TEMPOS DIFÍCEIS

O Brasil está passando por tempos difíceis, tristes e vergonhosos. Os jornais não param de dar manchetes escandalosas relacionadas a roubos de verbas públicas. Como no tempo do jornal alternativo O Pasquim, uma charge mostrava que ao abrir o jornal a gente levava um soco na cara. Está assim agora. A diferença é que desta vez, graças à operação Lava jato estamos vendo empresários e políticos irem para a cadeia. Naquele tempo só pobres e adversários do regime eram presos. Apesar da ação saneadora da Lava Jato, os notórios larápios continuam a fraudar e meter a mão suja no dinheiro público. Não têm medo nem vergonha na cara.

Quando a ex-presidente Dilma Roussef caiu, após mandato e meio de mau governo, arrastando alguns políticos bandidos na queda, todos pensaram que a situação ia melhorar. Seu substituto era o vice Michel Temer, em quem ninguém votou, mas de quem se esperava um governo melhor até às eleições de 2018. Não era um homem simpático, de andar duro e gestos poucos amáveis, parecendo mais um mordomo que um político. As boas impressões logo se desfizeram ao se constatar que ele levara para assessorá-lo uma constelação de políticos safados, fisiológicos, corruptos.

A Lava Jato, da PRF, já havia feito estragos nas hostes políticas e ministros com a reputação manchada começaram a ser substituídos. Os que entravam em seus lugares não eram melhores. As acusações borbulhavam na imprensa. Pela primeira vez viu-se que cadeia no Brasil não era apenas para alguns. Poderosos empresários e políticos passaram a frequentá-las. As delações premiadas, largamente utilizadas em outros países passaram a ser usadas pelo Juiz Sérgio Moro e a abater as aves de rapina em pleno voo. Políticos pouco sérios chiaram, é claro, mas o Supremo Tribunal Federal abençoou a prática e com a entrada em cena do Moro o cerco foi se fechando. Presos, empresários, publicitários, políticos e seus operadores, se dispuseram a delatar malfeitos e malfeitores para ter suas penas abrandadas.

O castelo de cartas do mal foi se desfazendo. As delações da Odebretch e da OAS, empreiteiras de peso e presença internacional, onde também cometeram seus malfeitos, foram importantes, mas as gravações de Joesley Batista e seu irmão, abalaram de vez os alicerces da presidência da República, que até então eram tocados de raspão pelas delações. Todo o arcabouço corruptivo montado pelos políticos maus e empresários gananciosos ruiu.

Como disse Sérgio Moro, por mais alto que alguém suba na vida ainda é alcançado pela lei. Nem o presidente da República, se denunciado, escapa de uma investigação e caso seja culpado de uma punição. A politica é necessária e deve ser a mais correta possível. Temos de deixar de votar em notórios corruptos e, se caso eleitos, se optarem por atos desonestos, que visam usufruir do dinheiro público em proveito próprio em detrimento do atendimento das necessidades da população, temos de retirar o apoio e aprovar iniciativas corretivas. Não mais podemos ter nos poderes republicanos homens gananciosos, sem escrúpulos; devemos acabar com o fisiologismo, o compadrio, o nepotismo, que tanto mal têm feito a nosso país.

A corrupção traz como corolário mentira, falsidade, desfaçatez e outras atitudes, o pior de cada um. Como um homem tira dinheiro da infraestrutura, da educação, da saúde, para gastar em campanhas políticas ou mesmo em proveito próprio? A consciência não lhe dói? Como encara de frente sua família, seus amigos? Quando surge na tela da televisão um homem correndo para esconder uma mala com 500 mil reais roubados, como o deputado Loures, como ele tem coragem de olhar de frente seus pais, seus filhos, amigos? Ninguém mais vai confiar nele, a não ser os membros da quadrilha.

A inconsciência do mal que está praticando vem de braços dados com a impiedade e com todos os demais criminosos modos de agir. O Brasil está passando por uma séria crise econômica e fiscal, programas importantes são abandonados, verbas são contingenciadas, a recessão está difícil de ser combatida. No entanto, para não ter suas atitudes examinadas – e não ainda julgadas – pela Comissão de Constituição de Justiça o presidente da República sai cooptando o voto dos deputados, distribuindo quase 16 bilhões de reais para comprar o voto dos contrários e ainda atropela o processo fazendo os partidos, através de suborno, substituir os que pretendiam votar contra o governo. Aonde vamos parar com tanta sujeira? Foi para isso que demos nosso voto?

22 \22\UTC julho \22\UTC 2017 at 09:05 Deixe um comentário

Viva São João!

Neste sábado, 24 de junho, nossa cidade comemora o nascimento de São João Batista, seu padroeiro. Falta, porém, a animação de anos anteriores. Assisto a passagem da procissão, com poucos fieis, e até o andor tem menos flores. Passa um menino vestido como o santo e algumas anjas adolescentes. Ficaram curtas as extensas alas de homens vestidos de ternos, com opas com o símbolo da Irmandade. Também poucas as mulheres na outra ala. A Banda musical toca com o mesmo entusiasmo e maestria.

No andor, a imagem de são João vestido com túnica vermelha e manto, tendo no braço direito, dobrado, um livro grosso, sobre o qual está um cordeiro deitado; o outro braço segura um cajado. Tudo errado. Essa imagem não é do Batista, pode ser a do Evangelista, e a troca aconteceu na reinauguração do prédio da matriz, consumido por um incêndio em julho de 1882. As obras de reconstrução haviam demorado cerca de dois anos, o povo reclamava, uma vez que ajudara seu custo com espórtulas. A imagem para o altar mor havia sido encomendada no exterior e não chegara a tempo; foi colocada outra em seu lugar, e a do santo posta no batistério, a imagem de um homem em tamanho real, vestido com uma pele de camelo. Teve quem se aborrecesse comigo quando contei essa história, retirada de antigos jornais da cidade,

É interessante a história de João Batista, que segundo a Bíblia, nasceu em uma aldeia da Judeia, filho de Isabel e do sacerdote Zacarias, ambos idosos, que sonhavam ter um filho. Assim como a Maria, um anjo anunciou o nascimento do menino, um verdadeiro milagre, dada a idade de seus pais, e mandou que o chamassem João. Avisou ainda que ele seria o precursor de Jesus, seu primo. E assim foi. João, que passou a ter o cognome de Batista por ter batizado Jesus, o Cristo, não era um homem comum. Sabedor de sua missão de pregador, quando adulto retirou-se para o deserto e passou a se cobrir com a pele de um camelo – como a imagem do batistério – e a se alimentar de gafanhotos e mel. Homem de altas virtudes e rigorosas penitências, que pregava abertamente contra Herodes Antipas, um governador corrupto que vivia amasiado com sua cunhada, foi considerado terrorista pelo governo romano, que dominava a região, e aprisionado por meses num calabouço até ser decapitado a pedido de Salomé, instigada por sua mãe, Herodíades, mulher de Herodes, em 29 de agosto.

Como se vê, faz mais sentido a representação do santo do batistério, mais fiel à história que a do altar mor. Voltemos, porém, às festividades que provavelmente são realizadas há mais de 300 anos, desde que o pescador Lourenço do Espírito Santo ergueu a capelinha em honra de São João, mais tarde imortalizada na tela pintada por Uilton Mallet, e que pode ser vista na capa do livro de Fernando José Martins, 2ª edição. São João é um santo requerido por muitas localidades como seu padroeiro. Macaé é uma delas, Meriti outra. Aqui, até o governo de Argeu Oliveira, a prefeitura bancava apenas a decoração das ruas, enfiando bambus enfeitados om bandeiras coloridas no meio-fio.

Fora isso, a Irmandade cuidava da programação e do custeio da festa. A procissão era concorridíssima e a parte profana muito animada, com a praça rodeada de barraquinhas. Não havia shows de cantores breganejos, mas havia os bailes quase de gala dos clubes sociais. Nesses dias ostentava-se o melhor e mais bonito traje. Toda a roupa comprada depois da Semana Santa era estreada na festa de São João. Meu primeiro blazer era de tweed e me pavoneei pelas calçadas da praça para exibi-lo.  O consumo de drogas, se havia, era mínimo, mas consumia-se muito conhaque, uma droga lícita, porque a noite de São João, que marca o solstício de inverno na parte sul do mundo, com sua miríade de estrelas e alguns balões, era a mais longa e fria do ano. Foi assim que bebi conhaque pela primeira vez. Os fogos de artifício, além dos entojados e onipresentes foguetes, eram as rodilhas coloridas acesas na ilha em frente à praça, Pai João e Mãe Maria, para não haver riscos para o imenso tambor que guardava álcool da indústria de bebida, junto ao cais do imperador.

A praça e as ruas que nela desembocavam ficavam cheias de gente. Época de namoros,  que às vezes só duravam aquela noite mágica ou engrenavam em namoro firme, caminho do altar. A moçada andava em torno da praça, em direções opostas, para ver e esbarrar em garotas e rapazes interessantes, enquanto num coreto atrás da matriz um leiloeiro apregoava suas prendas, todas ofertadas por fieis. Tinha de tudo, do bolo e pratos de doces feitos em casa a bezerros e cabritos, oferta dos fazendeiros da região. Com a venda apurada pagava-se a maior parte das despesas da festa.

A noite, apesar de longa, esvaia-se rapidamente e deixava as lembranças dos           furtivos toques de mãos e dedos e dos beijinhos roubados rapidamente, atrás das árvores esculpidas pelos jardineiros da prefeitura. Como era bom!

 

 

 

 

 

 

 

 

1 \01\UTC julho \01\UTC 2017 at 09:18 Deixe um comentário

NOTAS ESPARSAS

Assisto um capítulo da novela das seis na TV Globo. Há muito que novelas não me atraem. Acho-as repetitivas, sem imaginação, repaginando sempre os mesmos enredos com algumas poucas diferenças. A última a que assisti foi “Eta, mundo bom”, baseada em livro de Voltaire. Tinha lances e personagens interessantes e bastante humor. A atual, que se pretende estórica, isto é, baseada em fato histórico, é tão fantasiosa que assombra. D. Pedro I está razoável, embora tenha mandado o Chalaça, seu real companheiro de farras, para as calendas gregas. Novos personagens são criados para movimentar a trama, mas algumas liberdades são imperdoáveis e desnecessárias. A imperatriz Leopoldina ficou linda. O período em que a novela se passa já foi bastante movimentado para precisar dessas liberdades. O pior é que muitos vão pensar que o que ali se conta é a verdade e não um movimentado enredo para tornar a história mais comercial, aumentando a audiência e em consequência o número e o preço dos anúncios inseridos. Será que no final haverá um esclarecimento ao público?

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Que cidade será essa onde transcorrem muitos dos meus sonhos? É uma cidade muito antiga, com belos prédios deteriorados, ruas enlameadas por onde transitam animais, como cavalos, cães, cabritos, galinhas, onde parece ser o centro. Por entre igrejas que lembram o barroco brasileiro, surgem minaretes de evidente inspiração árabe, casas com janelas fechadas por treliça, jardins internos com muros derruídos e chafariz quebrado. Por suas ruas, sempre escuras, escorrem procissões, cujos santos que passeiam de andor não distingo, seguidos por bandas musicais diluídas na neblina. Conheço tudo dessa cidade de sonho. Ando pelas ruas cheias de poças dágua, tábuas para facilitar o acesso, passo por jardins danificados pelo descaso, onde algumas dálias conseguem se equilibrar na ponta de hastes verdes, cercadas por mini cercas vivas de saudades roxas e brancas, subo nas calçadas, de arroxeadas pedras são tome, ouço galos entoando sua música de acordar sol, galinhas excitadas pela presença da multidão de baratas que correm tontas entre os canteiros destroçados, empurro as pesadas portas de madeira pintadas de azul desbotado, entro na sala, casas de maribondos pendem das ripas que seguram o teto, os cômodos são simples, lavados, com móveis velhos, cambetas, desbeiçados, sem graça. As únicas pessoas que vejo são mulheres cansadas que lavam louças e roupas em grandes bacias com grosso fundo de madeira, oscilantes, sobre a calçada suja. Não vejo seus rostos, curvados sobre o trabalho. Uma criança chora num dos cômodos.

Que cidade será essa? Por que ali se passam muitos dos meus sonhos?

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Passava das sete da manhã e a condessa não havia aparecido, o que era de se estranhar. Sua figura hierática, lembrando uma deusa egípcia, costumava ser pontual. Não sabíamos seu nome e por qualquer nome que a chamássemos mal nos dava um olhar desinteressado, blasé. Ninguém sabia de onde vinha, se aboletava sempre no mesmo lugar, de onde nos enviava, quando lhe dava na telha, seu olhar frio, entre desdenhoso e altivo, daí o apodo de condessa. Não dava a mínima. Também não ligava para qualquer ameaça, nem se impressionava com os chamamentos. Vinha sempre cedo e os primeiros de nós que acordavam fingiam ostensivamente ignorá-la para não lhe dar confiança. Parecia pouco se importar com nossa atitude infantil e da mesma maneira retribuía. Era uma deusa, uma dama da corte, fazia jus ao título de condessa. Bastava o galo estridular os ares com seu campo forte, espantando os pombos aninhados nos beirais, para surgir com seu andar ondulante em preto e branco. Bocejava, acintosa. Sua primeira olhada era panorâmica, circular e desconfiada, ainda de pé. Nada percebendo de diferente ou ameaçador, dava um gracioso saltinho para a ponta do muro e sem se importar com olhares ou piadas, se punha a cuidar de sua minuciosa higiene. Apenas o voo rasante de uma andorinha distraída a fazia interromper o minucioso trabalho e lançar um olhar malévolo à inoportuna ave. Às vezes, com displicência, balançava seu rabo felpudo. Só então, apoiada nas patas da frente se esticava, distendendo o arco do mimoso corpo, e com graça e sem fazer qualquer barulho, caminhava lentamente para a outra ponta do muro, onde havia um ressalto, cerrava olhos verdes e se entregava ao sol. Por duas ou três vezes no dia sumia e imaginávamos que ia comer. Voltava para o mesmo lugar, não olhava para ninguém, embora percebêssemos que nos observava.

Por onde andará essa gata abusada e fascinante?

RDO/SJB-junho. 17

25 \25\UTC junho \25\UTC 2017 at 11:19 Deixe um comentário

QUEM DIRIA QUE UM DIA FOMOS CABO FRIO.

Quem vê uma Atafona destruída, com as águas barrentas do oceano arrasando o que resta de sua orla, na certa terá dificuldades em aceitar que já pertencemos a Cabo Frio. Não ao badalado e sofisticado balneário de hoje, mas à comarca de Cabo Frio, a quem pertenceram vários municípios do norte-fluminense. Assim como é difícil acreditar que possuímos um importante porto flúviomarítimo, que mereceu a visita de um chefe de estado, D. Pedro II, e foi ponto de escala de passageiros e cargas para Amsterdam, na Holanda, e Nova Iorque, nos Estados Unidos.  Como diz um amigo e conterrâneo, somos a “cidade do já teve.”

No tempo em que pertencemos a Cabo Frio a cidade ainda não era essa maravilha dagora, que recebe celebridades de todo o tipo, sedia festivais e tem suas areias claras e águas azuis enfeitadas por mulheres e homens que só vemos nas capas de revista. Naquele tempo era um ponto de desembarque de portugueses que cá vinham para enricar. É fácil constatar isso ao examinar o material guardado em seu Arquivo Público.

Apesar de sua rica história, que envolve eventos significativos para economia do estado, como a pesca, a indústria naval, a pecuária, a agroindústria do açúcar, o turismo, São João da Barra não tem um Arquivo Público onde se pesquisar, apesar do projeto da professora e historiadora Tania Aquino, que encalhou em alguma gaveta da prefeitura e lá vegeta, junto com a foto do astrônomo sanjoanense Domingos Fernandes da Costa, presente do falecido físico Marcomede R. Nunes, do Observatório Nacional.

A cidade de Gramado/RS, com 166 anos de fundação, tem seu Arquivo Público que orienta seus pesquisadores, já em nossa cidade, de 1850, isto é, de 167 anos, por não ter Arquivo, nomes de ruas são trocados de acordo com o interesse eleitoreiro dos vereadores, sem que se verifique o tempo e a razão do nome anterior, o que sempre causa confusão para os historiadores. A rua Joaquim Thomaz de Aquino Filho, já foi rua Dr. Motta Ferraz, Dr. Miguel Couto, Direita e Caminho Grande. E ninguém sabe o porquê de tantas trocas. Nosso município se soltou da comarca cabo-friense, tem mais de 300 anos. Talvez fosse melhor ter continuado onde estava.

Há alguns anos, sendo secretária municipal de Educação a professora Katarine de Sá Santos, foi feita uma segunda edição do livro basilar de nossa história, “História sobre a povoação e fundaçãode São João da Barra e dos Campos dos Goytacazes” de 1868, de Fernando José Martins. Alguns exemplares foram distribuídos, os demais desapareceram misteriosamente. Uns poucos exemplares escaparam. O mesmo aconteceu com os 200 exemplares do importante livro “São João da Barra, apogeu e crise do porto do açúcar do norte-fluminense” de Paulo Paranhos, que o autor doou à biblioteca municipal, documento que deveria estar sendo estudado em nossas escolas fundamentais e médias, para nunca mais alguém perguntar se o balaústre da beira do cais foi colocado ali pela prefeitura para evitar que alguém caia no rio ao apreciar nosso mais que belo por do sol ou as animadas procissões fluviais em homenagem a São João.

São coisas pequenas, sem importância? Não, não são, são tijolos da civilidade, forma de se identificar e se orgulhar de pertencer a um município tão importante, apesar de todos os golpes que tem sofrido. Desde que, segundo João Oscar, poeta e historiador, autor de outro livro básico de nossa identidade cultural “Apontamentos para a história de São João da Barra”, livro que a municipalidade deveria reeditar – não fica tão caro – e distribuir nas escolas municipais, nos desligamos de Cabo Frio, após a foz do rio Paraíba do Sul ter sido desobstruída da invasão das geoberas, tivemos um período mortiço, até que do próprio Cabo Frio veio o impulso para progredir. A pesca, uma das mais antigas alimentação do ser humano e que sempre fora uma das formas da população cabo-friense se alimentar, estabeleceu aqui povoações e o município se consolidou. Tudo isso está documentado e deveria estar no Arquivo Público de nossa cidade que um dia, certamente, quando os gestores públicos locais forem mais esclarecidos, será criado.

SJB, junho/17

 

 

 

 

 

21 \21\UTC junho \21\UTC 2017 at 09:25 Deixe um comentário

AS PONTES INCONCLUSAS

Neste ano de 2017 o município de São João da Barra possui duas pontes sobre o rio Paraíba do Sul ligando as duas partes de seu antigo território. Mas não conta com elas, as partes continuam separadas, estão inconclusas. E pelo jeito…

Pouco tempo depois do fim do porto flúvio-marítimo da cidade que a existência de pelo menos uma ponte se fez necessária. A grande largura do leito do rio e suas margens arenosas e a pouca expressão política do município, que depois do fim do porto tornou-se fundo de saco, dificultaram a elaboração de projeto e a construção da ponte. A distância entre os dois lados do município, que era o terceiro maior em extensão territorial do estado do Rio de Janeiro, tornavam a ponte mais que necessária, embora seu custo fosse alto. Os moradores do lado norte só visitavam a sede para pagar impostos e atender convocações judiciais. E a maioria ia de ônibus, precisando passar por Campos dos Goytacazes, dando uma grande volta, pois a navegação fluvial era precária e perigosa, e nunca houve intenção das autoridades de estimular seu desenvolvimento.

A construção da ponte era uma ardorosa aspiração da população. O número comemorativo do primeiro aniversário do jornal O Caranguejo, órgão oficial da Casa de São João da Barra, associação que congregava sanjoanenses que moravam na cidade do Rio de Janeiro, de fevereiro de 1966, realizou e publicou nas páginas de 4 a 6, uma enquete com a seguinte pergunta: Por que a ponte São João da Barra-Gargaú deve ser construída?

Dez moradores, de diferentes segmentos sociais, foram ouvidos. Apenas um não respondeu por estar fora do município no dia do recolhimento do formulário. Todos se mostraram preocupados com a divisão, o escritor e memorialista Célio Aquino chamou a ponte de “tábua de salvação” e José Costa, gerente geral das Indústrias da Bebidas Joaquim Thomaz de Aquino Filho, mostrou-se preocupado com a falta de comunicação entre as duas partes, lembrando que sua ausência era um entrave à economia local, e recomendou que a ponte fosse construída o mais rápido possível. Ecoando o que era dito por muitos, chamou a ponte de Dr. José Gregório, um cidadão com problemas mentais mas de visão clara. Não lhe fizeram essa homenagem, a primeira inconclusa chamou-se ponte presidente Figueiredo e a segunda provavelmente será a ponte Eike Batista.

Em 1983 ou 84, o deputado federal por Campos dos Goytacazes, Alair Ferreira, dono de uma empreiteira, elaborou e fez aprovar a construção de ponte ligando Cacimbas, no lado norte, a Cajueiro, no lado sul, ou seja, ligando nada a lugar nenhum, uma vez que nas cabeceiras projetadas não havia rodovia ou povoado, e batizou de ponte presidente Figueiredo. A construção seguiu célere, os contatos em Brasília permitiam o recebimento das parcelas da subvenção federal em tempo hábil. Em 87, faltando apenas a construção do tabuleiro e dos acessos, faleceu o deputado. A obra foi paralisada e nunca mais retomada. Houve ainda o pagamento de uma parcela que foi usada para obras em Gargaú, do lado norte. Da majestosa ponte restaram os grandes pilares como dramáticas mãos clamando aos céus. Estão cobertos por casas de maribondos e servem para pescadores amadores atravessar redes de um pilar a outro, obstruindo o caminho seguido por robalos e tainhas em épocas de piracema, quando buscam os mansos regatos que desaguam no rio para desovar.

O tempo passou, os pilares continuam a clamar aos céus. Os munícipes dos dois lados ficaram mais distanciados. A divisão das partes do município ensejou a ideia  de emancipação do lado norte, estimulada pelo prazo dado pela Constituição de 1988. Com base num plesbicito onde só os moradores do lado norte foram ouvidos foi feita a emancipação, uma das poucas no país em que a parte que se solta era maior que a que contém a sede. Foi criado o município de São Francisco de Itapaboana, com a extensão de dois terços aproximadamente do território original e o dobro da população. Acabou com o medo dos políticos do lado sul, sempre preocupados com a votação do sertão, como então chamavam o lado norte.

Aí chegou o porto do Açu com suas polêmicas e exigências. Um mineroduto de mais de 400 km foi construído de Alvorada de Minas/RJ ao Açu/SJB. Não precisou de ponte, passou até por baixo do Paraíba do Sul. Para trazer as pedras do Espírito Santo uma estrada boa era necessária e urgente. Uma ponte facilitava o caminho até o porto, que funcionava apesar dos escândalos que afastaram Eike Batista. O governo do estado assumiu o ônus e nova ponte começou a ser construída. Fica bastante longe da sede, mas quem se incomoda com uma velha cidade no fundo do saco? Praticamente tudo relativo ao porto era resolvido em Campos dos Goytacazes, que além de ficar mais perto das novas instalações tem uma boa infraestrutura, tanto que os executivos do porto foram lá morar.

A nova ponte estava sendo construída a todo vapor mas… há sempre um mas na vida sanjoanense, um belo dia parou, os trabalhadores se foram e até a placa com seus dados e data de inauguração foi desbotada pelo tempo. A ponte fazia parte da estrutura de acesso ao chamado “super porto do Açu”, esperança de retorno do município a seus dias de glória, apesar de tão afastado da sede. Desde que anunciado, o porto provocou uma série de atividades de apoio, menos as de infraestrutura. Os empregos anunciados, 100 mil, não sei quantos mil, ficaram no caminho, os casarões de veranistas de Grussaí, tomaram o lugar das pousadas e ao invés de seletos grupos de engenheiros e outros profissionais de nível superior abrigaram agitados grupos de peões, o que aumentou o nível de violência da antiga paradisíaca praia, procurada pelos proprietários rurais que chegavam com família e mobília em cambonas cobertas como nos filmes de faroeste. Os cursos de mandarim ministrados a moradores mostraram inúteis, pois os chineses não arregalaram os olhinhos para o projetos e se voltaram para outros empreendimentos. Prejuízos.

A nova ponte, sem dúvida, assim como as desapropriações que devastaram o 5º distrito foram frutos da ambição de alguns e falta de visão de muitos. Para permitir essas desapropriações, um Plano Diretor do município foi elaborado às pressas para atender aos interesses do Eike Batista. Tanto tempo depois da “carnificina”, onde até a Codin fez papel de polícia, arrancando lavradores de suas terras produtivas para, como declarou Ana Carolina de Araújo, defensora pública de S. João da Barra: uma retirada cruel para colocar nada no lugar. Não houve motivo legítimo nem legal para a criação do decreto. Houve violação de direitos e benefício exclusivo de interesses particulares”, informou.

Em audiência recente na Alerj um deputado lembrou que os trabalhadores rurais ”tiveram suas terras desapropriadas de forma arbitrária pelo governador Sérgio Cabral, e suas vidas desorganizadas.” Não sobrou sequer a ponte como consolo.

SJB, 09.06.2017

9 \09\UTC junho \09\UTC 2017 at 15:35 Deixe um comentário

Canaviais

Lembro que tudo aqui era coberto pelos sussurrantes canaviais. Apenas a estrada, de barro, e algumas casas escapavam. O verde mar se estendia das cercanias de Macaé, engolfava Quissamã e outras localidades e se esparramava, escalando morretes e quase se atolando nos brejos, até um pouco depois de Barcelos, cuja usina barrava a expansão. Das casas dos trabalhadores, próximo à safra, só se via as tampas e um ou outro pé de genipapo, muito usado para doces e licores. Uma trilha estreita permitia que os moradores saíssem de casa para seus afazeres. Em um livro que li sobre a tragédia do fazendeiro de Carapebus, Mota Coqueiro, acusado de chacinar a família de um de seus empregados e executado e depois considerado inocente, os empregados sequer podiam ter uma horta ou outras plantas comestíveis no entorno de suas casas para não ocupar terras destinadas à cana de açúcar. A execução indevida de Mota Coqueiro e seus escravos, acusados inocentes da chacina, provocou o fim oficial da pena de morte no país. Meu avô Sá plantava cana em Pipeiras e quando minhas férias coincidiam com a época do corte das canas passava dias lá e admirava os trabalhadores vestidos dos pés à cabeça, calças e mangas compridas, sob um sol ardente, cortando canas e só muito depois fui entender que era justamente por causa da solina causticante, que causava câncer de pele, embora eles não soubessem, agiam instintivamente, que as roupas eram assim. Não me lembro de ter visto mulheres cortando cana, só homens magros, escuros, uma agilidade incrível com o facão, a derrubar quilômetros de canas que eram limpas de suas palhas e atiradas para o lado, formando corredores de canas cortadas, que depois seriam depositadas nas cambonas, grandes carros puxados por duas ou três juntas de bois, empilhadas até atingir o alto dos fueiros, que impediam que caíssem. Parece que estou vendo outro empregado, geralmente de pele escura, também coberto pela roupa e pelo chapéu de palha, o carreiro, andando ao lado da cambona, a sacudir o garruchão, uma vara de madeira dura com um agulhão de ferro na ponta com argolas de metal, fazendo as juntas de bois puxarem as toneladas de futuro açúcar, melado e rapadura, por estradas mal cuidadas, de barro ou areia, a gemer, dando voz aos pobres animais. A cambona ia até à balança, onde depois de pesada a carga era transferida para um vagão de trem ou caminhão. Quando o sol atingia o meio do céu, praticamente assando tudo o que tocava, um barulhento bando de garotos surgia de todos os lados levando pequenos embrulhos de pano branco, – lembro o sol reverberando nessa cobertura, – amarrados num nó, e os entregando aos trabalhadores que buscavam logo a sombra de uma árvore, abriam o pacote e devoravam o prato de comida, acompanhado da água da moringa, encerrando a refeição com um gole de café morno que vinha numa garrafa de vidro. Assim como veio, o bando de moleques, cada um com seu estilingue (ou bodoque) metido no cós da calça, bando alegre, palrador, inconsciente do duro futuro que os esperava, pegavam os pratos vazios e corriam pelo meio das palhas, rindo, contando prosa, programando peladas, caçadas a preás, a rolinhas, a outros bichinhos. Barriga cheia, seus pais e amigos se deixavam ficar um tempo derreados, as pernas estendidas, palitando os dentes falhados, a quem matara com o facão certeiro. Na sequência, um maribondo pousara na parte da cobra que fora cortada, sugara seu sangue, ao que parece, depois levantara voo e atraído pelo ir e vir do facão, partia para cima do trabalhador e o picava, provocando sua morte imediata, a cobra era uma das mais venenosas. Outros casos surgiam, alguém fechava os olhos para um cochilo, mas em seguida um grito os faziam se levantar, reclamando, pegar o facão e voltar ao trabalho. Para nós o canavial era um doce mar e corríamos atrás das cambonas e na cidade atrás dos caminhões que levavam as canas para as usinas, e puxávamos as que acaso ficassem penduradas na hora da arrumação. As mais finas eram batidas nos mourões ou postes até poder ser torcidas, o caldo caindo diretamente na boca; as mais grossas descascadas e cortadas em roletes que a gente chupava com gosto enquanto brincava ou caminhava. Á noite o canavial espalhava o medo, tanta coisa escondia, lobisomens e sacis, mulas sem cabeça e aparições, e o vento gemendo e bulindo nas folhas que pareciam amoladas espadas levava outras estórias pavorosas a entrar por baixo da porta, normalmente das cozinhas, arregalar olhos e derrubar queixos, além de provocar indesejáveis calafrios. As lamparinas projetavam sombras malignas nas paredes e os adultos sentiam inefável prazer em acrescentar mais pitadas de horror às narrativas. Com a decadência da indústria sucroalcooleira na região, graças à má administração, ao sucesso de plantações idênticas no estado de São Paulo, muito mais produtivas, à falta das enchentes do combalido rio Paraíba do Sul, que cobriam o massapê de fértil humos, os canaviais foram arrasados e em seu lugar surgiram grandes espaços vazios, ora ocupados por sem-terras que produzem lavoura de subsistência, ora extensos pastos para poucos bois e para nós, que vivemos naquela época, muita saudade. RDO/SJB-maio 2017

21 \21\UTC maio \21\UTC 2017 at 14:58 Deixe um comentário

NOITES DE VÍSPORA

Seu nome era Bernice  – poupo o nome real para não violar sua intimidade – e quando a conheci já passava dos 50 anos. Era baixa e magra, pele lisa, olhos escuros brilhantes, cabelos crespos e grisalhos amarrados num coque frouxo sobre o pescoço. Cheirava a lavanda. Era pobre, mas elegante no falar, no vestir e no caminhar, sem afetação. Sorriso entre tímido e receptivo. Solteirona, vivia com a mãe e a irmã mais nova, Etelvina.

Em sua casa modesta e incrivelmente limpa, num lugar onde o vento constante trazia areia e folhas secas, jogávamos víspora nas noites das férias de verão na praia. Um perfume suave de ervas frescas modulava o ar. Gaiola com papa-capim cantador nos alegrava. E tinha um gato, que dormia num canto.

Dia sim, dia não, no fim da tarde Bernice comandava uma mesa de víspora muito concorrida, ou seja, com os oito assentos em volta da mesa ocupados. Sua casinha ficava no meio do mato, os ramos das plantas coçando as janelas azuis. Para se chagar a ela atravessávamos a pequena ponte sobre o riacho que ia do rio Paraíba do Sul à lagoa e depois um caminho de areia branca. Crianças, adorávamos o trajeto, íamos pulando, correndo e gritando de alegria, assustando os camaleões, que disparavam sacudindo o rabinho, para baixo das esparramadas pitangueiras, dos coqueiros rasteiros, que a gente conhecia como coco-catarro e outras plantas luxuriosas que envolviam pés de caju, de ingá e cambuí. De vez em quando no riacho apareciam filhotes de jacaré papo amarelo desnorteados que o povo caçava para o almoço. Na época de pouca chuva tainhas vindas do rio rebolavam até serem abatidas a facão. Reforço de refeição. Contavam que nas noites de quinta para sexta-feira lobisomens alucinados faziam o mesmo trajeto, o que o tornava mais excitantes. Pena que só andassem de dia.

O víspora, que já se chamou loto e hoje é bingo, era animado e os jogadores eram pouco mais de 10. Mais gente viesse e não teria onde se sentar. Era o divertimento de verão e elas, nas longas e frias noites de inverno, sem frequentadores, à luz de lamparinas, que o lampião era reservado para o tempo das visitas,  jogava-se paciência pontilhada de suspiros. O cheiro de querosene queimado impregnava o ar da pequena sala que, além das portas de entrada e do corredor, tinha uma janela de madeira carcomida que não podia ficar aberta por causa dos golpes de ar, nefastos.

Acomodados os jogadores fazia-se silêncio e Bernice se postava na cabeceira que dava para o interior da casa e com seu sorriso mais cativante e acolhedor iniciava o jogo. À frente de cada grupo de três cartões numerados um montinho de caroços de milho ou de feijão. Ela nos olhava, um por um, e as crianças se impacientavam com a demora e se mexiam nos bancos, que rangiam. Os adultos, sempre senhoras veranistas, o rosto avermelhado pelo sol da praia, aguardavam com calma, mexendo e arrumando os caroços dos montinhos.

Depois de um pigarro encorpado, que tornavam rosado o entorno das bochechas coloridas por ruge, ela sacava uma pedra de madeira, numerada, do saco que não se cansava de sacudir, a olhava com inexcedível prazer e com voz sofisticada, diria mesmo esnobe, diversa da que usava no cotidiano, cantava o número sorteado.

Mais uma sacudidela no saco e retirava outra pedra e solfejava: número dois, escandindo as letras, a seguir idade de Cristo, que significava o número 33. E assim por diante, cada pedra tinha seu apelido. A 22 era dois patinhos na lagoa, a 15 inquizilou perdeu, a 90 nas ventas, seguida de um sorrisinho brejeiro, a 77 dois machados num pau só e raras pedras escapavam do apelido jocoso. Muito divertido, a gente ria, se cutucava, fingia que esbarrava no cartão alheio para desmarcá-lo, aguentava as broncas e a noite se esvaía sem que se percebesse.

Lá fora a escuridão um breu, assustador. As senhoras se espreguiçavam, trocavam amenidades, com vagar, e as crianças saltavam dos bancos como se tivessem molas e corriam pela sala. A cantadora piscava os olhos cansados enquanto devolvia as pedras à sacola e com lassidão no olhar puxava os cordões e a fechava. Com graça escondia um bocejo com a mão. Até mais, diziam, e as crianças munidas de lanternas de querosene se precipitavam para fora aos pulos. As mães mandavam tomar cuidado com os bichos. Podia ter cobra, escorpião, achavam.

Nas noites de luar, o balanço dos galhos e o sussurrar das folhas ao longo do caminho de volta parecia coisa de almas do outro mundo. Se um barulho diferente vinha do mato escuro as crianças se aterrorizavam e se colavam ás pernas maternas, atrasando a caminhada. As mais valentes davam as mãos às mães, e alegavam que temiam tropeçar nas raízes.

Na casinha que silenciava a cantadora tornava a bocejar, enquanto juntava os cartões que guardava num outro saco de pano branco onde bordara flores e borboletas.

B morreu na cidade do Rio de Janeiro, onde estava de passagem, soterrada pelo desabamento da casa onde se hospedava, durante um terrível temporal na década de 70.

SJB, 06.05.2017

 

 

 

6 \06\UTC maio \06\UTC 2017 at 15:32 Deixe um comentário

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