Férias de julho em Atafona

2 \02\UTC outubro \02\UTC 2008 at 15:26 3 comentários

As férias de julho na praia de Atafona na década de 50/60 não eram apenas a pausa necessária para recuperar pais e filhos do desgaste do período letivo, mas um tempo de fruição, relaxamento, de novos conhecimentos e novas experiências de lazer. Entre banhos de mar, visitas ao piripiri, pescarias no Pontal, no curto período de um mês romances surgiam ou se desfaziam, novas amizades e inimizades nasciam, imorredouras como a adolescência.

    O vento soprava manso, o sol dourava peles e corações e a água do mar, longe da interferência barrenta das cheias do Paraíba, era clara e deliciosa. Sensualmente envolvia os corpos jovens, ativava a circulação dos hormônios, dava novo brilho ao olhar, passava uma borracha sobre a imagem de professores exigentes, de matérias que se estudava sem saber pra que serviriam.

    Sabíamos, nós que morávamos em Atafona, que as férias tinham realmente começado quando surgiam, em meio à poeira, caminhões e camionetes trazendo a mudança dos “veranistas”, campistas que possuíam ou alugavam casas para a temporada. Nas carrocerias se amontoavam móveis e panelas, malas, colchões e trouxas com roupas de cama e mesa. Geladeiras eram raras. Às vezes no meio de toda aquela confusão, vinham crianças excitadas, cachorros arfantes e não raros galinhas ofegantes, atadas pelos pés.

     Atafona então se transfigurava. Numa bela manhã ensolarada a praia se mostrava pontilhada de guarda-sóis, senhoras grudadas nos filhos pequenos e, máximo, garotas lindas, sorridentes e ansiosas. Na borda da avenida Atlântica os rapazes mediam a distância até à faixa colorida dos sorrisos convidativos e olhares matreiros. Antes de o mar avançar brutalmente sobre a costa, da avenida à fímbria do mar era bem uns 300 a 400 metros de areia que escaldava à medida em que o sol subia no céu. E ninguém queria chegar antes das 10 horas, era preciso parecer que ficara na rua até bem tarde, conquistando, namorando, dançando, curtindo a noite.

    Como não existiam ainda as sandálias de plástico, só quedes e congas, usava-se tamancos de solado de madeira para enfrentar as areias e nenhum dos rapazes queria ser visto calçando “aquelas coisas horríveis”. O remédio era atravessar o areal fervente em corridas rápidas, interrompidas por paradas sobre as camisas para refrescar as solas dos pés. Tempos heróicos para os garotos.

    As meninas de boa família só iam à praia pela manhã e davam gritinhos ao pisar na espuma. As mães fiscalizam sob os guarda-sóis e determinavam a hora de ir embora. Ao meio dia tinham de estar em casa para almoçar. Na parte da tarde, a praia era reservada para as empregadas domésticas, as famosas graxeiras. Outros rapazes as paqueravam e, quem sabe, conseguiam marcar encontro noturno nas mesmas areias.

    À tarde ficava-se pelas redes nas frescas varandas, enquanto o sol batia de chapa nas ruas de areia. O vento nordeste balançava com langor as folhas das amendoeiras e das pitangueiras, onde cabritas se refugiavam do calor. Os brotos, como então se chamavam as meninas, cochichavam, riam muito e olhavam a rua vazia. Os garotões tinham ido para a sinuca ou para um lugar sombreado, de preferência com vista estratégica para as varandas. Onde contavam vantagem.

    A chegada do trem passeio, no fim da tarde, trazendo de Campos passageiros, jornais e revistas, marcava a revoada dos brotinhos. Em bandos álacres, a pé ou de bicicleta, pernas douradas sob uma flor de anáguas, lançavam olhares marotos para os rapazes que caminhavam em sentido contrário. Um ou outro casal se formava, separado por distância conveniente, que olhos argutos os observavam.

     Em certas tarde jogava-se vôlei nas quadras ao lado das residências. Havia mais chance de intimidades, dedos que se enlaçavam discretamente, ombros que se tocavam, mãos que faziam rápidas e proibidas carícias. Às vezes um beijo de biquinho.

     No sábado à noite sempre havia uma festinha em casa onde o pai parecia distraído, mas estava atento. Ao som dos long-plays girando na radiola, casais dançavam de rosto colado, murmuravam coisas no ouvido. Era a oportunidade para um contato mais estreito, um beijo furtivo, um discreto amasso. As meninas bebericavam grapete ou guaraná, eles tomavam hi-fi, – dose de vodca num copo cheio de crush. Os mais velhos, passavam antes pelo bar para tomar um samba em Berlim, dose de cachaça com coca-cola e gelo. Alguém tomava seu primeiro porre e vomitava no meio da sala.

   Nos últimos dias do mês, uma nuvem de melancolia, uma saudade antecipada, toldava o céu de Atafona. E quando, levantando poeira, passavam os caminhões abarrotados de móveis, roupas e sonhos, muitos começavam a planejar as férias de verão.

 

 

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O cavalo Meu avô João Miguel

3 Comentários Add your own

  • 1. Jorge Lobato  |  3 \03\UTC outubro \03\UTC 2008 às 17:36

    Uma crônica que me faz recordar da movimentação sanjoanense durante o período de férias de julho.É verdade que nos atirávamos ao mar de Atafona ( xô! frio que não nos impedia), inventávamos famosas matinés (na realidade soiré, pois os bailes improvisados aconteciam à noite nas casas de amigos, sem contar as tradicionais domingueiras do Operários, Democratas e Congos). Férias de julho eram mesmo mais que um descanso…

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  • 2. Erlina Vargas Dantas de Araújo  |  9 \09\UTC outubro \09\UTC 2008 às 16:17

    Sr. Carlos
    Não o conheço pessoalmente mas de há muito o aprecio. Não é a primeira vez que leio uma publicação sua. Antonio Carlos ganhou do senhor.
    Adoro ler as coisas que o senhor escreve da terra de minha mãezinha. Ela adorava S. João da Barra. Com meus sinceros cumprimentos, Erlina

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  • 3. João Noronha  |  13 \13\UTC outubro \13\UTC 2008 às 22:13

    Lembranças de uma Atafona romântica que não existe mais. A minha Atafona, a nossa Atafona. Não só as férias de julho, como os banhos de mar e as pescarias no Pontal (hoje totalmente destruído). Velhas lembranças que nem o mar revolto em épocas de ressacas consegue apagar.

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