AS TIAS

16 \16\UTC setembro \16\UTC 2008 at 21:04 5 comentários

Carlos AA de Sá

Minha geração ainda pode falar das tias solteironas, se lembra dessas figuras onipresentes em qualquer família. Meu avô paterno teve cerca de 11 irmãos e 14 filhos; meu avô materno tinha cerca de nove irmãos e oito filhos. Hoje as famílias têm no máximo três filhos e a figura da solteirona praticamente desapareceu. Temos mulheres que vivem sós, trabalham para se manter e se dão o direito de ter um companheiro ou não. Antes, as tias, solteiras, ao perder os pais se agregavam à família de um dos irmãos e exerciam influência forte, que muitas vezes redundavam em conflitos com cunhadas e sobrinhos, mas também ajudavam na manutenção da rotina caseira, na educação das crianças e na produção de bens caseiros, costurando, bordando, tricotando. Tias de apelidos engraçados como tia Engana, tia Ciça, tia Zizi. Tias adoráveis, tias detestáveis, tias fofoqueiras, tias apaziguadoras.

Das solteironas lembro-me de duas das irmãs de minha avó Bibina, tia Inácia e tia Angélica. Moraram juntas até à morte e não se falavam. Uma briga perdida no tempo, que nenhum de nós conhecia o motivo, impediam que se comunicassem diretamente. Costureiras de mão cheias de roupas masculinas, uma cosia calças, outra camisas, lado a lado. Uma cuidava da casa, a outra cozinhava. Sem se falar, sem se olhar.

Ambas magras, tia Angélica um pouco mais alta. Diferentes em tudo o mais. Tia Inácia pouco sorria, era ríspida e exigente, parecia estar sempre mal humorada. A mim chamava de paspalhão. Tia Angélica, ao contrário, era doce e compassiva, com um sorriso triste e carinhoso e sempre uma palavra boa.

Criaram um sobrinho, Geraldo, filho ilegítimo de um irmão. Eram extremamente dedicadas a ele e o usavam como mensageiro. Se queriam comunicar alguma coisa à outra, diziam, por exemplo: Geraldo, diz a ela que hoje tem ladainha na matriz. Quando ele se casou e foi morar em Ururaí, onde abriu uma farmácia, ofício que aprendeu trabalhando desde novo na farmácia de papai, elas nos usavam para seus diálogos e quando nenhum de nós estava presente, falavam para a parede. Tia Inácia perguntava à parede do cômodo onde ficavam as máquinas de costura: Já mandou comprar os botões? E a outra dava a resposta, para a parede.

Geraldo morreu cedo. Durante um tempo elas moraram na meia água no fundo do quintal da nossa casa, na rua do Conselho (rua João Pessoa), em Campos. Estávamos sempre lá, pegando carretéis de linha vazios, retalhos de pano, coisas que criança gosta para improvisar brincadeiras. Certo dia, na hora do almoço, subi numa goiabeira para pegar uma goiabona amarelinha que lá das grimpas me tentava. Irresistível. E subi, uniformizado, acabara de almoçar e me preparava para ir para a escola, devia ter cerca de oito anos. O liso tronco da goiabeira, úmido da chuva da noite, não deu o devido apoio aos meus quédis (o tênis da época) e ainda agarrado à fruta despenquei no chão. Cai de costas, perdi o fôlego, não conseguia gritar. As tias surgiram na porta da meia-água e enquanto tia Angélica me acudia, tia Inácia dizia apenas: “Paspalhão, bem feito”.

Quando nos mudamos alguns anos mais tarde, rompeu-se o contato. Eu as via de vez em quando, na casa de outras tias. Sempre as mesmas figuras magras e um pouco encurvadas, tia Inácia vestida de estampado preto, tia Angélica com florinhas azuis. Uma a alisar os cabelos da gente, a outra a fazer reparos pouco animadores. Morreram bem velhinhas, em asilos, tia Angélica criando caso com os médicos e enfermeiras que queriam lhe por sonda renal, pela primeira vez debateu-se enfurecida a gritar que era virgem.

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O cavalo

5 Comentários Add your own

  • 1. Murilo Henriques  |  22 \22\UTC setembro \22\UTC 2008 às 02:53

    Achei interessantíssimo e ri muito também! Que venham mais crônicas como essa das tias solteironas.

    Responder
  • 2. Antônio Nunes  |  27 \27\UTC setembro \27\UTC 2008 às 21:32

    Excelente a crônica. Por que não inclui as tão boas quanto esta. E o romance Naufragantes… por que não o publica por partes? Parabéns. Tonunes

    Responder
  • 3. André Pinto  |  29 \29\UTC setembro \29\UTC 2008 às 17:00

    Carlos,
    sensacional esta crônica! Cara, lembrei daquela peça “As tias de Mauro Masi”. Um requinte de detalhes e uma viagem no tempo! Seu blog é tudo o que a cultura de São joão da Barra merece! Mande mais contos! “Quem escreve um conto merece 1$ conto”, brincadeirinha…
    Abraços
    André Pinto

    Responder
  • 4. Erlina Vargas Dantas de Araújo  |  9 \09\UTC outubro \09\UTC 2008 às 16:39

    Muito boa!!!
    Adoro ouvir esse tipo de história é tão bom!!
    Minha mãe sempre nos contava as histórias da fazenda dos pais aí em S. João da Barra. Parabéns!

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  • 5. thiago miranda  |  10 \10\UTC outubro \10\UTC 2008 às 22:33

    mt bom paspalhão
    hehe
    q tias malas hein…ainda bem q hj em dia essas tiazonas sao raras…e ficando virgens entao depois de velha…hauahauha…devia de ser uma comédia essa casa…abçooo

    Responder

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