O cavalo

29 \29\UTC setembro \29\UTC 2008 at 12:52 3 comentários

Todo dia de manhã, chova ou faça sol, lá está ele, um cavalinho baio, quase branco, crinas escuras escorridas pelo pescoço, amarrado a uma frondosa árvore na ilha em frente à cidade. Dificilmente sai de sua posição, deve olhar com o rabo do olho o pasto verdejante à sua volta, os vôos rasantes das andorinhas, os peixes saltando da água plúmbea do Paraíba do Sul e as garças, tão imóveis quanto ele, com as longas e finas pernas metidas na água.

Pela paciência de passar toda a manhã na mesma posição, sem mesmo abanar a cabeça para espantar as inevitáveis moscas e mutucas, não deve ser muito jovem. Absorto, deve se lembrar do tempo da juventude, quando disparava por aquele pasto pontilhado de árvores e éguas assanhadas. Na certa relembra a carícia do vento nas suas crinas, a mesma do olhar das poldras à sua volta. Orgulhoso, cheio de energia, se exibia para a platéia de fêmeas que o olhava embevecida. Trotava, galopava em corridas desenfreadas, apostava corrida com os companheiros, empinava, jogava as patas pra trás, era mestre em fazer gracinhas.

Depois veio o doloroso tempo da doma. Sujigado pelo focinho por cordas ásperas, montado por um cavaleiro brutal, tentou por todos os meios se livrar do jugo. A cada vez a corda era repuxada, apertada. Rinchou, relinchou, envergonhado ante o olhar surpreso e dolorido dos animais jovens. Lutou o quanto pode, suportou as cacetadas nas ancas, do lado da bela cabeça, as esporeadas nos flancos, os gritos enfurecidos do cavaleiro. Ô cabrunco, eta cavalo lamparão, já te ensino! E tome pancada. Tempo de miséria, vergonha e dor.

Aos poucos cedeu, e a cada dia menos revoltado recebia a sela, os arreios, o pesado cavaleiro a envergar sua coluna. Aprendeu a obedecer as ordens com simples toques nas rédeas ou nas ilhargas. Era belo e imponente, tornou-se o animal usado apenas pelo patrão e isso lhe deu certas regalias, como ração reforçada, banhos e esfregadelas, e éguas escolhidas para cruzar, mas nada compensava a liberdade perdida. De vez em quando, na ausência do patrão, revivia aqueles tempos felizes correndo desembestado pela campina.

Algumas vezes foi levado à raia para disputar corridas com cavalos estranhos, vindos de outros pastos. Ganhou poucas, não era um cavalo veloz, não queria ser corredor, não desenvolvia a mesma velocidade de quando corria livre pelo campo pelo simples prazer de correr. Previa novos maus tratos, limitação de tempo, caso correspondesse às expectativas dos apostadores. Ficou reservado apenas para os passeios do dono.

Envelhecia com dignidade, respeitado entre seus iguais, um garanhão que enchera os pastos de crias. Sua cabeça erguida, desafiante, infundia respeito. Por isso não tivera o destino inglório de alguns companheiros, vendidos ou atrelados a carroças. Dava pena vê-los chegar arfantes, a carroça carregada de abóboras, mandiocas, espigas de milho, canas. Ou carregando jacás. Era por demais humilhante para um baio brioso.

Por fim fora substituído no gosto do patrão por um de seus filhos, um alazão da cor da mãe, de olhos cor de avelã e crinas douradas. Era bem seu filho e com o coração apertado assistiu à doma difícil. É assim que eu gosto, gritava o patrão, de olhos brilhantes. Esse lamparão saiu ao pai. O baio não sabia se ficava orgulhoso ou entristecido.

Foi deixado por uns tempos num cercado com abundante pasto, longe das éguas e das tarefas. Engordou um pouco, fios brancos entremearam suas crinas. Mais adiante, sem aviso, voltaram a lhe dar trabalho. Um peão o arreava, fazia a ronda do gado espalhado pela ilha e depois o deixava ali, debaixo da árvore, enquanto executava outras tarefas.

E lá está ele, imóvel, cabisbaixo, a relembrar o passado.

Do que não é capaz a imaginação de um cronista desocupado!

Anúncios

Entry filed under: Crônicas. Tags: , .

AS TIAS Férias de julho em Atafona

3 Comentários Add your own

  • 1. Cláudio Henrique Miranda de Souza  |  1 \01\UTC outubro \01\UTC 2008 às 01:56

    Fenomenal.

    Se este é um dos exemplos de vossa despreocupada imaginação então, quando o tema lhe for quisto, nós seus leitores estaremos à mercê da sua pena.

    Responder
  • 2. Erlina Vargas Dantas de Araújo  |  9 \09\UTC outubro \09\UTC 2008 às 16:30

    Pois que seja desocupado por muito tempo, só assim então, nós leitores, poderemos desfrutar de tão deliciosas crônicas.

    Responder
  • 3. thiago miranda  |  10 \10\UTC outubro \10\UTC 2008 às 22:41

    mt boaaaaa
    gostei..
    até q o senhor é bom nisso hein
    hehe

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: