CANAVIAIS Lembro que tudo aqui era coberto pelos sussurrantes canaviais. Apenas a estrada, de barro, e algumas casas escapavam. O verde mar se estendia das cercanias de Macaé, engolfava Quissamã e outras localidades e se esparramava, escalando morretes e quase se atolando nos brejos, até um pouco depois de Barcelos, cuja usina barrava a expansão. Das casas dos trabalhadores, próximo à safra, só se via as tampas e um ou outro pé de genipapo, muito usado para doces e licores. Uma trilha estreita permitia que os moradores saíssem de casa para seus afazeres. Em um livro que li sobre a tragédia do fazendeiro de Carapebus, Mota Coqueiro, acusado de chacinar a família de um de seus empregados e executado e depois considerado inocente, os empregados sequer podiam ter uma horta ou outras plantas comestíveis no entorno de suas casas para não ocupar terras destinadas à cana de açúcar. A execução indevida de Mota Coqueiro e seus escravos, acusados inocentes da chacina, provocou o fim oficial da pena de morte no país. Meu avô Sá plantava cana em Pipeiras e quando minhas férias coincidiam com a época do corte das canas passava dias lá e admirava os trabalhadores vestidos dos pés à cabeça, calças e mangas compridas, sob um sol ardente, cortando canas e só muito depois fui entender que era justamente por causa da solina causticante, que causava câncer de pele, embora eles não soubessem, agiam instintivamente, que as roupas eram assim. Não me lembro de ter visto mulheres cortando cana, só homens magros, escuros, uma agilidade incrível com o facão, a derrubar quilômetros de canas que eram limpas de suas palhas e atiradas para o lado, formando corredores de canas cortadas, que depois seriam depositadas nas cambonas, grandes carros puxados por duas ou três juntas de bois, empilhadas até atingir o alto dos fueiros, que impediam que caíssem. Parece que estou vendo outro empregado, geralmente de pele escura, também coberto pela roupa e pelo chapéu de palha, o carreiro, andando ao lado da cambona, a sacudir o garruchão, uma vara de madeira dura com um agulhão de ferro na ponta com argolas de metal, fazendo as juntas de bois puxarem as toneladas de futuro açúcar, melado e rapadura, por estradas mal cuidadas, de barro ou areia, a gemer, dando voz aos pobres animais. A cambona ia até à balança, onde depois de pesada a carga era transferida para um vagão de trem ou caminhão. Quando o sol atingia o meio do céu, praticamente assando tudo o que tocava, um barulhento bando de garotos surgia de todos os lados levando pequenos embrulhos de pano branco, – lembro o sol reverberando nessa cobertura, – amarrados num nó, e os entregando aos trabalhadores que buscavam logo a sombra de uma árvore, abriam o pacote e devoravam o prato de comida, acompanhado da água da moringa, encerrando a refeição com um gole de café morno que vinha numa garrafa de vidro. Assim como veio, o bando de moleques, cada um com seu estilingue (ou bodoque) metido no cós da calça, bando alegre, palrador, inconsciente do duro futuro que os esperava, pegavam os pratos vazios e corriam pelo meio das palhas, rindo, contando prosa, programando peladas, caçadas a preás, a rolinhas, a outros bichinhos. Barriga cheia, seus pais e amigos se deixavam ficar um tempo derreados, as pernas estendidas, palitando os dentes falhados, a quem matara com o facão certeiro. Na sequência, um maribondo pousara na parte da cobra que fora cortada, sugara seu sangue, ao que parece, depois levantara voo e atraído pelo ir e vir do facão, partia para cima do trabalhador e o picava, provocando sua morte imediata, a cobra era uma das mais venenosas. Outros casos surgiam, alguém fechava os olhos para um cochilo, mas em seguida um grito os faziam se levantar, reclamando, pegar o facão e voltar ao trabalho. Para nós o canavial era um doce mar e corríamos atrás das cambonas e na cidade atrás dos caminhões que levavam as canas para as usinas, e puxávamos as que acaso ficassem penduradas na hora da arrumação. As mais finas eram batidas nos mourões ou postes até poder ser torcidas, o caldo caindo diretamente na boca; as mais grossas descascadas e cortadas em roletes que a gente chupava com gosto enquanto brincava ou caminhava. Á noite o canavial espalhava o medo, tanta coisa escondia, lobisomens e sacis, mulas sem cabeça e aparições, e o vento gemendo e bulindo nas folhas que pareciam amoladas espadas levava outras estórias pavorosas a entrar por baixo da porta, normalmente das cozinhas, arregalar olhos e derrubar queixos, além de provocar indesejáveis calafrios. As lamparinas projetavam sombras malignas nas paredes e os adultos sentiam inefável prazer em acrescentar mais pitadas de horror às narrativas. Com a decadência da indústria sucroalcooleira na região, graças à má administração, ao sucesso de plantações idênticas no estado de São Paulo, muito mais produtivas, à falta das enchentes do combalido rio Paraíba do Sul, que cobriam o massapê de fértil humos, os canaviais foram arrasados e em seu lugar surgiram grandes espaços vazios, ora ocupados por sem-terras que produzem lavoura de subsistência, ora extensos pastos para poucos bois e para nós, que vivemos naquela época, muita saudade. RDO/SJB-maio 2017

21 \21\UTC maio \21\UTC 2017 at 14:58 Deixe um comentário

NOITES DE VÍSPORA

Seu nome era Bernice  – poupo o nome real para não violar sua intimidade – e quando a conheci já passava dos 50 anos. Era baixa e magra, pele lisa, olhos escuros brilhantes, cabelos crespos e grisalhos amarrados num coque frouxo sobre o pescoço. Cheirava a lavanda. Era pobre, mas elegante no falar, no vestir e no caminhar, sem afetação. Sorriso entre tímido e receptivo. Solteirona, vivia com a mãe e a irmã mais nova, Etelvina.

Em sua casa modesta e incrivelmente limpa, num lugar onde o vento constante trazia areia e folhas secas, jogávamos víspora nas noites das férias de verão na praia. Um perfume suave de ervas frescas modulava o ar. Gaiola com papa-capim cantador nos alegrava. E tinha um gato, que dormia num canto.

Dia sim, dia não, no fim da tarde Bernice comandava uma mesa de víspora muito concorrida, ou seja, com os oito assentos em volta da mesa ocupados. Sua casinha ficava no meio do mato, os ramos das plantas coçando as janelas azuis. Para se chagar a ela atravessávamos a pequena ponte sobre o riacho que ia do rio Paraíba do Sul à lagoa e depois um caminho de areia branca. Crianças, adorávamos o trajeto, íamos pulando, correndo e gritando de alegria, assustando os camaleões, que disparavam sacudindo o rabinho, para baixo das esparramadas pitangueiras, dos coqueiros rasteiros, que a gente conhecia como coco-catarro e outras plantas luxuriosas que envolviam pés de caju, de ingá e cambuí. De vez em quando no riacho apareciam filhotes de jacaré papo amarelo desnorteados que o povo caçava para o almoço. Na época de pouca chuva tainhas vindas do rio rebolavam até serem abatidas a facão. Reforço de refeição. Contavam que nas noites de quinta para sexta-feira lobisomens alucinados faziam o mesmo trajeto, o que o tornava mais excitantes. Pena que só andassem de dia.

O víspora, que já se chamou loto e hoje é bingo, era animado e os jogadores eram pouco mais de 10. Mais gente viesse e não teria onde se sentar. Era o divertimento de verão e elas, nas longas e frias noites de inverno, sem frequentadores, à luz de lamparinas, que o lampião era reservado para o tempo das visitas,  jogava-se paciência pontilhada de suspiros. O cheiro de querosene queimado impregnava o ar da pequena sala que, além das portas de entrada e do corredor, tinha uma janela de madeira carcomida que não podia ficar aberta por causa dos golpes de ar, nefastos.

Acomodados os jogadores fazia-se silêncio e Bernice se postava na cabeceira que dava para o interior da casa e com seu sorriso mais cativante e acolhedor iniciava o jogo. À frente de cada grupo de três cartões numerados um montinho de caroços de milho ou de feijão. Ela nos olhava, um por um, e as crianças se impacientavam com a demora e se mexiam nos bancos, que rangiam. Os adultos, sempre senhoras veranistas, o rosto avermelhado pelo sol da praia, aguardavam com calma, mexendo e arrumando os caroços dos montinhos.

Depois de um pigarro encorpado, que tornavam rosado o entorno das bochechas coloridas por ruge, ela sacava uma pedra de madeira, numerada, do saco que não se cansava de sacudir, a olhava com inexcedível prazer e com voz sofisticada, diria mesmo esnobe, diversa da que usava no cotidiano, cantava o número sorteado.

Mais uma sacudidela no saco e retirava outra pedra e solfejava: número dois, escandindo as letras, a seguir idade de Cristo, que significava o número 33. E assim por diante, cada pedra tinha seu apelido. A 22 era dois patinhos na lagoa, a 15 inquizilou perdeu, a 90 nas ventas, seguida de um sorrisinho brejeiro, a 77 dois machados num pau só e raras pedras escapavam do apelido jocoso. Muito divertido, a gente ria, se cutucava, fingia que esbarrava no cartão alheio para desmarcá-lo, aguentava as broncas e a noite se esvaía sem que se percebesse.

Lá fora a escuridão um breu, assustador. As senhoras se espreguiçavam, trocavam amenidades, com vagar, e as crianças saltavam dos bancos como se tivessem molas e corriam pela sala. A cantadora piscava os olhos cansados enquanto devolvia as pedras à sacola e com lassidão no olhar puxava os cordões e a fechava. Com graça escondia um bocejo com a mão. Até mais, diziam, e as crianças munidas de lanternas de querosene se precipitavam para fora aos pulos. As mães mandavam tomar cuidado com os bichos. Podia ter cobra, escorpião, achavam.

Nas noites de luar, o balanço dos galhos e o sussurrar das folhas ao longo do caminho de volta parecia coisa de almas do outro mundo. Se um barulho diferente vinha do mato escuro as crianças se aterrorizavam e se colavam ás pernas maternas, atrasando a caminhada. As mais valentes davam as mãos às mães, e alegavam que temiam tropeçar nas raízes.

Na casinha que silenciava a cantadora tornava a bocejar, enquanto juntava os cartões que guardava num outro saco de pano branco onde bordara flores e borboletas.

B morreu na cidade do Rio de Janeiro, onde estava de passagem, soterrada pelo desabamento da casa onde se hospedava, durante um terrível temporal na década de 70.

SJB, 06.05.2017

 

 

 

6 \06\UTC maio \06\UTC 2017 at 15:32 Deixe um comentário

MILHÃO, BILHÃO, TRILHÃO

Foi a operação Lava jato que me fez conhecer o bilhão. Até então, o máximo que ouvia em termos de apropriação indébita era milhão, milhões. Ladrões fichinhas, se olhado pelo que se rouba hoje no país. Antes, quando a manchete dos jornais estampava a notícia de que tantos milhões haviam sido surripiados por espertinhos a gente ficava indignada. Hoje, quando se lê que políticos embolsaram indevidamente não sei quantos bilhões a título de ajudar em sua campanha eleitoral, quando pretendiam ajudar o país, acabar com nossa pobreza endêmica e tornar a educação e a saúde igual as do primeiro mundo, o queixo cai. De susto e de vergonha. Qualquer dia será o trilhão a se tornar popular. É mole?

Parêntesis: Aprendi, tempos atrás, que bilhão era uma bilha grande que não cabia no carrinho de rolimã ou então que era a talha de barro onde se guardava água potável antes de surgir a água encanada.

Afinal, circulava ou ainda circula no país tanto dinheiro? E por que ele não progredia? Por que não estava entre os líderes do primeiro mundo? Se a gente se der o trabalho de somar todas as quantias já mapeadas como roubadas e pensar que isso representa 1% de todos os contratos assinados pelas empreiteiras e intermediados por deputados, senadores, ministros, como se lê diariamente, fica-se imaginando a fábula de dinheiro circulante. Como se roubou nessa terra! As empresas indiciadas superfaturaram seus custos, em parte para poder pagar as propinas, em parte para embolsar mesmo, sem pensar em repartir esses lucros espúrios com seus funcionários,  já que eram contabilizados à parte. Aí é que se vê como nosso paísão é rico e como poderíamos tem um dos melhores índices de qualidade de vida do mundo, não tivesse sido invadido por ladrões do dinheiro público.

A arrecadação do governo, em que pese as lamentações dos gestores, aumenta sempre e de forma irregular, como por exemplo,  o imposto de renda, errado desde sua criação, pois salário não é renda, salário é fator de sobrevivência, de reposição da força de trabalho. Renda são aluguéis, lucros com investimentos, ações, bolsa de valores, etc. Para completar, as tabelas de desconto do IR este ano não foram reajustadas, apesar da inflação que corroeu os salários durante todo o ano. Nos anos anteriores o reajuste foi sempre abaixo do correto. E o governo reclama! Diz que tem sua capacidade de investimento diminuída. Para a questão da infraestrutura, de que o país tem tanta necessidade, diz que não há verba suficiente. Mas houve para as custosas e desnecessárias obras, como as da Copa do Mundo e da Olimpíada que, presume-se enriqueceu tanta gente. Até hoje não foram prestadas contas desses gastos. E ficou um monte de elefantes brancos e sujos pelas propinas.

Na verdade o Brasil é um dos países mais ricos do mundo, mas seu povo é o mais pobre. O atendimento à saúde é precário, diria mesmo criminoso, e a educação, fator de elevação do nível de um povo, é desprezada sistematicamente por que quanto menos instruído for um povo mais fácil de ser ludibriado e roubado. Não apoiar, não dar verbas suficientes para a educação é uma cruel política de estado, me parece. E não se pode esquecer a falta de esgotos em grandce parte das cidades e de estradas que permitam o deslocamento de pessoas e de cargas.

Isso mudará um dia? Fico na dúvida ao saber quer a Operação Mãos Limpas, que botou tanto corrupto na cadeia na Itália, foi destorcida pelo seu Parlamento e a corrupção continua. E aqui parece que vai ser parecido com o Congresso começando a aprovar leis que limitam o poder sanitário do juiz Sérgio Moro. O que já começou de forma indireta com a soltura de presos pelo STF. Valha-nos Deus!

SJB, maio,17

3 \03\UTC maio \03\UTC 2017 at 08:58 Deixe um comentário

O DIA DO VOVÔ Vovô Godofredo (Dodô Sá) aniversariava no dia 26 de outubro, um dia de muita festa em sua fazenda em Pipeiras.Ele plantava cana de açúcar que vendia à Usina Barcelos numa fazenda de bom tamanho. Um dia de muito movimento, precedido por dias de grande agitação. Vovô tinha 14 filhos, 11 irmãos e não sei quantos cunhados, compadres, amigos e correligionários, pois era um importante líder político, chefe do PSD – Partido Social Democrático na região e todos compareciam ao evento. Era corriqueira a presença de políticos, de vereadores a deputados. Esse mundo de gente exigia muita comida e bebida. A azáfama começava dias antes com o abate de dois grandes porcos, que vinham sendo cevados desde o início do ano, uns monstros de carne e gordura. Vizinhos e conhecidos ajudavam no desmonte e separação das peças que iam ser preparadas para servir. As crianças olhavam fascinadas a trabalheira, não havia como impedir que as elas vissem o abate, os gritos lancinantes dos animais soavam longe, e o desmembramento dos bichos. Abertos os corpos porcinos em mesas improvisadas ao lado da casa, as vísceras eram retiradas, separadas das tripas, que eram cuidadosamente lavadas para serem transformadas em linguiças. E que linguiças! Nada que parecesse com essas oferecidas pelos frigoríficos ora atormentados pela fiscalização midiática. Na casa de farinha aguardavam as sacas com farinha de mandioca torrada, ali mesmo produzida, os milhos debulhados, tudo misturado a prateleiras de queijos, protegidos por panos brancos, de doces batidos de frutas, também colhidas na propriedade, como bananas, goiabas e outras, latas de 20 litros de biscoitos de polvilho diversos, que foram assados dias antes, roscas de fubá e de polvilho, chamados de enganos, tapiocas e bijus e bolos de mandioca puba. Como não havia padaria por perto, talvez só em Beira do Taí, a mistura que acompanhava o café era feita na fazenda. Pão só dormido. Para completar o cenário caótico na casa de farinha, lembro as selas e arreios pendidos de grandes pregos na parede, jacás cheio de palha, onde as galinhas punham seus ovos, que iam se juntar aos guardados nos armários da cozinha ou já convertidos em bolos e mil doces. Os frangos eram abatidos em série e como na época não havia geladeira, eram assados ou preparados de outra forma para resistir. Dois ou três bois eram sacrificados, não só para os convidados, como para alimentar o farrancho de ajudantes que tinha vindo das cercanias, mas que não ficava bem ter de ir em casa almoçar. Além do mais era tempo perdido, todos os braços eram necessários. Parte da carne fresca do gado virava bifes que eram pendurados em varais pra se tornar “carne de vento”, uma espécie de carne de sol local. Como quem tem muitos filhos tem muitos netos, a criançada reinava e era preciso arrumar gente para cuidar dela, atividade reservada às adolescentes, que no meio da luta para controla-la se exibiam para a rapaziada. As crianças que chegariam no dia da festa ficariam a cargo de suas mães. Imagine a tropa de crianças se embarafustando pela casa, se metendo no meio das atividades, por entre as pernas de adultos ocupados, puxando sua roupa para atrair atenção, chorando, berrando, querendo isso e aquilo, com fome e com sede, atordoadas pela movimentação dos adultos. Em toda propriedade rural vivem cachorros e gatos e muitas vezes esses animais seguiam os vizinhos que vinham ajudar e junto com as crianças, com as galinhas loucas, que não podiam ser confinadas em galinheiros e bacorinhos berrantes, transformavam os bastidores da festa num cenário de horror e gritaria. Todos queriam alguma coisa a qualquer hora, e os animais, assustados com aquela balbúrdia, buscavam inutilmente recuperar sua tranquilidade, seu cochilo junto ao fogão, sua brincadeira de perseguir as galinhas, enfim a normalidade. Nas gaiolas presas nas paredes pássaros estridulavam seu espanto e susto. O povo convidado começava a chegar na véspera. Nos primeiros tempos a cavalo ou em carroças e charretes, depois em veículos motorizados. Os que vinham de longe e iam dormir ali, traziam quilos de roupas e outros objetos úteis e inúteis e era preciso acomodá-los, a casa era grande, mas não tanto, e minha avó, dona da casa, que por sorte era muito calma, começava a distribui-los. Mulheres e crianças nos quartos e os homens na sala, onde dormiriam em esteiras. E olhe lá! Não havia banheiros suficientes, os banhos eram em bacias e as outras necessidades fisiológicas no meio do mato. Ninguém sabia o que era papel higiênico e o remédio era usar folhas macias de árvore ou a aspereza das batueras. Batuera é o sabugo da espiga de milho sem os caroços, de mil utilidades. Isso redundava em situações hilárias ou constrangedoras. Vovô tinha um irmão, cujo nome me escapa, que era mestre em fazer brincadeiras de mau gosto, como passar pimenta nas batueras, servir bolos de batata purga ou jalapa, de alto efeito laxante, fazendo os mais gulosos serem atacados por cólicas e diarreias e correrem desesperados para os matos ao redor da casa para se aliviar e se limpar com as batueras apimentadas e aí… No principal dia da festa era servido um almoço especial, ainda não havia churrasco, a carne de boi era servida de diversas maneiras, assada, ensopada, frita, o escambau. Não tinha como ter muita variedade, era feijão com arroz, macarrão, farofa e ovos fritos e as carnes. Às vezes peixes pretos, do brejo. Cachaça rolava, de garrafa, de barril, no copo, no cuitê, no copo. E as pessoas, barrigas cheias, se arriavam onde podiam, debaixo de árvores, de carroças, em rede ou cama que encontrassem vazias, no meio do capim. O sol batia de chapa e no final da tarde, quando se recuperavam, procuravam onde tomar um banho, porque a festa seguia e à noite teria baile com quadrilha na grande sala da frente. Uma fogueira tinha sido montada aonde os porcos tinham sido abatidos dias antes. As crianças cortavam varas de bambu verde e jogavam na fogueira para estourar que nem foguetes. Uma farra. Com outras varas, essas secas, puxavam as batatas doces que tinham sido jogadas no meio das brasas para assar. Pelando, queimando as pontas dos dedos, a fina a casca era arrancada e nem se esperava que esfriasse de todo para serem comidas. Gritos, pulos, risadas, corridas para fugir de quem não arrastou sua batata e queria pegar a que você carregava e comia ao mesmo tempo. Maravilha. A noite era encerrada com um baile tocado a sanfona e pandeiro na grande sala da frente, tendo como última dança uma quadrilha comandada pelo aniversariante. Ainda não havia o hábito de soprar velinhas e cantar parabéns, não que me lembre. Lá fora o céu brilhava intensamente, pontilhado por mil estrelas. Se havia lua os mais novos brincavam de roda no terreiro, se não os pares se formavam para início de namoro, carinhos delicados e fogosos e saudades antecipadas de festa tão gostosa. Rio das Ostras, 19.04.2017

24 \24\UTC abril \24\UTC 2017 at 15:47 Deixe um comentário

A CAMPOS QUE CONHECI

Em 27 de março a cidade de Campos dos Goytacazes completou 182 anos, 15 anos a mais que São João da Barra. É que as duas são cabeças de municípios criados em datas próximas um do outro por determinação da Coroa portuguesa para limitar as ambições e peripécias do Visconde de Asseca e seus filhos, os Sá.

Quando conheci a cidade de Campos na década de 40 do século passado ela não era dos Goytacazes no título, embora tivesse sido no tempo em que os portugueses decidiram colonizá-la, eufemismo para justificar a exploração econômica. Bom, mas isso é coisa para historiadores, quero falar aqui da diferença entre a Campos de hoje e a que conheci quando ali fui morar, em 1944, por aí.

A primeira imagem que me vem à lembrança é a dos claros e alegres domingos de manhã, dias de regata, quando a margem do rio Paraíba do Sul se enchia de gente bonita e bem vestida para apreciar os elegantes barcos deslizando nas águas turvas. A regata era um belo espetáculo, dois ou três clubes locais disputando com outros que vinham de outras plagas. Lembro a Campos do chique Saldanha da Gama, clube de regatas famoso, cuja bela sede, erguida num canto da praça menor, foi espaço de tantos bailes de gala, agora transformada num shopping medíocre. Outro clube de regatas que lembro é o Rio Branco, cuja sede ficava também naquela margem, local hoje ocupado acho que pelo Corpo de Bombeiros e Receita Federal. Naquela margem também ficava a fábrica de tecidos e me lembro de ter visto fila de operários em suas calçadas. Ali ficava também a loja maçônica Atalaia do Sul, onde fui batizado numa Festa Branca em 1953.

Na citada praça, cujo nome, se não me engano é das Quatro Jornadas, do lado oposto ao lugar onde ficava o clube, na esquina da avenida Alberto Torres, erguia-se a , ladeada pela Igreja Mãe dos Homens. A igreja, de risco parecido com as igrejas barrocas mineiras e coma  igreja da Boa Morte, em São João da Barra, construída  no século XVIII, foi demolida, juntamente com seu hospital e cemitério e durante alguns anos tornou-se um estacionamento de veículos, uma pena. A imagem do altar-mor, uma Pietá, está agora no saguão da nova Santa Casa na avenida Pelinca.

Campos fervilhava, o bulevar Paula Carneiro, apelidada de Rua do Homem em Pé, onde negociantes e donos de dinheiro e de canaviais faziam negócios em frente aos cafés. Muito dinheiro ali trocou de mãos. As usinas não paravam de moer e anos depois, quando estudava em Niterói e vinha em casa o ônibus atravessava canaviais sem fim onde hoje ralos e extensos pastos recebem poucos bois. O dinheiro buscava a cidade, polo comercial, agrícola e industrial de todo o norte e nordeste fluminense. Era tanta a sua importância que se chegou a pensar e a tentar mudar para cá a capital do estado do Rio, então em Niterói. As academias se multiplicavam.

Irônico, o rio Paraíba do Sul, observava essas mudanças. Mal sabia ele que seu terrível destino também estava traçado e alguns anos depois, usado sem critério, vilipendiado, se transformaria numa triste e trágica imagem do rio portentoso que foi.

Campos parecia imbatível em sua ascensão. Quando o petróleo finalmente jorrou no mar e por um truque de coordenadas o município ficou com a maior parte de seus rendimentos, imaginei que o céu seria o limite, embora por esse tempo o fascínio que a cidade exercia sobre sua vizinhança estivesse em declínio. Ninguém mais pensaria em indicá-la para capital do estado. Em compensação suas cenas de violência, como os tiroteios junto à catedral ou o crime no ônibus, cujas fotos ficaram expostas nas paredes externas da Casa do Macaco, tenham se transferido para o outro lado do rio e o movimentado e colorido mercado municipal tenha sido colocado do lado de fora do velho mercado, aonde eu ia também aos domingos, levado pelo meu pai para comprar verduras, legumes e frutas.

A Campos que conheci me deixou saudades, inclusive do menino que eu era.

 

5 \05\UTC abril \05\UTC 2017 at 16:31 Deixe um comentário

AMIGO ÍNTIMO

Nunca tive um amigo íntimo, aquele amigo de infância, do coração, a quem a gente faz confidências, desabafa e conta mentiras, curte as primeiras namoradinhas, aprende as noções básicas e nem sempre corretas sobre sexo, leva para almoçar e dormir em nossa casa e para fazer parte de passeios e festas familiares. Nunca pertenci a grupos de garotos e patotas, nem mesmo no colégio.

Não que eu seja antissocial, tímido ou esnobe, longe disso.  Gosto muito de conversar, trocar ideias, jogar conversa fora. Só não gosto de furdunço, muito barulho e brincadeiras abusivas. Mas é que, dadas as mudanças da família, não tinha tempo para criar ou pertencer a um grupo, criar laços. Quando moramos na rua João Pessoa, em Campos dos Goytacazes, vivíamos encerrados no quintal, assim como outros garotos e garotas que moravam na rua, que era então considerada perigosa, com automóveis a cruzá-la a mais de 40 km por hora. E foi o lugar onde morei mais tempo, dos 5 aos 10 anos.

A seguir fomos para a avenida Maria Silva, na rua Formosa (Tenente Coronel Cardoso). Um tempo bom, brinquei muito de pique, de roda, de jogar bola e pião. Havia um conjunto de três avenidas com, se não me engano, 23 meninos, fora as meninas. A avenida era larga e raros carros passavam por ela. A garotada estava em permanente ebulição, exceto na hora do colégio. Os meninos das avenidas menores se deslocavam para lá e lembro as peladas, as brincadeiras de mocinho e bandido, imitando o que assistíamos no cinema. A gente saplemava – rendia o inimigo, que era obrigado a levantar os braços, com um inglês estropiado. Ficamos ali pouco mais de um ano e quem consegue consolidar uma amizade unha e carne em tão pouco tempo?

Morava ali quando fiz o admissão e entrei para o Ginásio São Salvador, de doce memória. Logo nos mudamos para uma casa na rua Dona Branca, no bairro do Turf, no final da linha do bonde. Alguns meninos espalhados, mesmo assim a gente conseguia se reunir, brincar muito e aprontar. Mais um ano e lá fomos nós de novo, desta vez para Atafona. Depois de lutar muito para equilibrar sua vida financeira, papai conseguiu emprego no Hotel Cassino como gerente do jogo, coisa que ele entendia bem. Fomos morar na Vila Maria da Glória, uma das quatro casas próximas ao cassino.

Enquanto isso eu fui morar na casa vazia da avenida Maria Silva, que meu pai vendera a meu avô, seu pai, na época do sufoco. Dois tios dormiam lá e eu comia na casa de um primo. A meninada de antes tinha se espalhado e novos amigos, vindos do ginásio eram mais assíduos. Fim de semana em Atafona e não conseguia criar limo, fixar amizades. Em Atafona, praticamente deserta durante os meses fora de temporada, não dava para solidificar amizades. Durante o verão algumas surgiam, mas eram sazonais, interessantes mas de pouca duração. Em Campos passei a morar em pensão para completar os estudos no Liceu e não havia meninos/adolescentes do meu tope.

Como planta sem raiz, movida pelo vento das mudanças familiares, eu não conseguia firmar amizades. De novo vivendo em Campos, com a família voltando a morar em São João da Barra, onde meu pai aceitara o convite de Hugo Aquino para remontar sua farmácia no conjunto de consultórios médico e dentário para atender aos empregados da indústria, só vinha em casa nos finais de semana. Claro que arrumei amigos, saía para pescar, para dançar, para namorar, mas o amigo, aquele cara especial, ficara pelo caminho. Pouco tempo nessa situação e logo indo morar em Niterói, numa pensão da rua Saldanha Marinho para cursar o pré-vestibular. Ali então não deu para arrumar amigo, na pensão só tinha adultos e essas amizades perfeita surgem entre a infância e a adolescência.

E assim termina essa melancólica crônica, apontando os mil amigos, conhecidos e colegas feitos durante a caminhada da vida, sem no entanto arrumar um amigo íntimo, um só que fosse. Frustração.

SJB, 17.03.2017

18 \18\UTC março \18\UTC 2017 at 15:27 Deixe um comentário

NÃO MAIS SE CRIAM GALINHAS

Antigamente – não muito antigamente assim – as casas tinham quintais e nesses espaços tão especiais e íntimos, entre singelas árvores frutíferas, as pessoas criavam galinhas, plantavam hortinhas e um ou outro pé de couve, de espinafre ou ainda se erguiam jiraus de madeira onde se penduravam chuchuzeiros, pés de baiano (como em Campos era chamada a bertalha) e até mesmo uva. Quando estive em Portugal e viajei de trem de Lisboa para a cidade do Porto via nos fundos de cada residência um pé de couve. É humanizante essa visão.

Fugi do assunto que pretendo tratar aqui, o fato de não mais se criarem galinhas em casa. O surgimento das grandes granjas de aves, com sua inacreditável produção de ovos, ensejou o surgimento do frango de padaria, uma gostosura que a gente encontra já assadinho, temperado, seu cheiro ativando nossas glândulas salivares, prelibando o almoço de domingo. Para a dona de casa, responsável por encher o bandulho da tropa de parentes que aos domingos invadia sua casa, foi uma mão na roda. A seu cargo ficou o arroz, a salada e um ou outro complemento. Aos domingos não se comia feijão, a não ser que fosse numa feijoada, e meu avô materno dizia que ele comia feijão em sua casa, na casa dos filhos, onde ia almoçar aos domingos, queria outros acepipes, como macarronada ou arroz de forno. E era sempre atendido.

O frango de padaria acabou com um drama que se repetia cada vez que se tinha de comer frango: abater o dito cujo. Vi muitas vezes o sacrifício da ave, que era levada ao fundo do quintal, pernas presas sob o joelho da carrasca – geralmente quem matava o frango era a empregada – as asas sojigadas com uma das mãos, o pescoço esticado, a cabeça dentro do recipiente que ia recolher o sangue, e as penas do pescoço arrancadas para se liberar a área do corte. A galinha reclamava todo o tempo da operação com indignados cocoricós que não comoviam sua agressora. Feito o corte, a cabeça era mantida na posição, se, impulsionado pelo jato do sangue, o animal sairia pulando meio de lado pelo quintal. O cachorro latia, furioso, preso na corrente.

Um espetáculo desumano, terrível, digno de filme de terror, mas que na época era encarado com naturalidade até pelas crianças. Claro que hoje os frangos de granja são abatidos de modo parecido, salvo os destinados para o mercado muçulmano que precisam ser postos em posição de atender aos requisitos da religião, o mesmo sendo feito no abate de animais maiores, como bois, porcos, carneiros e outros.

Foi realmente prático, rápido e higiênico esse modo de criar e abater galinhas. Alguma coisa, porém, se perdeu nessa mudança de hábito. As galinhas no quintal davam à casa um toque de familiaridade, não sei se é o termo correto, seus cocoricós e corridinhas atrás insetos eram confortantes, a gente sabia que estava no lar. São aves bonitas, de cores diversas, plumagem em diferentes tons, afagam os olhos, pelo menos os meus. Não é como quando se olha uma granja com aqueles milhões de aves brancas, descoradas, despersonalizadas, que vão produzir ovos de um amarelo sem vida. Deveríamos poder voltar a criar galinhas em casa.

19 \19\UTC fevereiro \19\UTC 2017 at 12:24 Deixe um comentário

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