O QUE FAZER?

O que eu gostaria de estar fazendo agora?

É a pergunta que me faço quando me vejo sem nada para fazer nem para ler fato raro desde que me aposentei e encerrei minha atuação na edição do jornal S. JOÃO DA BARRA. Foram 49 anos de trabalho e o corpo se acostuma à labuta. Por isso ainda acordo às 5, 6 horas da manhã. O que abandonei de vez foram os sapatos e o terno, símbolos escravistas.

E a resposta à insistente pergunta? Pois é, gostaria mesmo era de estar reunido com toda a família, filhos e netos, gente maravilhosa, prêmio que me foi dado pela vida. Vivem longe, filhos e netos, em função de estudos e trabalho. Entendo, isso aconteceu comigo a partir dos 13 anos de idade, quando tive de morar numa pensão em Campos para poder estudar. Depois em outra pensão, na rua Saldanha Marinho, no centro de Niterói, me preparando para os primeiros vestibulares, os que não deram certo.

Em segundo lugar gostaria de estar conversando com a diretoria de uma grande editora, discutindo termos de um contrato para edição de um dos três romances que tenho prontos e inéditos e que acabarei por imprimir e mal distribuir. O ideal é a distribuição ser feita por uma das potências editoriais, levando meus textos, minhas histórias ao conhecimento do grande público. Editar não é difícil, complicado é distribuir. Num dos meus primeiros livros procurei uma famosa distribuidora e tive um choque ao ser informado que a tiragem mínima para ela aceitar a distribuição seria de 10 mil exemplares. Ante minha expressão de surpresa me afirmaram: só no Rio de Janeiro temos mais de 10 mil bancas de jornal. E o resto do país?

A terceira opção para responder à pergunta seria: viajar. Curto uma viagem longa ou curta, no Brasil ou no Exterior. É muito bom conhecer novos lugares, novas gentes, novos costumes. Adoro andar a pé por cidades além da minha, ver e ouvir as pessoas em seu dia a dia. Já caminhei toda a extensão da avenida Paulista. A primeira viagem que fiz para fora do país foi a Portugal, em 1987, para pesquisar a vida de meu bisavô, Zenriques, cuja biografia eu escrevia. Como o avião ia até Madri – a Lisboa fui de trem – e precisei ficar algumas horas na cidade, visitei a exposição de Goya no Museu do Prado, o que, por si só, valeria a viagem. Foi emocionante conhecer Paços do Brandão, uma pequena e antiga cidade perto da cidade do Porto, onde meu avô nasceu. Outra forte emoção – confesso que estive a ponto de chorar – foi anos depois visitar o túmulo de São Francisco no Santuário de Assis. Embora menos impactante, mas gratificante, foi ver de perto os montes Parnaso e Olimpo, sempre sonhei conhecer a Hélade  (Grécia), berço da civilização ocidental.

Enfim, voltar a ver a Casa de Cultura Zenriques, que criei ao voltar à minha cidade, 47 anos depois de ter ido estudar e trabalhar no Rio de Janeiro a existir como um polo cultural. Era muito legal, aos sábados, ver a turma interessada em cultura sentar para conversar, debater soluções para o município, o estado, o país e o mundo. Sabe lá o que é ter Célio Aquino e outros na sala? Puro papo cabeça da melhor qualidade. Da CC Zenriques nasceu a calçada da fama, onde intelectuais, artistas e esportistas locais foram homenageados imprimindo suas mãos no cimento. Hoje estacionam bicicletas e motos em cima dela. É desolador. E seus frequentadores estão dispersos.

Tudo isso eu gostaria de estar fazendo agora, como opção a esse papo com amigos desolados com a prisão de dois ex-governadores do estado por corrupção. Terrível, as pessoas ficam estupefatas, votaram neles, apostaram que fariam um governo senão progressista, pelo menos decente.

E agora, como vamos agir diante de uma urna eleitoral?

SJB, nov/16

22 \22\UTC novembro \22\UTC 2016 at 08:49 Deixe um comentário

O FOGUETÓRIO

Seis horas da manhã de qualquer estação do ano. Chite pum, um estrondo no céu, foguete explode seguido de música da banda. É gostoso, eu acho, melhor do que acordar com o barulho de rajadas de metralhadora ou tiros de AR 15, como acontecia quando eu morava no Rocha, no Rio. Mesmo se gostando tudo demais enjoa. E aqui fogueteia-se demais, por qualquer motivo, pelo início de uma reunião oficial e pelo seu fim. Em aniversário importante ou que assim se considere é demais. Festa de santo católico então, é de ensurdecer os pobres coitados, que se veem bruscamente acordados de seu sono eterno. Tenho um conhecido, advogado, que fica tão irritado que promete qualquer dia desses entrar com um processo de indenização contra a igreja por quebra de sossego, não permitindo seu sono. Danos físicos e morais.

Foguete aqui na cidade é que nem papa-capim, uma loucura. De manhã, principalmente aos domingos, mal o sol aparece, em gaiolas cobertas de panos brancos, de bicicleta, de moto, a pé ou de carro lá vai o papa-capim carregado pelo seu fanático dono, capaz de levá-lo até para o seu local de trabalho. Um espanto.

Não sei se com os goitacá era assim, se gostavam de ouvir papa-capins em suas tabas e caçadas, mas o povo antigo daqui já gostava do pipocar dos foguetes que devia assustar os indígenas. Vejo isso em “D. Pedro II na Planície Goitacá”, livro da historiadora Talita Casadei sobre a primeira visita do imperador Pedro II a nossa cidade, onde ela conta que “logo cedo, a galeota levando o imperador iniciou a descida pelo rio Paraíba em demanda à sua foz. Acompanhando o monarca seguia o comendador Joaquim Thomaz de Faria, que em seu escaler levava quatro oficiais de fuzileiros e outras pessoas que anunciavam com foguetes, segundo o Jornal do Commercio, que sobre as águas do Paraíba viajava o monarca do Brasil.”

Imagino que a turma que ficou à espera no cais não fez por menos e disparou uma saraivada de foguetes assim que a galeota apareceu na curva do rio, o que deve ter feito fugir pra ilha em frente os bem-te-vis das 21 palmeiras plantadas para comemorar a ilustre visita. E certamente durante o tempo em que cá permaneceu os foguetes encheram o ar. Como o imperador era jovem, tinha 21 anos, e a viagem cansativa, deve ter dormido profundamente na cama que o comendador Alves Rangel teve de arrumar às pressas para o repouso de sua augusta pessoa. Na cidade não havia camas dignas desse nome, só catres e esteiras.

Nas visitas seguintes, casado e com filhas, o imperador deve ter se sentido um tanto incomodado com a barulheira. Em 1875, depois de inaugurar o fatídico canal Campos-Macaé, cavacado por escravos para acabar com nosso porto – o comércio campista não gostava da dependência de só exportar por aqui – visitou a cidade e a praia de Atafona, então chamada de Barra. Em 1878, com a imperatriz Teresa Cristina, fato raro, veio inaugurar o Engenho Central de Barcelos a convite do Barão. Visita de um chefe de estado era sinal de prestígio; com a primeira dama ao lado era prestígio multiplicado.

O foguetório da primeira visita, seguido de rapapés, agradou tanto que três anos depois, em 1850, o imperador elevou a Vila de São João da Praia a cidade, com o nome de São João da Barra e deu ao presidente da Câmara de Vereadores, o título de Barão de São João da Barra, dois anos depois, com grandeza acrescentada em 1854.

SJB, nov/16

18 \18\UTC novembro \18\UTC 2016 at 14:47 Deixe um comentário

O VELHO TREM

Uuuuu, tchi, tchi, tchi, lá vem papai, lá vem seu pai, uuuu…

Era o som que a gente ouvia, provocado pelo deslizar das rodas do trem nos trilhos…

Manhãzinha de segunda-feira, gosto de café ainda na boca, olhos meio empapuçados de sono, no coração um misto de revolta por ter de abandonar a cama quentinha e de irritação pelo que viria no resto do dia… Não tinha jeito, a família, pressionada por problemas econômicos, tinha se mudado para a praia de Atafona e a gente continuava a estudar em colégio de Campos, já que perto de casa não havia uma boa escola que pudesse nos preparar para o maravilhoso futuro imaginado pela família. Ficávamos numa pensão durante a semana, mas na sexta-feira, casa pra que te quero! Muitas vezes no domingo pegávamos o último ônibus para Campos, um monte alegre de estudantes, mas de vez em quando perdia-se esse horário e… madrugar para pegar o trem!

Na estação a máquina bufava soltando fumaça, provavelmente enraivecida também por ter sido tirada tão cedo do descanso. Vagões quase vazios, em São João da Barra e estações seguintes mais passageiros sonolentos entrariam. Um bimbalhar de sino, um apito longo e cheio de mágoa por ter arrastar os vagões por mais de 40 quilômetros, e o comboio se movimentava, a princípio devagar, aumentando a velocidade aos poucos, bufando sempre. O menino ainda bocejava, mas logo sua atenção era capturada pelo que via passando ao lado da composição: mato molhado de orvalho, onde árvores se misturavam a cactos, coqueiros rasteiros e cipós pendentes. Cabritos saltitavam e mastigavam folhas de pitangueira com uma disposição invejável, era possível que não tivessem de ir para a escola. Aos poucos os olhos do menino brilhavam de prazer enquanto o trem, passada a estação da cidade, serpenteava alegre, acompanhando o curso do rio Paraíba do Sul, um desfilar de beleza de garças majestosas, socós tímidos, miuás mergulhados até o pescoço, anus em bando, bois e cavalos nas ilhas do meio da corrente. De vez em quando uma parada, ora para abastecer o monstro de água e lenha, ora para pegar gente, latões de leite, caixotes de legumes e frutas. Quando a gente entrava em Campos, perto de duas horas depois, já começava a sentir saudades da viagem.

Passear de trem era tudo de bom. Sem pressa, sem atropelo, sem confusão. Só um pouco de fumaça e faíscas. Quando meu avô ia a Campos para pegar o expresso que o levaria à casa dos filhos no Rio, vestia um guarda-pó branco, como os demais passageiros. A viagem era longa, levava-se um farnel com frango assado com farofa, arroz soltinho e batata frita. No vagão restaurante comprava-se algo para beber. Podia se adquirir também o almoço, mas a viagem era considerada muito cara e levado de casa poupava-se para gastar na capital federal.

O trem foi um veículo desbravador e integrador que a era juscelinista deixou pra trás, abrindo caminho para o surgimento do automóvel e seus problemas. Em países com a dimensão continental do nosso, como os Estados Unidos e Rússia, os dois tipos de transporte coletivo convivem sem problemas, mas aqui, por alguma razão, a grande rede ferroviária precisou ser desmontada para que as montadoras de automóveis e caminhões prosperassem. No meu fraco entender, foi um erro.

Continuei amando os trens, mesmo depois do nosso ramal ter sido transformado numa saudade gostosa. Viagens memoráveis fiz como a Pindamonhangaba (paulista usa esses esdrúxulos termos indígenas para atrapalhar os turistas) e de lá a Campos do Jordão, esta uma viagem de filme, o trem se arrastando pelos flancos da montanha, passando por petizes japoneses de bochechas coradas acenando da cancela do sítio e a São Paulo. Dormi toda a viagem de Madri a Lisboa e acordei com a visão inesperada de um castelo surgindo no meio de um rio. Toda a viagem a Portugal, com pequenas exceções, foi de trem. A estação de Tomar, onde fui visitar o castelo que abrigou os últimos Templários, era um cromo, com seu jardinzinho cheio de flores e suas pereiras debruçando sobre a gare os galhos pejados de fruta que ninguém tocava.

O trem faz muita falta e gostaria que voltasse a apitar sobre trilhos. Seria bom para a economia, pois reduziria o consumo de combustível, transportando um maior volume de carga por viagem, liberaria as rodovias para os automotores, diminuindo o número de acidentes, mortos e feridos que maculam as páginas dos jornais nacionais, entre outras coisas. Volte, trem, não o do passado, tão romântico e rústico, mas sem espaço nesses tempos de tecnologia galopante, mas voando sobre colchões de ar como no Japão e em outras modernas sociedades. Não se esqueça, porém, de fazer soar um apito, já que a fumaça, as faíscas e o uuuu, cadê papai, cadê seu pai, não terá mais.

SJB, novembro.16

 

 

10 \10\UTC novembro \10\UTC 2016 at 08:12 Deixe um comentário

O OBELISCO DO PORTO

Em recente reunião no Palácio da Cultura promovida pelo acadêmico André Pinto para exibir o acervo da casa e festejar os 100 anos do samba, presentes o jornalista Bruno Costa, o professor doutor Alcimar das Chagas Ribeiro, o ator Silvano, a pintora Márcia Cputinho, entre outros,  discutiu-se sobre a pasmaceira em que caiu a atividade cultural do município, com o fim dos grupo teatral Nós na Rua, o fechamento para o público da Casa de Cultura Zenriques e outros eventos tristonhos, o que me fez lembrar a matéria publicada no jornal campista Folha da Manhã daquele dia sobre a inauguração de um obelisco para comemorar o centenário, se não me engano, de Nilo Peçanha.

Fato marcante e bonito, como não aconteceu no sesquicentenário de nosso município. Lembro que na época a Casa de Cultura Zenriques, sugeriu que se criasse o Memorial da Navegação entre as ruínas do trapiche dos Araújo, um dos últimos baluartes da arquitetura da época de nosso porto, bem como se levantasse um obelisco no cais do imperador, homenageando os homens e mulheres que fizeram do porto de São João da Barra um dos mais importantes do país, tanto que mereceu a visita de um chefe de estado, o imperador Pedro II. A ideia caiu no areal inóspito onde deve habitar ainda nosso padroeiro, certamente escolhido por ser um santo que pregava no deserto.

Para que a ideia não caia no esquecimento total, o que é muito facilitado pelas areias soterradoras trazidas pelo vento nordeste, que apagou as mínimas lembranças de nosso melhor período econômico, a ponto de uma linda estudante perguntar a uma amiga se aquelas grades que enfeitam o cais erguido pelo Barão de Barcelos, eram “pra gente apreciar o por do sol”.

Eis a síntese do projeto do obelisco:

“Ideia para um monumento aos portuários – obelisco

Sobre uma base quadrada, cercada de estreitos canteiros com as flores branca e roxa da Saudade (flor que era típica de nossa cidade, mas parece que está extinta), um obelisco de concreto, com no mínimo cinco metros de altura, se erguerá, com quatro faces no pedestal, cada uma ilustrando um momento de nosso falecido porto e dos navios que aqui aportavam para deixar ou levar cargas e passageiros (chegavam a 75 navios/mês).

Na primeira das faces o alto relevo de um navio a vapor ou a vela, ou os dois.

Na face 2, a frase “Homenagem da cidade de São João da Barra aos homens que fizeram deste porto, no século XIX, um dos mais movimentados da província do Rio de Janeiro.”, ou algo semelhante.

Na face 3, o alto relevo de uma prancha, com as velas desfraldadas e um prancheiro a empurrá-la com o remo apoiado no peito.

Na face 4, relação dos profissionais da navegação homenageados: marinheiros, taifeiros, oficiais, prancheiros, canoeiros, operários, artesãos, estivadores, trapicheiros, carpinteiros, armadores, exportadores e importadores, práticos de rebocadores e escravos, homens que fizeram deste antigo porto flúvio-marítimo um dos mais movimentados da província fluminense até à Segunda Guerra Mundial..

7 \07\UTC novembro \07\UTC 2016 at 11:29 Deixe um comentário

NOITE OUTONAL

Os lençóis ardem

e não permitem o sono

ao poeta cansado.

Seu corpo pontilhado

de gotas de suor

não deixa marca

nos lençóis em fogo.

Serão menos quentes

as praias do Nordeste

e as areias de Aruba?

Serão menos hostís

ao corpo adormecente

em qualquer parte do mundo?

É época de transição

de preparação para os tempos ansiados

de frio e calor.

Aqui o outono é uma bobagem

um nome sem significado.

Mesmo na noite

os lençóis ardem como se abrigassem

amantes em primeiro encontro.

Fiapos de brisa roçam desanimados

o corpo inquieto

e o travesseiro úmido

é tão hostil quanto a vida.

A janela oferece uma trégua

mas as pálpebras pesadas do poeta

não se encantam com a visão

do morro estrelado

sob um céu duro

salpicado de pontos de fogo.

 

13.04.198 ?

* Esboço de poema encontrado entre papéis velhos em incursão pela antiga biblioteca, hoje quarto de despejo em 18.05.2015. Não lembro quando foi escrito.

16 \16\UTC setembro \16\UTC 2016 at 17:20 Deixe um comentário

DIA DA PÁTRIA

As comemorações do Dia da Pátria em Campos e São João da Barra me trazem recordações.

Sendo feriado e a farmácia de papai em Campos não estando incluída entre as que ficavam de plantão naquela vez, na década de 50, a gente visitava as casas dos avós. A do avô materno em São João da Barra era uma delícia, o sobrado permitindo que a gente apreciasse da sacada o pouco movimento da rua e brincasse no jardim e no quintal; a do paterno, uma fazenda em Pipeiras, apesar dos animais domésticos e outros, das roscas de milho, do ovo batido, do doce de jenipapo na chapa do fogão de lenha, de um doce com pimenta chamado farte, dos biscoitos, bijus, tapiocas e queijos, das canas finas espremidas diretamente na boca ou cortadas em roletes, nem sempre era boa, a começar pelas acidentadas viagens de dia e volta.

Depois de saídos da estrada principal, a que levava até Atafona, entrando por Cajueiro ou por Caetá, pegávamos caminhos de areia ou lama. Como a fubica de papai era antiga, geralmente comprada de segunda ou terceira mão e frequentadora constante de oficinas, ela sempre atolava e seus eixos não tinham força para levá-la adiante. Era um sufoco cavar a areia e cobrir com galhos de árvore para dar firmeza aos pneus. Cada viagem uma epopeia. Lembradas agora essas viagens eram verdadeiras comédias, com momentos de non sense, brigas e risos. Dão saudades.

Lembro-me de uma, os filhos já adolescentes e morando na cidade sanjoanense, em que a camionete parou de funcionar junto à casa de um paciente – por que papai fazia a ronda dos doentes da parte sul do interior do município, levando remédios e orientação – na área chamada de Perigoso. Antes da descoberta da falta de gasolina, razão do carro não funcionar, papai ganhara um bacorinho – quase sempre seus pacientes o remuneravam com pequenos animais, frutas e legumes – bem gordinho e forte. Pois o danado escapou na hora de ser manietado para ser colocado na carroceria, onde viajavam os filhos mais velhos, a empregada e metros de lenha seca.

Depois de muita correria, gritaria e arranhões, pois o bichinho se enfiava impávido nas macegas em volta e nós íamos atrás, caindo e rindo pra valer, ele foi apanhado e colocado aos guinchos na carroceria da fubica. Satisfeitos, nos despedimos dos donos da propriedade e nos preparamos para chegar em casa, tomar um banho, jantar e se possível dar uma volta na praça. Anoitecia. Papai girou a chave e nada do motor pegar. O que foi, o que não foi, descobriu-se que a gasolina acabara. Se não tivéssemos parado ali íamos ficar no meio da estrada. Era pouco o movimento de automóveis e lá fui eu, escolhido para embarcar no primeiro ônibus que passasse e que deveria ser o último horário do dia da empresa. Deveria chegar em casa, pegar a bicicleta que tinha uma espécie de rack na frente do guidão, pegar um latão de cinco ou dez litros, encher no posto de gasolina e levá-lo de volta aonde o porquinho e nossa família aguardavam transporte para o lar, para onde seguiam também abóboras, melancias, abacaxis, cachos de bananas de vez e outras miudezas comestíveis. Como pedalei naquele anoitecer!

Quando estudava em Campos morava na pensão de um primo de papai, Alfeu, primeiro na Rua 21 de abril (Hotel Novo Mundo) e depois na Alberto Torres, em frente à entrada lateral dos cines Coliseu e Goitacá. Gostava da parada escolar em si, a gente desfilava com garbo, ao som da bateria da escola. Tanto a bateria do São Salvador quanto a do Liceu de Humanidades eram consideradas de primeira linha. Nas duas semanas antes do desfile a gente treinava à noite, marchando ora pelos espaços externos dos colégios e ora pelas ruas. No último ano no Liceu, por causa a minha altura – naquela época era considerado alto – fiz parte da guarda de honra das bandeiras do Brasil, estado, município e escola (acho que era isso) e a exigência de marchar bem era maior. Íamos quatro em destaque, ladeando cada uma das bandeiras e qualquer fora do ritmo era fatal. Atrás de mim marchava um colega que vivia reclamando da minha marcha, avisando que ia trazer um alfinete para me espetar quando errasse. Não sei se por isso marchei direitinho no dia da Pátria.

Eram muitos os colégios a desfilar. No tempo em que estudei no Ginásio São Salvador, de doce memória, vestíamos impecáveis uniformes brancos e camisa com gola rolê e logotipo colorido da escola no peito. Muito bonito, eu sentia orgulho ao vesti-lo. À frente, devidamente ajaezado, ia o belo carneiro do colégio, mascote do diretor. Depois vinha a turba de alunos. Era bonito o desfile, mas cansativo.

Pior era o desfile do Liceu. Como o colégio era o último a desfilar, precedido por uma briosa cavalgada dos alunos-cavaleiros, cujos pais eram fazendeiros, ficávamos um tempão parados na beira-rio esperando a vez. Os cavalos davam um toque especial ao desfile e enquanto esperavam cabriolavam. No ano em que desfilei como guarda de honra da bandeira tive de usar luvas. Dado o longo tempo de espera, e eu não tirava as luvas com medo de perdê-las e por achá-las muito bonitas, minha mãos incharam e quando tudo acabou, já de volta à pensão, para tirá-las foi o maior sufoco. Tive de botar as mãos numa bacia de água fria, para que desinchassem.

Tudo isso ficou pra trás, muito lá pra trás. E o que não era muito bom tornou-se risível e o que era bom ficou ótimo.

SJB, set/16

8 \08\UTC setembro \08\UTC 2016 at 09:33 Deixe um comentário

ROSA CONSTRUÍDA (poema)

Para que surgisses, úmida e brilhante,

Dentre espinhos e folhas recortadas

Foi necessário que antes em mim existisses

Fruto da solidão e anseio de beleza.

A tua cor foi prevista nas madrugadas

Inúteis que surgiram depois das despedidas;

A sensação docemente exasperante

Que meus dedos arrancam de tuas pétalas,

Veio da rude seda dos corpos amados

Em momentos de nenhum amor;

E teu perfume, espiral de angústia e sede,

Antes de te envolver banhou de desejo

Os crepúsculos que antecederam a saciedade.

……………………………………………………………

Para que surgisses, rosa, perfeita e exata,

Foi necessário que de meu ser brotasse

A sombra da beleza jamais encontrada

E a esperança inútil de alcançá-la.

E se te lembro agora tua construção penosa

Não é para isentar-me da culpa de colhê-la

Mas para tentar amar os andaimes que restaram.

5 \05\UTC setembro \05\UTC 2016 at 15:26 Deixe um comentário

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