Visitas Imperiais

11 \11\UTC outubro \11\UTC 2008 at 11:17 Deixe um comentário

No dia 8 de abril de 1847 uma galeota trouxe o jovem imperador Pedro II em sua primeira visita ao norte-fluminense. Veio só, a imperatriz, grávida, não pode deixar a Corte. O imperador de 21 anos, ar europeu, alourado, olhos azuis, uma bela estampa. Desacompanhado, deve ter bulido com a libido da mulherada da cidade. Quantos suspiros não provocou! Acompanhava a galeota um escaler, onde o comendador Faria, soltava foguetes desde Barcelos. Deve ter nascido aí a mania sanjoanense dos foguetes nas festas, até em aniversários de crianças. Festa sem foguetório aqui não é festa.

O imperador foi recebido pelo presidente da Câmara Municipal, major Alves Rangel, (prefeito) do município na época. Reza a tradição que Sua Majestade desceu no chamado Cais do Imperador, assim nomeado graças a uma inspirada iniciativa do professor Fernando Lobato, e foi conduzido com pompa à melhor residência da cidade, o solar do comendador Graça, atual Fórum Municipal, por ruas enfeitadas por guirlandas de flores confeccionadas pelas senhoras e senhorinhas da cidade.

O comendador Graça, assim como o comendador Faria, vivia do tráfico de escravos, então uma atividade comercial como qualquer outra, ainda não reprimida pelos ingleses, que viriam a precisar de assalariados para comprar os produtos de sua revolução industrial. Eram ricos e poderosos, tinham fazenda e gado, inclusive o humano.

No amplo solar pernoitou o imperador, sem saber dos ingentes esforços desenvolvidos por seu proprietário, junto com o administrador e outras autoridades, para conseguir uma cama digna de embalar o sono de sua augusta pessoa. Nenhuma cama da cidade satisfazia a comissão – deve ter havido uma – criada para receber sua majestade. Até que a poucos dias da chegada do imperador foi localizada numa casa grande de fazenda da região a cama perfeita. Seu dono certamente não opôs resistência ao empréstimo, era uma honra, depois disso seu leito conjugal seria um leito imperial. Trabalhoso deve ter sido transportá-la pelos já então difíceis caminhos em carro de boi. E entregá-la em perfeitas condições.

Depois das cerimônias enfadonhas, festas, passeios de barco pelo delta do Paraíba, do exercício explícito de puxassaquismo e outras obrigações, como ouvir o futuro barão de São João da Barra batucar um piano em sua fazenda no Caetá, onde lhe foi oferecido um almoço. A caminho da fazenda, junto com a comitiva a cavalo, D. Pedro teve sua atenção atraída por pequenos frutos verde-amarelados de um arbusto parecido com uma goiabeira. Solícito, um tenente, membro da comitiva, lhe ofereceu um araçá. D. Pedro gostou, quis mais. Contam os antigos que a cada ano, na época dos araçás maduros e por isso menos ácidos, o barão enviava com mil recomendações caixinhas do fruto para o palácio imperial. Se o imperador voltou a comer araçá não se sabe, os zelosos e desconfiados assessores palacianos certamente preferiram comê-los ou entregá-los aos criados. Informação eco-cultural – o araçá está na lista de frutas em extinção na restinga.

Três anos depois dessa visita ao movimentado porto sanjoanense, que contava com seis estaleiros, algumas companhias de navegação e recebia cerca de 75 navios/mês, por onde escoava a produção da região, além de contar com consulados, D. Pedro elevou a Vila de São João da Praia a cidade de São João da Barra. Não devia ter mudado o nome, que além de sonoro e sugestivamente turístico, não ensejaria confusão com Barra de São João, na Região dos Lagos. Em 1849 haviam elevado Alves Rangel a barão.

O garboso imperador ainda faria mais duas viagens ao município: em junho de 1875, acompanhado da família, veio inaugurar o canal Campos-Macaé, que quase acabou com nosso porto antes da hora. Só não o fez por que a natureza não deixou. E em novembro de 1878 veio com a imperatriz Tereza Cristina inaugurar a Usina Barcelos, a primeira da região a não utilizar o braço escravo, por exigência do contrato de financiamento.

O porto se recuperou depois da rasteira da natureza no canal, que acabou com a vida de muitos dos escravos, que o abriram a enxada, e durou ainda mais alguns anos. Em 1880, o jornalista Zenriques registrava a grande movimentação de carga e passageiros no porto sanjoanense. Um porto cheio de problemas, que iam da constante troca de práticos dos rebocadores que conduziam os navios pelo instável canal navegável do rio, a má vontade, o descuido e o descaso no recebimento e guarda das mercadorias, que prejudicavam os comerciantes.

No final do século, chegou a estrada de ferro que atropelou o porto, que se afogou no abandono. Não fossem tantos erros e São João da Barra talvez fosse hoje a Santos fluminense.

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Meu avô João Miguel Crônica econômica sanjoanense

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