificuldades impostas pelo envelhecimento. Parar de sonhar? Jamais.

    A semana passa, a vida passa, o tempo passa. Um dia passaremos também. (SJB, 24-25/07/08

 

 

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Crônica econômica sanjoanense A MESA

2 Comentários Add your own

  • 1. Júlia  |  22 \22\UTC outubro \22\UTC 2008 às 16:10

    As crônicas de Carlos Sá nos deixam sem fôlego, meio fora de órbita. Li e fiquei aqui, olhando para o micro, só lembranças, pensamentos distantes, por longos 10 minutos, até tentar escrever alguma coisa. E não vou conseguir, claro. Obrigada, mestre, por nos brindar com este blog. Já estou perto de completar 3.9, mais de 1/3 na rotina das redações de jornal, e ainda sonho que quando crescer vou ser igual a você.

    Responder
  • 2. Jefferson  |  26 \26\UTC fevereiro \26\UTC 2009 às 15:24

    Pois é, últimamente, acho que há muitos anos, sinto o mesmo. Acho que descobri com a crônica de Carlos, que fiquei velho sem perceber.

    ótimo texto, relata o que deve ser uma bela crônica.

    Responder

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