Crônica econômica sanjoanense

18 \18\UTC outubro \18\UTC 2008 at 11:43 Deixe um comentário

A história econômica sanjoanense começa quando Portugal, depois de ter deixado por muitos anos as terras que descobrira sem qualquer utilização, entregue à sanha de exploradores de outros países, especialmente franceses, que vinham em busca de pau brasil e outras preciosidades, resolve por fim voltar seus olhos para o Brasil e o divide em capitanias hereditárias e as doa a fidalgos portugueses para povoar e administrar.

    O fidalgo Pero de Góes da Silveira recebe de D. João III a capitania da Paraíba do Sul, com 30 léguas de costa, entre as capitanias de São Vicente e do Espírito Santo, em 1536. Depois de viagem de reconhecimento pelo litoral de suas terras, Pero de Góis desembarcou em 1539 na enseada do Retiro, ao sul da barra do rio Itabapoana e ali ergueu a Vila da Rainha com engenhoca, capela e casas, que dedicou a Santa Catarina; hoje a  região pertence ao município de São Francisco de Itabapoana, emancipado do nosso em 1996.

     Começava ali a tentativa de se produzir açúcar na colônia, produto de alto preço na Europa. Só que não deu certo.Os goitacás, que durante algum tempo, se mantiveram como observadores, entraram em choque com os novos moradores por causa de maus tratos e trabalho escravo e, durante uma viagem de Pero de Góis a Portugal em busca de sócio, arrasaram a vila e a engenhoca. Pero ainda tentou reativar a engenhoca, mas depois de uma luta que durou cinco anos com os indígenas, voltou para Portugal, em 1548.

     Na sua ausência, aventureiros ingleses se estabeleceram no local, unindo-se aos índios. Após a expulsão dos invasores, em 1630, Gil, filho de Pero de Góis, associado a João Gomes Leitão, tentou retomar a produção de açúcar, mas os conflitos com os índios recomeçaram, novamente por questões de maus tratos, e a vila foi novamente destruída. Terminou aí a primeira tentativa de explorar economicamente as terras sanjoanenses.

    A produção açucareira no município só teria sucesso um século depois.

    Enquanto isso, em 1622, um grupo de pescadores de Cabo Frio, liderados pelo pescador e comerciante de artigos de pesca, Lourenço do Espírito Santo, estabeleceu-se em Atafona, na foz do Rio Paraíba. O pescado era abundante e o peixe salgado era exportado para outras regiões. Com a morte por afogamento de sua esposa, em 1630, Lourenço sobe o rio com seu pessoal e a cerca de quatro quilômetros da foz estabelece a povoação no local mais alto da margem direita, onde reza a lenda, havia um pouso de tropeiros. Ergue uma capela a São João Batista, e o povoado prospera até tornar-se, anos depois, a sede da vila.

     Enquanto isso, no sul do município, os Sete Capitães erguem o último curral para a criação de gado. Como as terras de Gil de Góis haviam sido devolvidas à Coroa, os Sete Capitães, que haviam lutado contra os tamoios, ajudando a Coroa portuguesa recebem como uma espécie de indenização parte delas, o trecho que ia do rio Macaé ao rio Iguaçu – hoje lagoa do Açu – por onde espalharam seus currais de gado. Em função de os capitães administrarem os currais à distância, pois voltaram para suas propriedades próximas ao Rio de Janeiro, muitas reses fugiram e se espalharam pela restinga e matas, quase retornando ao estado selvagem. Os filhos desses animais fugidos passaram a ser chamado de “gado de vento”, sem dono, e deu origem a algumas boiadas.

     Assim surgiu a pecuária no município e durante muitos anos foi outra de suas fontes econômicas, fornecendo carne e couro para o mercado do Rio e outras cidades costeiras. Segundo o historiador Paulo Paranhos, em seu livro “Apogeu e crise do porto do açúcar no norte-fluminense”, a criação de gado “é característica de São João da Barra nos séculos XVII e XVIII, utilizando-se nos sertões um sistema mais desenvolvido de criação…”

    Em 1676, após os conflitos provocados pelo visconde de Asseca e seus apaniguados, que haviam recebido parte das terras de herdeiros dos Sete Capitães, a Coroa retomou as terras e só as devolveu com a condição da criação de duas vilas, a vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes e a vila de São João da Praia.

    Em 1753 a Coroa Portuguesa compra a parte da sesmaria dos viscondes de Asseca, onde ficavam as duas vilas e a anexou à capitania do Espírito Santo, onde permaneceu até 1832.

    A atividade de construção naval começa a se desenvolver no povoado de São João da Praia em 1740 com o lançamento do barco “São João e Almas” do estaleiro de Manuel Francisco Brazin, Domingos Belchior e Domingos d’Oliveira. Logo seis estaleiros, entre São João da Praia e Atafona, estão em funcionamento, produzindo embarcações de pequeno e médio porte. Segundo Alberto Ribeiro Lamego em “O homem e a restinga”, em 1868 os cinco principais estaleiros já “constroem vasos de alto porte, inclusive galeras e brigues de 10.000 arrobas…encomendas que chegam até do Rio Grande do Sul. Dali saíram mais tarde as primeiras barcas da Cantareira, para a travessia da Guanabara.”

     O porto também se desenvolve e passa a ser usado por embarcações que transportam a produção do norte-noroeste fluminense, como açúcar, café, madeiras, couros, aguardente, carne salgada, queijos, farinha de mandioca e aves para o mercado nacional – segundo Lamego “em 50 navios exportam-se anualmente 1.900.000 arrobas de diferentes gêneros” – e a trazer implementos, maquinaria, móveis e utensílios e imigrantes para a região.

    Em 1847 o porto é visitado pelo jovem imperador Pedro II, que impressionado com sua movimentação, eleva a vila à categoria de cidade com o nome de São João da Barra. Vice-consulados de Portugal, Espanha, Império Britânico e Países Baixos se instalam na cidade.

    Em 1852 surgiu o primeiro vapor de rodas, e a navegação se estendeu até São Fidelis e Muriaé. Mas o canal navegável do rio Paraíba do Sul era instável e os exportadores buscaram uma alternativa, através do canal Campos-Macaé, para o porto de Imbetiba, considerado mais seguro, menos sujeito aos caprichos do rio e à interferência política na escolha de práticos de rebocadores. O canal, escavado pelo braço escravo, é inaugurado em 1875 pelo imperador e provoca forte queda no movimento portuário de São João da Barra, mas logo é abandonado, pois suas condições também são precárias e na década de 80 o porto refloresce, chegando a receber 75 navios/mês.

     Em 1878 é inaugurada a Usina de Barcelos, da Cia Agrícola Campos- São João da Barra, do Barão de Barcelos, com a presença do imperador e sua esposa, fato raro de acontecer. Desde o início do século, 26 engenhos de açúcar, sendo dois movidos a vapor, existiam no município. A usina, por obrigação contratual do financiamento imperial, é a primeira indústria da região a não utilizar a mão-de-obra escrava.

      O porto continuou a crescer por mais alguns anos até que a chegada da estrada de ferro lhe deu o golpe de misericórdia. Transporte mais seguro e mais barato, por conta da política de dumping (fretes artificialmente mais baixos) desenvolvida pela empresa ferroviária, esvaziou a navegação; as companhias de navegação foram vendidas ou encerraram suas atividades, quase todos os estaleiros foram desativados, e a duras penas a atividade portuária resistiu até pouco depois da segunda guerra mundial, quando já havia sido parcialmente substituída pelas grandes pranchas, que carregavam até cerca de 100 sacos de 60 quilos de produtos agrícolas e atendiam apenas ao comércio regional. Do ciclo da navegação restam as ruínas do Trapiche dos Araújo, o cais de pedra que o Barão de Barcelos fez construir quando administrador da cidade e a residência do armador Coronel Nunes Teixeira.

     Em 1908 surge a indústria de bebidas criada por Joaquim Thomaz de Aquino Filho, cujo carro chefe era o Conhaque de Alcatrão, inicialmente chamado de Conhaque de Alcatrão da Noruega e depois de São João da Barra, alguns vermutes, licores e cachaças, sendo a mais famosa delas a “Praianinha”. A indústria de bebidas foi importante para absorver parte da mão de obra operária dos estaleiros fechados. Os operários mais especializados, porém, demandaram outros centros de construção naval como Rio de Janeiro e Vitória/ES. A indústria de bebidas permitiu que a cidade sobrevivesse, uma vez que a pesca e a agricultura do município não evoluíram e o turismo não deslanchou.

     Atualmente o município tem como principal fonte de renda o repasse dos royalties do petróleo, que não são utilizados pela administração pública para criar novas alternativas econômicas. Quando o porto naufragou a cidade foi junto porque não criou alternativas de geração de emprego e renda que atendessem à população. Pode ocorrer o mesmo agora.

    A chegada do complexo portuário do Açu no município reacendeu as esperanças da população que, no entanto, por não acreditar na sua instalação, não se preparou para as oportunidades de crescimento possíveis, assim como a administração municipal não se preocupou em melhorar a infra-estrutura do município, fazendo com que parte da renda esperada se encaminhe para Campos, com melhores estradas e comércio desenvolvido.

Anúncios

Entry filed under: Crônicas. Tags: , .

Visitas Imperiais A SEMANA PASSA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: