OS ENCANTOS DA RESTINGA SANJOANENSE

Leio na edição de 27 de agosto deste ano do filhote de O Diárionf, de Campos, para nossa cidade, que a Prumo Logística Global lançou on line seu belo livro “O tempo e a restinga”, coordenado pela Química ambiental Maria das Graças (Graça), Vicente Mussi Dias, Geisa B. de Siqueira e Daniel Nascimento. O livro é uma preciosidade e merece ser lido por todos os que se interessam pelo nosso município e pela ecologia.

A restinga, que engloba a mata do Caruara faz parte da RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural – administrada pela Prumo, que anteriormente pertencia à MMX. Acho que engloba também a parte sanjoanense de outra preciosidade, a Lagoa do Salgado, descoberta e assim nomeada pelos Sete Capitães em 1634. Caruara, segundo o Google, significa feitiço, mau olhado e tremedeira nas pernas, e no Nordeste designa um vento de trovoadas que ocorre em janeiro. Engloba ainda a lagoa de Iquipari (águas espinhentas, graças ao surgimento em seu leito de uma planta com espinhos em certa época do ano) e já se chamou Lucrécia e a de Gruçaí, que tem esse nome por causa da abundância dos grauçás, aquele pequeno caranguejo amarelo que vive correndo como um desesperado pela praia.

O livro praticamente examina à exaustão a restinga, de ponta a ponta, só não fala sobre seus habitantes de carne e osso, o tamanduá mirim e outros. A supervisão do livro é do professor Renato Aquino, que assina o Prefácio. Renato, que foi meu colega do Ginásio São Salvador e do Liceu de Humanidades de Campos, me pediu e a outros autores um texto sobre o verão em Gruçaí. Foram incorporados ao texto principal.

Os autores do livro produziram material de primeira qualidade. A Prumo é responsável pelo reflorestamento e conservação de área de 3.845 hectares, onde plantou 500 mil mudas de plantas da restinga, algumas ameaçadas de extinção como pau-ferro, o ingá-mirim e o ocambucá. A ação repõe plantas de uma área devastada que protege a faixa marginal das lagoas. A primeira parte do livro, bilíngue, fala desse esforço e conta que foram resgatados e reintroduzidos na RPPN cerca de 16 mil animais de 245 espécies natas da restinga, algumas também na lista de animais ameaçados de extinção.

A segunda parte do livro, intitulada Cores e Aromas, é sensacional. Com fotos lindas das plantas recenseadas, traz ficha catalográfica com todos os dados de cada uma das plantas fotografadas que possam interessar a estudiosos e leigos. A ficha traz seus nomes científicos e populares e assim fico sabendo que a saborosa pitanga é uma eugenia uniflor que, além do prazer gustativo, tem efeitos antitérmicos e antidiarreicos, analgésicos, diuréticos, vaso-constritor e anti-hipertensivo. Quanta coisa que eu desconhecia mas que certamente os moradores ali nascidos e criados sabem e usam. As eugenias são muitas e estão espalhadas por aquelas areias; uma delas é a famosa aperta cu, para os íntimos aperta, boa para deter diarreia, o famoso chá de rolha, e é uma eugenia astringens. Também o cambuí, que nos meus tempos de criança era vendido em molhes pelas ruas, é uma eugenia, a candoleana.

Entre outras curiosidades fico sabendo que o coquinho que chamávamos de coco catarro, que maduro tem uma cor linda e um perfume gostoso, é uma allagoptera arenaria e pode ser consumido cru – como fazíamos no chão da varanda da casa de vovô depois de quebrá-lo com uma pedra – ou amassados com farinha de mandioca e usados para preparar bebidas, cocadas, geleias e biscoitos, veja só! A salsa da praia, com seus cordões subterrâneos, que nos fazia tropeçar nas corridas pelo areal, é uma remírea marítima e serve para aromatizar a cachaça, e diurética, sudorífica e auxilia no tratamento de males da bexiga. Os biriteiros sabiam o que bebiam. O murici, com suas era usado para tingir redes de pesca com o sumo de suas raízes e casca para enganar os peixes. Com suas flores amnarelas é utilizado na decoração de salas.

Aquelas florzinhas espalhadas pelas areias que distraída a gente pisa sem prestar atenção, nas fotos deste livro viram obras de arte, com cores e formatos diversos, cada qual mais bela. Quem acessar o livro vai ficar encantado, garanto, e nunca mais vai andar pelas areias da restinga sem prestar atenção nesses presentes da natureza.

Liberar o livro na internet é essencial para se conhecer um pouco mais de nossa região e suas características. Sempre estimulo a produção e divulgação de livros sobre nosso tão esquecido município. Além de esperar outro volume com texto e fotos sobre os animais típicos da restinga, gostaria de ver um outro sobre a Lagoa do Salgado e seus biohermas calcários, monumento geopaleontológico da região.

Seria bom se pudesse ser divulgado, não só em publicação científica, o trabalho de conclusão de curso “Estrutura e composição florística de quatro formações vegetais de restinga no complexo lagunar Grussaí/Iquipari”, de Jorge Assumpção e Marcelo Nascimento, publicado na ACTA BOTANICA BRASILICA, vol, 14, nº 3, São Paulo, set/dez 2000. O município precisa dessas publicações, bem como dos dados coletados e analisados pelo economista Alcimar Ribeiro, para definir sua identidade.

27.08.2016

28 \28\UTC agosto \28\UTC 2016 at 11:04 Deixe um comentário

VOTAR EM QUEM?

Esse dilema que atordoa milhões de brasileiros a cada eleição não mais me perturba, estou com a validade eleitoral vencida, já cruzei a faixa dos 70 anos. O que para muitos é ofensivo, achar que velho não tem discernimento para escolher os próximos gestores de legisladores, para mim representa um alívio, pois não saberia em quem votar, tal a safra de candidatos apresentada.

É só acompanhar o noticiário para se entender o que acontece com o eleitor nacional na hora de escolher em quem votar. É um escândalo atrás do outro envolvendo políticos de todos os partidos. Mal dá para respirar. No momento estamos vivendo a perplexidade de ter de cassar a presidente da República e o deputado ex-presidente da Câmara dos Deputados por improbidade. Como confiar em alguém para lhe entregar um cargo executivo ou legislativo?

Dói, viu? E aí a gente se pergunta: votar em quem?

A temporada de convencimento do eleitor já foi aberta. Ouviremos as promessas de campanha dos candidatos, que certamente não cumprirão, esbarraremos diariamente em banners, cartazes, santinhos e panfletos, ouviremos suas cantilenas nos rádios, veremos seus rostos fotoshopados na televisão, tudo pago com dinheiro do Fundo Partidário, que é dinheiro nosso, dos extorsivos impostos que pagamos. Se ainda houvesse bom retorno em obras para melhorar a qualidade de vida da população. Na realidade o que melhora é a vida dos políticos e de seus marqueteiros. Recentemente um presidente de um partido nanico gastou parte de sua cota do Fundo na compra de uma camionete importada. Quem era pobre continuará desassistido e desiludido e na próxima eleição votará no mesmo candidato, pois é um daqueles que o partido apresenta, sem ver sua folha corrida, sem examinar seu passado. Quem escolhe é o partido. A gente só pode escolher entre os indicados. Resta o voto nulo.

E o povo vota, alguns eleitores crédulos acham que dessa vez vai melhorar, outros votam sabendo que estão vendendo seu voto para um corrupto melhorar sua atuação deletéria, outros por que lhe disseram que votar é um ato de patriotismo, que seu voto corrigirá o erro da eleição passada. Corrigir como, se os nomes que lhes são apresentados já vêm com a marca da corrupção, do desmando, da incompetência?

E aí surgem os políticos sem projeto para o município, o estado, o país, sua gana de atacar os cofres públicos, de ostentar. Mesmo sendo obrigado a votar, ao contrário do que acontece em países desenvolvidos, onde o voto não é obrigatório, ele vota sem critério, sem saber quais os planos do candidato, às vezes por simpatia, outras por se achar devedor de algum favor, ou para pagar a conta da luz, dos remédios, enfim, por razões que não as que deveria atender.

A corrupção parece ser o padrão comum à maioria dos interessados em ser eleitos. A presidente da Câmara de vereadores do Distrito Federal confessou a um jornal que emprega como assessores em seu gabinete analfabetos e incapazes, mas que a ajudaram a se eleger. E como ela foi eleita? Não foi com o auxílio desses assessores, entre os quais deve se incluir seus parentes e apaniguados. Quem realmente a ajudou e a outros eleitos a serem diplomados foram principalmente os famosos e caros marqueteiros.

Na próxima eleição a coisa não vai ser tão fácil. Com a proibição de apoio financeiro de empresas e instituições, a grana vai encurtar. Uma campanha bem feita não fica barata. Muito dinheiro pinta na jogada, dinheiro que será recuperado para as empresas doadoras através de sobrepreços em contratos, em aditivos, e outros macetes. O financiamento por empresas é um convite, uma porta aberta para a corrupção, como a operação Lava Jato tem mostrado. E as doações de pessoas físicas não são desinteressadas, buscam, no mínimo, empregos públicos para os parentes do doador. Como resolver esse dilema? Como votar para ajudar ao país e a si mesmo?

 

 

 

 

22 \22\UTC agosto \22\UTC 2016 at 14:23 Deixe um comentário

A OLIMPíADA 2016

Estamos a 10 dias do início da Olimpíada Rio-2016. E muitas dúvidas brincam em minha cabeça. Pra começar acho que nosso país não estava pronto pra sediar um evento desse porte. Vivendo uma séria crise político-econômica, precisando restringir os gastos, mesmo os indispensáveis, vai ter de diminuir o atendimento médico e escolar da população, que já não era dos melhores, para atender às exigências da festa. Não sei se constatando o fiasco que foi a Copa do Mundo de dois anos atrás o país poderia pedir para trocar a data do evento  para quando o país estivesse bem. Mas devia poder.

Essa escolha foi uma comédia de enganos que começou com o trabalho do ex-presidente Lula junto aos organismos internacionais responsáveis pelos jogos olímpicos para aqui sediá-los e provar ao mundo que o país estaria entre as potências mundiais. Lembro dos pulos de alegria da equipe presidencial tanto na escolha da sede da Copa do Mundo como na da Olimpíada. Uma festa, os figurões se abraçando, soltando gritos de júbilo sem atentar para as despesas que isto acarretaria. Nunca antes, na história deste país, etc…

A realização dos jogos tornou-se um pesadelo para os conscientes. As obras caríssimas da cidade olímpica não ficaram prontas, os alojamentos dos atletas estão sendo entregues sem estar habitáveis, a mobilidade dos participantes, moradores e visitantes não atende ao desejado e temos de ouvir os pitacos engraçadinhos do prefeito carioca.

Outros fatores toldam a festa. A começar, a proliferação de mosquitos que trazem a dengue, a zica e o chicungunha, o que causou a desistência de muitos atletas. Em seguida a letal violência urbana que grassa nas ruas do Rio de Janeiro, onde balas perdidas e assaltos cruéis abatem moradores e turistas.  Por outro lado, a decantada Força Nacional, contingente altamente preparado para enfrentar bandidos, está sendo confrontada pela milícia que age dentro da favela vizinha ao condomínio inacabado do programa “Minha casa, minha vida” do governo federal onde os policiais estão alojados. Os componentes da Força tiveram um aviso logo ao chegarem, quando pedradas atingiram seus veículos, sobre quem manda aqui. E mais a poluição da baía de Guanabara, invencível.

E têm as ameaças de atentados terroristas, que recentemente destruíram vidas na França, na Bélgica, no Afeganistão, Japão e outros países. O ministro da Justiça, numa entrevista aos meios de comunicação, que desagradou até aos moradores dos palácios governamentais brasilienses, garante que está tudo sob controle e exibe a prisão de alguns supostos terroristas, que chamou de amadores, que vivem em pontos distantes do país e se comunicam via internet e nunca se viram. Um deles encomendou um rifle no Paraguai, quando nas favelas brasileiras são encontrados a preços de mercado, segundo ouvi dizer. O ministro tinha razão, tanto ele quanto o da Defesa, são amadores os nossos terroristas.

Mas será que são só esses amadores que estão planejando ataques durante os Jogos?

27 \27\UTC julho \27\UTC 2016 at 12:17 Deixe um comentário

A CANÇÃO DO REI SEM TRONO

          A CANÇÃO DO REI SEM TRONO

Minha camisa bordada

rasguei em tiras, rasguei

E os fofos de renda branca

em  pedacinhos piquei.

Meus calções de veludo

longas meias de pavão

azuis como os olhos dela

destruí com estas mãos.

As fivelas das botinas

– brilhantes em velho ouro –

arranquei-as, joguei  longe

junto com o cinto de couro.

Botinas belas e macias

como as minhas jamais vi.

Serão em breve ninhos de rato

em qualquer lixo por aí.

E minhas luvas de pelica?

E meu manto de brocado

azul salpicado de estrelas?

Dei-os a meu velho criado.

Minha espada cravejada

enterrei-a não sei  onde.

Com ela venci exércitos

um barão, um bispo e um conde.

Meu feroz e atilado cão

meu esbelto e veloz cavalo

matei-os com mãos trementes

e enterrei-os num valo.

E a minha loura amada

tão medrosa e tão criança

já fugiu, apavorada,

vendo que o inimigo avança.

Estou só no meu castelo.

Fidalgos, arqueiros, besteiros

fugiram ligeiro empós ela

com medo dos estrangeiros.

 

Estou só e fiquei nu

ao sol, ao vento, ao luar.

Escuto gritos de guerra

e ao longe o som de tambor.

Avançam os miseráveis

já ouço passos na escada

vêm vindo, procuram o rei.

Solto longa gargalhada.

 

Um rei nu não é um rei.

Onde a espada, a coroa,

um rei sem manto estrelado,

Sem cetro? Essa é muito boa.

Arrombam a pesada porta.

Querem o rei? Não o terão.

Eu lhes entrego um homem nu.

Não serve ? Não querem não?

Os inimigos partiram.

salvei o rei da tristeza,

da humilhação, da vergonha

de uma prisão. Num rei nu

ninguém encontra realeza.

                                                      Rio, década de 70.

16 \16\UTC julho \16\UTC 2016 at 15:50 Deixe um comentário

MEUS CAMINHOS I

Na farmácia do meu pai, em Campos, havia um longo balcão, coberto por placa de mármore branco, onde eram processadas pomadas e cápsulas de remédios que nesse tempo eram feitos artesanalmente, hoje substituídas por comprimidos e cremes. Eu teria entre 8 e 10 anos e passava tempos ociosos ali, vendo o fabrico de poções, aplicação de injeções e ouvindo conversas de adultos. Acaso me caísse nas mãos um lápis preto, usava o espaço branco como uma folha de papel e desenhava. Casas, bonecos, bichos, tudo o que me desse na telha. Meu pai não se importava e demonstrava até um pouco de orgulho e os adultos se mostravam admirados e preconizavam que eu seria engenheiro. Ledo engano.

Enquanto convalescia de impaludismo, isolado num quarto na meia água que fechava o quintal, onde tinham sido deixadas as cédulas da eleição anterior, sem ter o que fazer eu usava o verso em branco para rabiscar. Minha mãe costumava desenhar cabeças de mulheres com cabelos espiralados em volta do rosto que aprendi a fazer e passei desenhar também os corpos. Me lembro que papai ria muito ao mostrar aos amigos os desenhos das mulheres com peitos pontudos, voltados um para cada lado.

Na escola rabiscava alguma coisa, o artista adormecera com o peso das informações que recebia e havia colegas que desenhavam muitíssimo melhor que eu. Certa vez, adolescente, fui passar uns dias na fazenda de minha avó, em Pipeiras, e como não havia com quem me distrair me vali de um bloco e lápis preto que levara – já imaginava como seria o tédio ocioso daqueles dias – e desenhei bois, carroças e árvores e o retrato de Paulinho, um rapazola de minha idade, mais ou menos, que ajudava vovó em certas tarefas. Os elogios me estimularam a fazer um curso de desenho a mão livre com um professor de Campos. Fiz alguns bons trabalhos, mas as aulas duraram pouco tempo. Aprendi a desenhar com caneta de nanquim e a usar esfuminho.

Nessa época, em que devia escolher que carreira seguir, não sentindo interesse por nenhuma, optei por fazer vestibular para medicina, talvez por papai ter farmácia. Durante dois anos estudei em curso pré-vestibular em Niterói e morava numa pensão na rua Saldanha Marinho, onde um tio meu vivia. Ali conheci Francisco, oriundo da região dos Lagos. Tinha minha idade ou pouco menos e gostava de trabalhar com aquarela para se distrair. Eu não conhecia aquarela e me apaixonei por sua facilidade e leveza. Durante muito tempo, ao invés de estudar me dedicava a desenhar e pintar os telheiros que via de minha janela e outras paisagens mentais. O primeiro quadro a óleo que pintei, com cerca de 30 centímetros de altura, retratava a atriz Norma Benguel fumando, encostada num poste, copiada do anúncio de um filme.

Não passei no vestibular, medicina não era minha praia, ajudando papai na farmácia não suportava ver o sofrimento das crianças. Tentei o vestibular no ano seguinte e novamente fui reprovado. A verdade é que não estudava, me metia no quarto com um livro, desenhava ou escrevia minhas histórias. De volta a Atafona, onde a família estava morando, desenhava e lia gibis – por lá não encontrava livros – e atendia na pequena farmácia que meu pai construíra na lateral frontal da casa, enquanto a moçada ia a praia. Eu só pensava em voltar para o Rio, não para estudar. Queria trabalhar, viver minha vida. Em algumas horas desenhava e pintava com aquarela. No verão o jogo de cartas, especialmente pôquer e pif-paf, funcionava na garagem, aonde ia levar café e fazer pequenos mandados, como comprar sanduíches, cerveja e cigarros para aos jogadores.  A esposa de um deles viu dois quadrinhos que eu havia feito com figuras de desenho animado e resolveu comprá-los. Só que nunca me pagou e era o dinheiro que eu pretendia usar para comprar uma passagem para o Rio. Como também apontava jogo de bicho no balcão da farmácia, tinha um dinheirinho de comissões guardado e de saco cheio resolvi tentar a sorte.

No Rio trabalhei por cinco anos na RioLight, uma companhia canadense que administrava a energia elétrica e os bondes na cidade do Rio de Janeiro. Além de almoço a Companhia oferecia a seus empregados um lanche à tarde e diversos tipos de curso. Cursei inglês e desenho. O curso de desenho durou cerca de um ano, pois o professor, Fernando Lamarca, ganhou uma bolsa de estudos na Europa. Além de uma cabeça de Cristo em carvão, que muito me orgulhava, desenhei o rosto de colegas de trabalho. Ficaram bons. Fiz trabalhos em pastel que não sei onde foram parar.

Tínhamos, sob a batuta de Alberto Simões, fundado a Casa de São João da Barra, que além de baile e missa no Rio no dia de São João Batista, promoveu em São João da Barra a I Mostra de Arte Sanjoanense. Nessa época enviava regularmente para a coluna “Letras & Problemas” editada pelo professor Joel Mello no jornal A Notícia, de Campos, desenhos e textos.

Trabalhei anos no DNER e nos momentos de folga desenhava. Fiz um curso no Instituto Oberg que interrompi por falta de dinheiro.  Fiz mais trabalhos em aquarela, técnica que muito aprecio e que exige a paciência que nunca tive. É um trabalho delicado. Nesse período desenhei vários rostos, inclusive o da minha mulher e de colegas da repartição, mas a bronca de uma colega que se achou feia no desenho interrompeu a atividade. Em casa pintava e tendo comprado cavalete e mochila saía com um companheiro para pintar. Retratamos, por exemplo, cenas na favela da Praia do Pinto, onde moravam muitos sanjoanenses e na ilha de Paquetá.

Nessa altura, tanto o médico quando o engenheiro tinham ido para o espaço. Eu vivia esperando que algo acontecesse, não sei o que. Enquanto esperava fiz cursos, de jornalismo na Associação Guanabarina de Imprensa, de Língua e Literatura Espanhola no Instituto de Cultura Hispânica, de pintura com Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna e outros de menor duração na Biblioteca Nacional e na Academia Brasileira de Letras. Fiz Curso de Mídia e de Publicidade e Marketing na ESPM mas não dava para cursar faculdade, o que fiz depois de casado. Foi um dos caminhos que trilhei, depois conto mais.

SJB, maio/16

 

1 \01\UTC junho \01\UTC 2016 at 16:45 Deixe um comentário

OS PAPA-CAPINS

Há muito quero falar desse assunto, ainda não sei se vou abordá-lo de forma correta, mas não dá mais para esperar. Meus dedos coçam a cada vez que vejo passar alguém com um papa-capim encerrado numa gaiola coberta com um pano branco ou canários da terra a pipilar em gaiolas penduradas nas paredes.

É uma maldade maior, eu acho. Além de presa, sem poder voar, sem liberdade, a pobre ave é privada da visão do ambiente que a cerca. Talvez, comenta um conhecido, seja para evitar que ela se desespere e se jogue contra as varetas de sua prisão na busca de bater as asinhas e pousar num dos galhos das árvores para sentir o frescor de sua sombra, o suave farfalhar das folhas, o estimulante perfume das flores, o contato com outros seres voadores como borboletas, mangangás, vespas e abelhas e outras espécies de pássaros.

Meu pai gostava de passarinhos em gaiolas, eu não. Admito, no máximo, os nascidos em cativeiro, como canários e periquitos australianos. Soltos não saberiam como fazer para se alimentar, seriam presas fáceis de outros caçadores. Me afirma outro amigo que assim preservam a raça. Qual! Como preservam, se eles não podem se reproduzir, e se pudessem, como os canários, estariam criando novos prisioneiros?

Criadores se especializam na reprodução das aves para venda. Curiós, por exemplo, valem muito dinheiro. E traficantes de pássaros se arriscam em matas inóspitas para arrancar filhotes de seus ninhos. Crueldade demais. Os sabiás da praia do Açu se acabaram porque os caçadores vigiavam o ninho para roubar filhotes do único casal que havia sobrado de anos de perseguição implacável. Um dia o casal morreu e a espécie se extinguiu na região. Em Rio das Ostras, no entorno da lagoa de Iriri, os sabiás da praia vivem soltos, ciscando a areia. É bonito de se ver.

Os pobres papa-capins são presos por crimes que não cometeram. Já indaguei de um orgulhoso possuidor de um desses cantadores da natureza como se sentiriam caso fossem presos sem culpa. Me respondeu com um sorriso amarelo, sem graça, dizendo não achar nada demais prender o bichinho e muito pelo contrário, se elogiou por lhe fornecer alpiste e água limpa, como se a ave não encontrasse isso na natureza.

Sou contra esses aprisionamentos. Sou contra jardins zoológicos, sou contra animais treinados para fazer gracinhas na base de pancadas ou privação de petiscos. Certa vez, acho que foi nos Estados Unidos, puseram numa jaula de um jardim zoológico uma família de seres humanos, um casal e seus filhos. Uma experiência cruel e não durou muito, porque os prisioneiros reclamaram. Aqui, pelo menos, proibiu-se a exibição de feras e outros animais nos circos.

Os pássaros não sabem reclamar. Ou sabem e seu belo canto, se traduzido para a linguagem humana, seja uma ladainha de reclamações e de lamentos pela liberdade perdida. E a liberdade é um bem precioso demais para ser tolhida. A liberdade é tão importante que fez parte dos motivos para a revolução francesa no século 18 e faz parte da bandeira do estado de Minas Gerais. A liberdade é um bem mais que precioso. Por ela lutaram os escravos no século XIX e presos se arriscam ao fugir de cadeias.

Aos domingos, no Ginásio de Esportes, dezenas de homens livres levam seus presos para participar de um concurso de cantos. Há prêmios para os vencedores do torneio. Quanto mais o pássaro cantar, mais ganha prêmio. E se esses cantos forem lamentos desesperados? Talvez no futuro, com o desenvolvimento de pesquisas e de decifradores de linguagens de animais se consiga entender o que cantam os papa-capins e outros pássaros cativos. Muitos donos de arrependerão de tê-los mantido presos, outros não se importarão. Continuarão a levá-los para torneios ou simplesmente para exibi-los e não se importarão de carregá-los pelas ruas, a pé, de bicicleta e outros meios de transporte, em suas gaiolas cobertas, num doloroso e ridículo desfile de insensatez e inconsciência, como os antigos senhores faziam com seus escravos.

RDO,abril.16

 

30 \30\UTC maio \30\UTC 2016 at 09:02 Deixe um comentário

DÁ PRA SER FELIZ ASSIM?

Quem assistiu na televisão a votação da autorização da Câmara para o Senado votar o impedimento da presidente Dilma de continuar governando o país (impeachment) deve ter ficado impactado não só pela emoção de mais uma vez ver justiçado um mandatário que errou, como pelo baixo nível dos votantes. A começar pelo condutor do processo, o deputado Cunha que está sendo investigado pela operação Lava-Jato e que já acumulou vários processos contra ele no Supremo Tribunal Federal.

A maioria dos votantes deve alguma coisa à Justiça, seja a eleitoral ou a comum, e se ainda não estão presos deve ser por fazer parte do seleto grupo protegido pelo foro privilegiado, ou seja, os intocáveis, o que, certamente estimula o cometimento de malfeitos, para não dizer crimes. Esse tipo de isenção só existe em nosso país. Em outros países todos são iguais perante a lei.

De eleição em eleição, muitas ganhas na base da compra de votos ou oferta de nomeação para cargos na administração pública de todos os níveis, os protegidos pelo foro especial conseguem se manter fora do alcance da lei até que o crime prescreva. São recursos e mais recursos emperrando o justiçamento. Exemplos temos aos montes, e muitos desses intocáveis estavam no plenário da Câmara votando.

Foi triste e ridículo ao mesmo tempo ver senhores engravatados, de aparência séria, os representantes do povo, se aproximarem do microfone ao serem chamados a votar e com a maior cara de pau, ao invés dizer sim ou não, fazer um comício, malhando o governo que a até poucos dias serviram servilmente ou elogiando torturadores e terroristas. E oferecendo seu voto a sua família.

Nos dias que antecederam a votação os jornais noticiaram que era grande a movimentação dos ameaçados poderosos do momento em busca de voto contra o impeachment, que prefiro chamar de impedimento. Prometiam cargos, benesses, mordomias, salvaguardas. A muitos isso não era suficiente e esperavam que o grupo adversário oferecesse um suborno melhor.

Em matéria de cara de pau ou nervos de aço ninguém vence os protagonistas da atual farsa nacional: os presidentes da República, da Câmara e do Senado. As acusações contra eles estão pipocando em seus pés, nas suas cabeças, e seguem impávidos como se fosse com outras pessoas. Olham o público/eleitores de frente, sorriem. Por muito menos pessoas normais teriam infartos ou, como nos países civilizados, renunciariam e se recolheriam ao ostracismo. No Japão alguns acusados se suicidaram.

Não é de envergonhar que na luta contra a corrupção, que analistas políticos dizem ser endêmica no país, recorra-se ao artifício dos acusados de comprar apoio? Isso não é também corrupção? Terrível ver homens que fazem as leis posarem de cidadãos impecáveis, com seus cabelos pintados e marcas de plásticas, mas na hora de votar dizerem que optavam pelo sim ou pelo não em nome de Deus, da pátria, da família e dos amigos. E sequer ruborizavam. Riam, davam-se tapinhas nas costas, olhavam desassombrados para a câmera da TV Câmara, sem piscar.

Não sei o que é pior: tirar ou deixar Dilma no governo. As opções para os candidatos a seus substitutos não entusiasmam, são políticos envolvidos em maracutaias e malfeitos de várias espécies e que, provavelmente, não vão parar por aí. Ainda agora os jornais anunciam a prisão de mais um prefeito acusado de tirar dinheiro da saúde e da educação de seu município, crimes infames. Entre os votantes do domingo havia uma deputada, orgulhosa, cujo marido, prefeito de uma cidade mineira, estava sendo preso pela Polícia Federal por crimes contra o erário publico no momento em que ela votava contra a presidente.

A próxima etapa do impedimento vai se passar no Senado, presidido por outro acusado de corrupção em escutas telefônicas e documentos em poder da Lava jato. Será outro espetáculo deprimente?

Fala a verdade: dá pra ser feliz assim?

SJB, maio/16

29 \29\UTC maio \29\UTC 2016 at 16:18 Deixe um comentário

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