NOITE OUTONAL

Os lençóis ardem

e não permitem o sono

ao poeta cansado.

Seu corpo pontilhado

de gotas de suor

não deixa marca

nos lençóis em fogo.

Serão menos quentes

as praias do Nordeste

e as areias de Aruba?

Serão menos hostís

ao corpo adormecente

em qualquer parte do mundo?

É época de transição

de preparação para os tempos ansiados

de frio e calor.

Aqui o outono é uma bobagem

um nome sem significado.

Mesmo na noite

os lençóis ardem como se abrigassem

amantes em primeiro encontro.

Fiapos de brisa roçam desanimados

o corpo inquieto

e o travesseiro úmido

é tão hostil quanto a vida.

A janela oferece uma trégua

mas as pálpebras pesadas do poeta

não se encantam com a visão

do morro estrelado

sob um céu duro

salpicado de pontos de fogo.

 

13.04.198 ?

* Esboço de poema encontrado entre papéis velhos em incursão pela antiga biblioteca, hoje quarto de despejo em 18.05.2015. Não lembro quando foi escrito.

16 \16\UTC setembro \16\UTC 2016 at 17:20 Deixe um comentário

DIA DA PÁTRIA

As comemorações do Dia da Pátria em Campos e São João da Barra me trazem recordações.

Sendo feriado e a farmácia de papai em Campos não estando incluída entre as que ficavam de plantão naquela vez, na década de 50, a gente visitava as casas dos avós. A do avô materno em São João da Barra era uma delícia, o sobrado permitindo que a gente apreciasse da sacada o pouco movimento da rua e brincasse no jardim e no quintal; a do paterno, uma fazenda em Pipeiras, apesar dos animais domésticos e outros, das roscas de milho, do ovo batido, do doce de jenipapo na chapa do fogão de lenha, de um doce com pimenta chamado farte, dos biscoitos, bijus, tapiocas e queijos, das canas finas espremidas diretamente na boca ou cortadas em roletes, nem sempre era boa, a começar pelas acidentadas viagens de dia e volta.

Depois de saídos da estrada principal, a que levava até Atafona, entrando por Cajueiro ou por Caetá, pegávamos caminhos de areia ou lama. Como a fubica de papai era antiga, geralmente comprada de segunda ou terceira mão e frequentadora constante de oficinas, ela sempre atolava e seus eixos não tinham força para levá-la adiante. Era um sufoco cavar a areia e cobrir com galhos de árvore para dar firmeza aos pneus. Cada viagem uma epopeia. Lembradas agora essas viagens eram verdadeiras comédias, com momentos de non sense, brigas e risos. Dão saudades.

Lembro-me de uma, os filhos já adolescentes e morando na cidade sanjoanense, em que a camionete parou de funcionar junto à casa de um paciente – por que papai fazia a ronda dos doentes da parte sul do interior do município, levando remédios e orientação – na área chamada de Perigoso. Antes da descoberta da falta de gasolina, razão do carro não funcionar, papai ganhara um bacorinho – quase sempre seus pacientes o remuneravam com pequenos animais, frutas e legumes – bem gordinho e forte. Pois o danado escapou na hora de ser manietado para ser colocado na carroceria, onde viajavam os filhos mais velhos, a empregada e metros de lenha seca.

Depois de muita correria, gritaria e arranhões, pois o bichinho se enfiava impávido nas macegas em volta e nós íamos atrás, caindo e rindo pra valer, ele foi apanhado e colocado aos guinchos na carroceria da fubica. Satisfeitos, nos despedimos dos donos da propriedade e nos preparamos para chegar em casa, tomar um banho, jantar e se possível dar uma volta na praça. Anoitecia. Papai girou a chave e nada do motor pegar. O que foi, o que não foi, descobriu-se que a gasolina acabara. Se não tivéssemos parado ali íamos ficar no meio da estrada. Era pouco o movimento de automóveis e lá fui eu, escolhido para embarcar no primeiro ônibus que passasse e que deveria ser o último horário do dia da empresa. Deveria chegar em casa, pegar a bicicleta que tinha uma espécie de rack na frente do guidão, pegar um latão de cinco ou dez litros, encher no posto de gasolina e levá-lo de volta aonde o porquinho e nossa família aguardavam transporte para o lar, para onde seguiam também abóboras, melancias, abacaxis, cachos de bananas de vez e outras miudezas comestíveis. Como pedalei naquele anoitecer!

Quando estudava em Campos morava na pensão de um primo de papai, Alfeu, primeiro na Rua 21 de abril (Hotel Novo Mundo) e depois na Alberto Torres, em frente à entrada lateral dos cines Coliseu e Goitacá. Gostava da parada escolar em si, a gente desfilava com garbo, ao som da bateria da escola. Tanto a bateria do São Salvador quanto a do Liceu de Humanidades eram consideradas de primeira linha. Nas duas semanas antes do desfile a gente treinava à noite, marchando ora pelos espaços externos dos colégios e ora pelas ruas. No último ano no Liceu, por causa a minha altura – naquela época era considerado alto – fiz parte da guarda de honra das bandeiras do Brasil, estado, município e escola (acho que era isso) e a exigência de marchar bem era maior. Íamos quatro em destaque, ladeando cada uma das bandeiras e qualquer fora do ritmo era fatal. Atrás de mim marchava um colega que vivia reclamando da minha marcha, avisando que ia trazer um alfinete para me espetar quando errasse. Não sei se por isso marchei direitinho no dia da Pátria.

Eram muitos os colégios a desfilar. No tempo em que estudei no Ginásio São Salvador, de doce memória, vestíamos impecáveis uniformes brancos e camisa com gola rolê e logotipo colorido da escola no peito. Muito bonito, eu sentia orgulho ao vesti-lo. À frente, devidamente ajaezado, ia o belo carneiro do colégio, mascote do diretor. Depois vinha a turba de alunos. Era bonito o desfile, mas cansativo.

Pior era o desfile do Liceu. Como o colégio era o último a desfilar, precedido por uma briosa cavalgada dos alunos-cavaleiros, cujos pais eram fazendeiros, ficávamos um tempão parados na beira-rio esperando a vez. Os cavalos davam um toque especial ao desfile e enquanto esperavam cabriolavam. No ano em que desfilei como guarda de honra da bandeira tive de usar luvas. Dado o longo tempo de espera, e eu não tirava as luvas com medo de perdê-las e por achá-las muito bonitas, minha mãos incharam e quando tudo acabou, já de volta à pensão, para tirá-las foi o maior sufoco. Tive de botar as mãos numa bacia de água fria, para que desinchassem.

Tudo isso ficou pra trás, muito lá pra trás. E o que não era muito bom tornou-se risível e o que era bom ficou ótimo.

SJB, set/16

8 \08\UTC setembro \08\UTC 2016 at 09:33 Deixe um comentário

ROSA CONSTRUÍDA (poema)

Para que surgisses, úmida e brilhante,

Dentre espinhos e folhas recortadas

Foi necessário que antes em mim existisses

Fruto da solidão e anseio de beleza.

A tua cor foi prevista nas madrugadas

Inúteis que surgiram depois das despedidas;

A sensação docemente exasperante

Que meus dedos arrancam de tuas pétalas,

Veio da rude seda dos corpos amados

Em momentos de nenhum amor;

E teu perfume, espiral de angústia e sede,

Antes de te envolver banhou de desejo

Os crepúsculos que antecederam a saciedade.

……………………………………………………………

Para que surgisses, rosa, perfeita e exata,

Foi necessário que de meu ser brotasse

A sombra da beleza jamais encontrada

E a esperança inútil de alcançá-la.

E se te lembro agora tua construção penosa

Não é para isentar-me da culpa de colhê-la

Mas para tentar amar os andaimes que restaram.

5 \05\UTC setembro \05\UTC 2016 at 15:26 Deixe um comentário

OS ENCANTOS DA RESTINGA SANJOANENSE

Leio na edição de 27 de agosto deste ano do filhote de O Diárionf, de Campos, para nossa cidade, que a Prumo Logística Global lançou on line seu belo livro “O tempo e a restinga”, coordenado pela Química ambiental Maria das Graças (Graça), Vicente Mussi Dias, Geisa B. de Siqueira e Daniel Nascimento. O livro é uma preciosidade e merece ser lido por todos os que se interessam pelo nosso município e pela ecologia.

A restinga, que engloba a mata do Caruara faz parte da RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural – administrada pela Prumo, que anteriormente pertencia à MMX. Acho que engloba também a parte sanjoanense de outra preciosidade, a Lagoa do Salgado, descoberta e assim nomeada pelos Sete Capitães em 1634. Caruara, segundo o Google, significa feitiço, mau olhado e tremedeira nas pernas, e no Nordeste designa um vento de trovoadas que ocorre em janeiro. Engloba ainda a lagoa de Iquipari (águas espinhentas, graças ao surgimento em seu leito de uma planta com espinhos em certa época do ano) e já se chamou Lucrécia e a de Gruçaí, que tem esse nome por causa da abundância dos grauçás, aquele pequeno caranguejo amarelo que vive correndo como um desesperado pela praia.

O livro praticamente examina à exaustão a restinga, de ponta a ponta, só não fala sobre seus habitantes de carne e osso, o tamanduá mirim e outros. A supervisão do livro é do professor Renato Aquino, que assina o Prefácio. Renato, que foi meu colega do Ginásio São Salvador e do Liceu de Humanidades de Campos, me pediu e a outros autores um texto sobre o verão em Gruçaí. Foram incorporados ao texto principal.

Os autores do livro produziram material de primeira qualidade. A Prumo é responsável pelo reflorestamento e conservação de área de 3.845 hectares, onde plantou 500 mil mudas de plantas da restinga, algumas ameaçadas de extinção como pau-ferro, o ingá-mirim e o ocambucá. A ação repõe plantas de uma área devastada que protege a faixa marginal das lagoas. A primeira parte do livro, bilíngue, fala desse esforço e conta que foram resgatados e reintroduzidos na RPPN cerca de 16 mil animais de 245 espécies natas da restinga, algumas também na lista de animais ameaçados de extinção.

A segunda parte do livro, intitulada Cores e Aromas, é sensacional. Com fotos lindas das plantas recenseadas, traz ficha catalográfica com todos os dados de cada uma das plantas fotografadas que possam interessar a estudiosos e leigos. A ficha traz seus nomes científicos e populares e assim fico sabendo que a saborosa pitanga é uma eugenia uniflor que, além do prazer gustativo, tem efeitos antitérmicos e antidiarreicos, analgésicos, diuréticos, vaso-constritor e anti-hipertensivo. Quanta coisa que eu desconhecia mas que certamente os moradores ali nascidos e criados sabem e usam. As eugenias são muitas e estão espalhadas por aquelas areias; uma delas é a famosa aperta cu, para os íntimos aperta, boa para deter diarreia, o famoso chá de rolha, e é uma eugenia astringens. Também o cambuí, que nos meus tempos de criança era vendido em molhes pelas ruas, é uma eugenia, a candoleana.

Entre outras curiosidades fico sabendo que o coquinho que chamávamos de coco catarro, que maduro tem uma cor linda e um perfume gostoso, é uma allagoptera arenaria e pode ser consumido cru – como fazíamos no chão da varanda da casa de vovô depois de quebrá-lo com uma pedra – ou amassados com farinha de mandioca e usados para preparar bebidas, cocadas, geleias e biscoitos, veja só! A salsa da praia, com seus cordões subterrâneos, que nos fazia tropeçar nas corridas pelo areal, é uma remírea marítima e serve para aromatizar a cachaça, e diurética, sudorífica e auxilia no tratamento de males da bexiga. Os biriteiros sabiam o que bebiam. O murici, com suas era usado para tingir redes de pesca com o sumo de suas raízes e casca para enganar os peixes. Com suas flores amnarelas é utilizado na decoração de salas.

Aquelas florzinhas espalhadas pelas areias que distraída a gente pisa sem prestar atenção, nas fotos deste livro viram obras de arte, com cores e formatos diversos, cada qual mais bela. Quem acessar o livro vai ficar encantado, garanto, e nunca mais vai andar pelas areias da restinga sem prestar atenção nesses presentes da natureza.

Liberar o livro na internet é essencial para se conhecer um pouco mais de nossa região e suas características. Sempre estimulo a produção e divulgação de livros sobre nosso tão esquecido município. Além de esperar outro volume com texto e fotos sobre os animais típicos da restinga, gostaria de ver um outro sobre a Lagoa do Salgado e seus biohermas calcários, monumento geopaleontológico da região.

Seria bom se pudesse ser divulgado, não só em publicação científica, o trabalho de conclusão de curso “Estrutura e composição florística de quatro formações vegetais de restinga no complexo lagunar Grussaí/Iquipari”, de Jorge Assumpção e Marcelo Nascimento, publicado na ACTA BOTANICA BRASILICA, vol, 14, nº 3, São Paulo, set/dez 2000. O município precisa dessas publicações, bem como dos dados coletados e analisados pelo economista Alcimar Ribeiro, para definir sua identidade.

27.08.2016

28 \28\UTC agosto \28\UTC 2016 at 11:04 Deixe um comentário

VOTAR EM QUEM?

Esse dilema que atordoa milhões de brasileiros a cada eleição não mais me perturba, estou com a validade eleitoral vencida, já cruzei a faixa dos 70 anos. O que para muitos é ofensivo, achar que velho não tem discernimento para escolher os próximos gestores de legisladores, para mim representa um alívio, pois não saberia em quem votar, tal a safra de candidatos apresentada.

É só acompanhar o noticiário para se entender o que acontece com o eleitor nacional na hora de escolher em quem votar. É um escândalo atrás do outro envolvendo políticos de todos os partidos. Mal dá para respirar. No momento estamos vivendo a perplexidade de ter de cassar a presidente da República e o deputado ex-presidente da Câmara dos Deputados por improbidade. Como confiar em alguém para lhe entregar um cargo executivo ou legislativo?

Dói, viu? E aí a gente se pergunta: votar em quem?

A temporada de convencimento do eleitor já foi aberta. Ouviremos as promessas de campanha dos candidatos, que certamente não cumprirão, esbarraremos diariamente em banners, cartazes, santinhos e panfletos, ouviremos suas cantilenas nos rádios, veremos seus rostos fotoshopados na televisão, tudo pago com dinheiro do Fundo Partidário, que é dinheiro nosso, dos extorsivos impostos que pagamos. Se ainda houvesse bom retorno em obras para melhorar a qualidade de vida da população. Na realidade o que melhora é a vida dos políticos e de seus marqueteiros. Recentemente um presidente de um partido nanico gastou parte de sua cota do Fundo na compra de uma camionete importada. Quem era pobre continuará desassistido e desiludido e na próxima eleição votará no mesmo candidato, pois é um daqueles que o partido apresenta, sem ver sua folha corrida, sem examinar seu passado. Quem escolhe é o partido. A gente só pode escolher entre os indicados. Resta o voto nulo.

E o povo vota, alguns eleitores crédulos acham que dessa vez vai melhorar, outros votam sabendo que estão vendendo seu voto para um corrupto melhorar sua atuação deletéria, outros por que lhe disseram que votar é um ato de patriotismo, que seu voto corrigirá o erro da eleição passada. Corrigir como, se os nomes que lhes são apresentados já vêm com a marca da corrupção, do desmando, da incompetência?

E aí surgem os políticos sem projeto para o município, o estado, o país, sua gana de atacar os cofres públicos, de ostentar. Mesmo sendo obrigado a votar, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, onde o voto não é obrigatório, ele vota sem critério, sem saber quais os planos do candidato, às vezes por simpatia, outras por se achar devedor de algum favor, ou para pagar a conta da luz, dos remédios, enfim, por razões que não as que deveria atender.

A corrupção parece ser o padrão comum à maioria dos interessados em ser eleitos. A presidente da Câmara de vereadores do Distrito Federal confessou a um jornal que emprega como assessores em seu gabinete analfabetos e incapazes, mas que a ajudaram a se eleger. E como ela foi eleita? Não foi com o auxílio desses assessores, entre os quais deve se incluir seus parentes e apaniguados. Quem realmente a ajudou e a outros eleitos a serem diplomados foram principalmente os famosos e caros marqueteiros.

Na próxima eleição a coisa não vai ser tão fácil. Com a proibição de apoio financeiro de empresas e instituições, a grana vai encurtar. Uma campanha bem feita não fica barata. Muito dinheiro pinta na jogada, dinheiro que será recuperado para as empresas doadoras através de sobrepreços em contratos, em aditivos, e outros macetes. O financiamento por empresas é um convite, uma porta aberta para a corrupção, como a operação Lava Jato tem mostrado. E as doações de pessoas físicas não são desinteressadas, buscam, no mínimo, empregos públicos para os parentes do doador. Como resolver esse dilema? Como votar para ajudar ao país e a si mesmo?

 

 

 

 

22 \22\UTC agosto \22\UTC 2016 at 14:23 Deixe um comentário

A OLIMPíADA 2016

Estamos a 10 dias do início da Olimpíada Rio-2016. E muitas dúvidas brincam em minha cabeça. Pra começar acho que nosso país não estava pronto pra sediar um evento desse porte. Vivendo uma séria crise político-econômica, precisando restringir os gastos, mesmo os indispensáveis, vai ter de diminuir o atendimento médico e escolar da população, que já não era dos melhores, para atender às exigências da festa. Não sei se constatando o fiasco que foi a Copa do Mundo de dois anos atrás o país poderia pedir para trocar a data do evento  para quando o país estivesse bem. Mas devia poder.

Essa escolha foi uma comédia de enganos que começou com o trabalho do ex-presidente Lula junto aos organismos internacionais responsáveis pelos jogos olímpicos para aqui sediá-los e provar ao mundo que o país estaria entre as potências mundiais. Lembro dos pulos de alegria da equipe presidencial tanto na escolha da sede da Copa do Mundo como na da Olimpíada. Uma festa, os figurões se abraçando, soltando gritos de júbilo sem atentar para as despesas que isto acarretaria. Nunca antes, na história deste país, etc…

A realização dos jogos tornou-se um pesadelo para os conscientes. As obras caríssimas da cidade olímpica não ficaram prontas, os alojamentos dos atletas estão sendo entregues sem estar habitáveis, a mobilidade dos participantes, moradores e visitantes não atende ao desejado e temos de ouvir os pitacos engraçadinhos do prefeito carioca.

Outros fatores toldam a festa. A começar, a proliferação de mosquitos que trazem a dengue, a zica e o chicungunha, o que causou a desistência de muitos atletas. Em seguida a letal violência urbana que grassa nas ruas do Rio de Janeiro, onde balas perdidas e assaltos cruéis abatem moradores e turistas.  Por outro lado, a decantada Força Nacional, contingente altamente preparado para enfrentar bandidos, está sendo confrontada pela milícia que age dentro da favela vizinha ao condomínio inacabado do programa “Minha casa, minha vida” do governo federal onde os policiais estão alojados. Os componentes da Força tiveram um aviso logo ao chegarem, quando pedradas atingiram seus veículos, sobre quem manda aqui. E mais a poluição da baía de Guanabara, invencível.

E têm as ameaças de atentados terroristas, que recentemente destruíram vidas na França, na Bélgica, no Afeganistão, Japão e outros países. O ministro da Justiça, numa entrevista aos meios de comunicação, que desagradou até aos moradores dos palácios governamentais brasilienses, garante que está tudo sob controle e exibe a prisão de alguns supostos terroristas, que chamou de amadores, que vivem em pontos distantes do país e se comunicam via internet e nunca se viram. Um deles encomendou um rifle no Paraguai, quando nas favelas brasileiras são encontrados a preços de mercado, segundo ouvi dizer. O ministro tinha razão, tanto ele quanto o da Defesa, são amadores os nossos terroristas.

Mas será que são só esses amadores que estão planejando ataques durante os Jogos?

27 \27\UTC julho \27\UTC 2016 at 12:17 Deixe um comentário

A CANÇÃO DO REI SEM TRONO

          A CANÇÃO DO REI SEM TRONO

Minha camisa bordada

rasguei em tiras, rasguei

E os fofos de renda branca

em  pedacinhos piquei.

Meus calções de veludo

longas meias de pavão

azuis como os olhos dela

destruí com estas mãos.

As fivelas das botinas

– brilhantes em velho ouro –

arranquei-as, joguei  longe

junto com o cinto de couro.

Botinas belas e macias

como as minhas jamais vi.

Serão em breve ninhos de rato

em qualquer lixo por aí.

E minhas luvas de pelica?

E meu manto de brocado

azul salpicado de estrelas?

Dei-os a meu velho criado.

Minha espada cravejada

enterrei-a não sei  onde.

Com ela venci exércitos

um barão, um bispo e um conde.

Meu feroz e atilado cão

meu esbelto e veloz cavalo

matei-os com mãos trementes

e enterrei-os num valo.

E a minha loura amada

tão medrosa e tão criança

já fugiu, apavorada,

vendo que o inimigo avança.

Estou só no meu castelo.

Fidalgos, arqueiros, besteiros

fugiram ligeiro empós ela

com medo dos estrangeiros.

 

Estou só e fiquei nu

ao sol, ao vento, ao luar.

Escuto gritos de guerra

e ao longe o som de tambor.

Avançam os miseráveis

já ouço passos na escada

vêm vindo, procuram o rei.

Solto longa gargalhada.

 

Um rei nu não é um rei.

Onde a espada, a coroa,

um rei sem manto estrelado,

Sem cetro? Essa é muito boa.

Arrombam a pesada porta.

Querem o rei? Não o terão.

Eu lhes entrego um homem nu.

Não serve ? Não querem não?

Os inimigos partiram.

salvei o rei da tristeza,

da humilhação, da vergonha

de uma prisão. Num rei nu

ninguém encontra realeza.

                                                      Rio, década de 70.

16 \16\UTC julho \16\UTC 2016 at 15:50 Deixe um comentário

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