Meu avô João Miguel

10 \10\UTC outubro \10\UTC 2008 at 10:47 4 comentários

À tardinha, quando o vento nordeste soprava suavemente, refrescando a cidade sem espalhar a poeira das ruas arenosas, meu avô ia conversar com amigos e conhecidos na porta da sua venda no térreo do sobrado onde morava.

    Lembro-me dele com sua calça de brim caqui, adaptada para comportar a enorme hérnia, o paletó de pijama listrado de castanho, o chapéu cobrindo a calva, e um canivete de cabo de chifre a cortar as unhas. É a imagem dele que mais ficou na minha memória.

    Vovô foi um belo homem, de pele muito branca, as faces coradas encimando um bigode encorpado, peito e braços cabeludos. Na juventude ganhou o apelido de João Beleza. Altura média, forte, costumava ao acordar ir aos ninhos de galinha da fazenda, quebrar dois ovos e engoli-los crus. Em seguida tomava um copo de leite espumante recém ordenhado. A isso atribuía o fato de nunca ter precisado ir ao médico. Se sofria uma queda ou uma pancada, tomava arnica; se resfriado esmagava saião e mastruço no copo de leite, misturava com conhaque e bebia de uma só vez. Até os 72 anos, quando sofreu o acidente que veio a matá-lo nunca realmente freqüentara um consultório médico.

     Veio de família do meio rural, fora capataz da Fazenda do Degredo – hoje Santa Maria – e após a morte do proprietário casou-se com sua viúva, com quem teve três filhos. Um morreu ainda bebê. Com o casamento tornou-se um homem muito rico, com terras que se estendiam da sede da fazenda Degredo até a entrada de Grussaí. Diversos desastres econômicos fizeram com que ficasse reduzido a três casas em Grussaí, que havia posto em nome de um dos filhos, o sítio de Pitangas, herança dos filhos da viúva, e o sobrado da rua dos Passos, sua residência. Nesse meio tempo havia enviuvado e se casado com minha avó, que morava num sobrado em frente ao seu. Desfrutaram um período de bonança, quando se davam ao luxo de ir de vapor a Campos para as corridas de cavalo. Ele gostava de jogar.

     A partir daí passou a viver da lenha e do leite que tirava do sítio, para onde ia de charrete toda a manhã e de onde voltava para o almoço na cidade. Numa dessas vezes, por artimanha do destino, não foram colocados os antolhos no cavalo, que se assustou ao passar por um carro, empinou e jogou-o com violência contra a quina de uma calçada – naquele tempo, graças às enchentes do Paraíba do Sul as calçadas da cidade eram bem altas.

    O que aparentemente era um edema provocado pela pancada forte que ele tentou curar com arnica. Alguns meses depois, cheio de dores, procurou um médico, instado pelos filhos. Era tarde. O edema se transformara num tumor que o levou para o túmulo.

     O sobrado ele já havia alugado, depois de construir uma casa baixa no amplo quintal, ficava o galpão onde guardava a charrete e seu cavalo pastava. Estavam velhos, ele e vovó Dondona, para subir e descer a ampla escadaria de pedra. Num quarto da casa, de cuja janela se via uma fileira de roseiras que minha avó cultivava, ele viveu seus últimos dias.

      Sua figura marcante deixou saudades. Até os atos atrabiliários, como não deixar ninguém dormir depois que acordasse, os roncos que ecoavam pelo corredor do sobrado, os almoços com a família reunida, onde havia uma farinha de mandioca especial, que só ele comia, aos bocados, misturados com azeite, na concha da mão e jogados diretamente na boca. Essa farinha, anos mais tarde, provocou um incidente com seu filho mais velho, Filinto, que nunca mais lhe dirigiu a palavra.

    É bela e dramática a saga da família de minha mãe, de ambos os lados. Alguns de seus membros, com suas dramáticas vidas, dariam personagens de excelente romance. Mas não tenho a necessária isenção para enfrentar essa empreitada.

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Férias de julho em Atafona Visitas Imperiais

4 Comentários Add your own

  • 1. Ariane Beyruth Fernandes  |  18 \18\UTC outubro \18\UTC 2008 às 23:45

    Lembro-me dele e também de “Senhora Dona”. Eu era menina, e muitas vezes ia ao lendário sobrado,levando recados do meu pai. Como filha “bem-mandada”, respeitosamente tomava-lhes a bênção.Bons tempos aqueles…

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  • 2. Ariane Beyruth Fernandes  |  19 \19\UTC outubro \19\UTC 2008 às 10:30

    “Vovô” João Miguel, “vovó” Senhora Dona, Filinto, D. Zizi, férias de julho… Que gostoso viajar na imaginação, retornando a uma tempo que a gente não esquece nunca. Parabéns, Carlos. Seja muito bem-vindo. Ler seus escritos é respirar saudade.

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  • 3. cilea  |  27 \27\UTC outubro \27\UTC 2008 às 08:14

    Mt interessante em ler fatos que não sabia da existencia, como o caso da “farinha “. Lembro-me mt vagamente do Felinto sempre com uma das mãos no bolso. Quem gostará de ler essa crônica, para quem já estou levando, é Bica, dos meus irmaõs, é o mais saudosista. Parabens pelo valioso conteudo.

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  • 4. Murilo Henriques  |  10 \10\UTC novembro \10\UTC 2008 às 00:18

    Só por essa crônica é que soube de alguns fatos sobre Tio João Miguel. Meu tio afim, pois minha tia mesmo era Tia Dondona. Uma das coisas era que ele teve o apelido de João Beleza. Então, deveriam formar um belo par quando novos, pois, pelos retratos que vi, Tia Dondona era linda…

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